VILA
às coisas belas das tardes no douro
onde, nas férias, o pai sossegava, como num berço
sob um céu de serenidade.
o pai falando de coisas belas ao lavrador antigo:
das pequenas vitórias na cidade, dos filhos, do tempo
e da saudade.
o lavrador antigo falando de coisas belas ao pai:
das colheitas, dele próprio, das vidas por ali, do tempo
e da saudade.
os dois de cerveja na mão e um olhar estrelado de memórias
com o sol quente de agosto nas horas compridas da vila.
e a mãe, envolta na brisa do seu leque, medindo o comboio
lento dos instantes.
(– “vou ter saudades disto, destes montes, vou ter saudades”,
disse-me, uma vez, a mãe, muito mais tarde, quando era já tarde.)
e a mãe, envolta na brisa, olhando a tranquilidade dos ramos
e o rosto, cheio de rostos ocupados em outros lugares.
ali,
cheirava a flores, cheirava a água de regar e a rugas mansas.
aquele quintal era luz quente com árvores, couves, uvas
e pardais morenos como o corpo das palavras.
às coisas belas das tardes
de todas as tardes, onde havia douro
e pais,
brindo com esta caneta de tinta azul.
e esta caneta – um arado no peito.


Muito Bom!