Hoje, escrevo na primeira pessoa – por Carlos Pereira Martins

Hoje, escrevo na primeira pessoa

por Carlos Pereira Martins

Hoje tomo a liberdade de escrever na primeira pessoa. Não por vaidade, não por querer recentrar o mundo em torno do meu olhar, mas porque, desta feita, aconteceu-me a mim. E como homem livre de preconceitos que sou, julgo poder, sem culpa nem arrogância, escrever de quando em vez na primeira pessoa — quando a ocasião, como esta, o justifica. Porque sim, foi comigo que aconteceu. E mais do que isso: foi em mim que reverberou.

Ontem, num desses dias em que o tempo parece feito de seda — deslizando com leveza, sem atrito, sem urgência — passei, no entremeio da manhã e da tarde, pelo consultório da minha dermatologista. Nada de grave, que se tranquilizem os que logo supõem doenças e receitam temores: tratava-se apenas de uma limpeza de pele, uma dessas diligências menores a que a vaidade discreta ou a higiene estética obrigam. Nem sinais havia que alarmassem. Mas a limpeza impunha-se. E há coisas, mesmo pequenas, que quando se impõem, devem ser feitas com a serenidade de quem reconhece o lugar que o cuidado deve ocupar no quotidiano.

Terminada a consulta, dirigi-me à Feira do Livro, essa romaria laica que Lisboa acolhe anualmente no ventre verde do Parque Eduardo VII, e que me é, há décadas, um ritual de afecto e cultura. Ia com dois propósitos: oferecer um exemplar do meu livro à escritora Lídia Jorge — mulher de letras que tanto admiro e de quem sou amigo — e distribuir abraços e palavras doces à amiga Alice Vieira, essa incansável contadora de vidas e de infâncias.

Não tive, por tudo isto, tempo para almoçar. A fome, porém, não tardou a reclamar atenção. Acabei por comprar, num dos muitos pontos de venda do topo norte da Feira, uma espécie de leque enorme com recheio — um “guardanapo” generoso, de massa muito agradável, recheado com salmão, agrião fresco e molhos de nome incerto mas sabor apurado. Para acompanhar, pedi uma cerveja, servida em copo de plástico para voltar a utilizar mas fresca quanto baste.

Com alguma sorte e alguma persistência, encontrei lugar na esplanada do topo norte. Aquele patamar que se eleva, quase em homenagem, sobre o relvado central, com vista plena sobre as bancas e os passos apressados dos visitantes, o Marquês de Pombal e o Tejo. Fica-se ali como num camarote, espectador privilegiado da maré humana que desagua em livros. Pedi licença para me sentar numa ponta de mesa já ocupada por duas jovens. Era o único lugar livre. Foram simpáticas. Concordaram com um sorriso.

Conversavam entre si, em tom íntimo e tranquilo, como quem já se conhece há muito e não tem pressa de partir. E foi então — sem que eu procurasse escutar, mas sem poder também evitar ouvir — que me chegou o som daquela conversa que me haveria de fazer sentir, nem consigo bem definir o quê. Não pela confidência em si, mas pela forma, pelo timbre, pelas palavras usadas.

Uma delas mostrava à outra uma peça de roupa, talvez um colete, talvez uma “malha”, como lhe chamou. Contava que a tia lha fizera. Ela própria apenas escolhera e comprara os novelos e as cores. A tia, paciente e dedicada, tratara do resto. Contou ainda, com orgulho sereno, que essa mesma tia fizera, no inverno passado, uma camisola para o Miguel — o nome foi dito com naturalidade, como se fosse familiar a ambas. Suponho que seja o namorado, ou talvez irmão, talvez um amigo próximo. Pouco importa. O que importou foi a resposta da outra: «Mas então fica-te barato, muito em conta, só pagas as lãs.»

Estas palavras — tão simples, tão comuns outrora — soaram-me como um eco do tempo. Um fragmento preservado de uma oralidade antiga, que eu julgava já soterrada sob as camadas ruidosas da linguagem corrente. Aquelas duas jovens, na casa dos vinte e poucos, com os seus modos modernos e o seu ar despreocupado, falavam com a delicadeza de quem herdou não apenas vocabulário, mas também o espírito de uma tradição familiar, doméstica, afectuosa. A linguagem não era agressiva, nem estilizada à força. Não havia, não usavam palavras como  “essa cena”, nem “bué de caro”, nem “tipo” a pontuar cada frase. Falavam com palavras inteiras, frases compostas, um português de outros tempos, mas pronunciado com a frescura de hoje. E isso — confesso — tocou-me profundamente.

Lembrei-me, com súbita nitidez, das conversas entre a minha mãe e as minhas tias, da minha avó com as amigas que se visitavam ao domingo e partilhavam receitas, conselhos de costura e histórias dos filhos. Lembrei-me de mim, muito pequeno, sentado num canto da sala, a fingir que não ouvia, mas a absorver cada expressão, cada inflexão de voz, como quem recolhe tesouros que um dia virão a ser memória. E ali estavam aquelas jovens, sem o saberem, a ressuscitar esse léxico íntimo, a devolver-me um mundo perdido sem darem por isso.

Permaneci em silêncio. Sorri por dentro. A cerveja soube-me melhor. O céu mantinha-se limpo, a tarde prometia calor intenso e a Feira do Livro fervilhava já com o entusiasmo habitual. Mas tudo em mim, naquele instante, se recolhia àquela mesa partilhada, àquela conversa inesperada que me devolvera, por breves minutos, a um tempo em que o mundo parecia mais próximo, mais falado, mais tecido à mão.

E pensei — com alguma esperança, confesso — que talvez nem tudo esteja perdido. Que entre os ruídos das novas linguagens, dos atalhos verbais, das fórmulas apressadas, ainda haja lugar para a fala plena, para a palavra com peso e história, para o português com todas as letras.

Que bom. Que bom foi ouvir. Que bom foi ver. E que bom foi viver este momento, ali, sobranceiro ao vasto relvado do Parque Eduardo VII, na Lisboa de 2025, enquanto a cidade folheava livros e as palavras, por uma vez, me folheavam a mim.

 

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