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Gritar ao vento que passa
Coimbra, em 5 de Junho de 2025
Dentro de dias iniciarei a publicação de uma série de textos pessoais dedicados à morte da Universidade, uma morte lenta que ninguém quer reconhecer, por ignorância, por comodidade ou mesmo por maldade. Muito desses textos toma como referência a FEUC, mas o que se diz dela é extensível a todas as outras, ou o sistema de ensino não fosse ele o mesmo, embora não me custe a admitir que haja pequenos nichos de exceção em mestrados muito específicos, mas fora disso, é tudo equivalente.
Trata-se de um texto escrito em março, um texto longo, muito longo, e deixado em poisio para depois o reler e eventualmente modificar. Mas não vale a pena, é melhor deixá-lo como está, e assim manter o ar de escrita não sofisticada, não elaborada, para manter o ar de uma escrita sentida, sentida com o coração de quem viveu a Universidade durante quase quarenta anos e a vê hoje em situação de morte lenta, à espera da emissão da sua certidão de óbito.
Uma professora universitária deste país que leu um excerto do texto diz:
“Bom, não me parece que os professores se sintam pressionados a passar os alunos. Aliás a má avaliação de um professor pelos alunos, em Portugal, não tem efeito na sua carreira. Ele deve ter cuidado nessas afirmações. Eu acho que a nível da licenciatura há realmente alunos muito incapazes (e acho que em grande medida é culpa dos pais), mas por acaso este semestre estou muito contente com [os alunos] de mestrado. A universidade não está morta. Não podemos pensar assim. É ainda um lugar privilegiado de desenvolvimento de pensamento e de difusão do saber. Mas que há muitos que nem querem saber, isso é verdade”. Fim de citação.
É uma opinião que respeito, mas se a lerem com cuidado verificarão que há nela muito de comum com a crítica que faço ao longo de dezenas de páginas.
Não toco no texto escrito em março, mas deixem-me fazer duas a três perguntas e pensem nelas:
- Quando se escreve cada vez menos, quando se sabe cada vez menos articular duas a três frases de sequência, não há ninguém em Portugal que seja capaz de proibir as provas de exame de resposta múltipla?
- Ligada a esta questão haverá gente em Portugal professores capazes de estruturar provas de resposta múltipla com pontuação negativa?
- Porquê as provas de exame em sistema digital na Universidade e possivelmente muito em breve no secundário? Porque os alunos não sabem escrever? Porque o professor tem muita coisa para fazer além de dar aulas, como disse Tiago Sequeira na Assembleia da República?
Hoje a maioria deles [alunos] não saberá escrever decentemente e porquê? Porque nascem menos capazes que as gerações anteriores? Não, não sabem escrever decentemente porque não são ensinados a fazê-lo.
No contexto de hoje seriam necessárias turmas mais pequenas do que no meu tempo. Façam-nas então. São necessários mais ditados, são necessárias mais composições, é necessária mais insistência na matemática e no português. Seguramente. Façam-no. Comecem por investir a sério no ensino primário e, se necessário for, passem-no para cinco anos, mas sem redução de carga horária. Seria fácil a reestruturação nesse sentido.
Creio que estou a gritar para o vento e para governantes que são surdos à expressão ensinar com seriedade, a começar pelos ministros de tutela de António Costa e a acabar no atual ministro Fernando Alexandre. Tive conhecimento ontem de um relatório oficial – CNA PRR Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR – Relatório 1-2025 (original aqui)– onde se pode ler a seguinte obra-prima:
“Adoção de manuais digitais
De acordo com a informação obtida e com base nas experiências feitas nos projetos-piloto e as práticas internacionais, o uso de manuais digitais na sua generalidade não será feito. Uma das razões fundamentais é de que a prática da escrita é importante para o raciocínio mental, bem como existirem matérias que não devem ser feitas só no digital.
Para já a decisão foi tomada para os 1º e 2º ciclo, onde não é mesmo considerado adequado, sendo que nos restantes anos é preciso continuar a avaliação.
Esta avaliação não impede, no entanto, a preparação de recursos educativos digitais, para melhorar a diversidade de recursos disponíveis e capacitar digitalmente professores e alunos”. Fim de citação
A conclusão a tirar é simples: em Portugal e ao nível governamental é preciso fazer a experiência real para se saber que, se enviados num veículo normal a 100km/hora e nos atirarmos frontalmente contra um muro de cimento, nos magoaremos fortemente. No caso do ensino foi feita e tem sido continuada.
Toda a gente sabia desde o Covid que o ensino digital seria uma fraude e toda a gente fingiu que tudo decorreu normalmente. E o Governo Costa repetiu a façanha, criando o ensino digital, e o governo da AD foi incapaz de dizer não. O ministro Fernando Alexandre tem uma formação universitária sólida, tem filhos, tenho a certeza que acompanhou de perto a educação deles, tem a obrigação, portanto, de saber que é um crime obrigar os estudantes ao ensino digital e que estes podem ficar mutilados para a vida na sua capacidade de aprendizagem.
O ministro manteve o ensino digital que estava e isso é o mesmo que atirar pessoas num automóvel contra um muro a 100Km à hora. Não foram os seus filhos, foram os filhos dos outros e a minha neta, uma aluna na Martim de Freitas em Coimbra, é um destes alunos que foram atirados contra o muro da ignorância! Não a pude colocar no ensino privado ou público noutra escola porque não há nenhuma perto do local onde mora.
Na mesma linha, como é que se entende que nem o governo PS nem o governo da AD anterior tenham tido a coragem de regular decentemente a utilização dos telemóveis nas escolas? Ou será que os governos de turno acham que devemos criar crianças dessocializadas, crianças agarradas nos recreios ao seu telemóvel, crianças incapazes de comunicarem umas com as outras?
A citação acima da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR dá-nos o sinal de que nada de especial vai mudar quanto à digitalização do ensino. Lampedusa tem razão e o ministro sabe-o: é preciso que alguma coisas mude para que tudo possa ficar na mesma.


