As sílabas marginais/VILA/Nelson Ferraz

 

VILA

 

 

às coisas belas das tardes no douro

onde, nas férias, o pai sossegava, como num berço

sob um céu de serenidade.

 

o pai falando de coisas belas ao lavrador antigo:

das pequenas vitórias na cidade, dos filhos, do tempo

e da saudade.

 

o lavrador antigo falando de coisas belas ao pai:

das colheitas, dele próprio, das vidas por ali, do tempo

e da saudade.

 

os dois de cerveja na mão e um olhar estrelado de memórias

com o sol quente de agosto nas horas compridas da vila.

 

e a mãe, envolta na brisa do seu leque, medindo o comboio

lento dos instantes.

(– “vou ter saudades disto, destes montes, vou ter saudades”,

disse-me, uma vez, a mãe, muito mais tarde, quando era já tarde.)

e a mãe, envolta na brisa, olhando a tranquilidade dos ramos

e o rosto, cheio de rostos ocupados em outros lugares.

 

ali,

cheirava a flores, cheirava a água de regar e a rugas mansas.

 

aquele quintal era luz quente com árvores, couves, uvas

e pardais morenos como o corpo das palavras.

 

às coisas belas das tardes

de todas as tardes, onde havia douro

e pais,

brindo com esta caneta de tinta azul.

 

e esta caneta – um arado no peito.

 

Nelson Ferraz

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