Politólogos, onde se fabricam, sabem?! – por Carlos Pereira Martins

Politólogos, onde se fabricam, sabem?!

por Carlos Pereira Martins

Cheguei à Feira do Livro de Lisboa ao fim da tarde, com a promessa de um debate no Auditório Sul que me despertava um certo entusiasmo: Pedro Adão e Silva estaria à conversa com Manuel Maria Carrilho, meu antigo colega do Liceu de Viseu e cúmplice de algumas futeboladas no Largo do Massorim. A nostalgia desses tempos deu-me um certo conforto enquanto me sentava à espera.

Entretanto, captou-me o interesse uma sessão que decorria no mesmo auditório, dedicada à apresentação de um livro sobre as Eleições Constituintes de 1975. À mesa estavam um professor da Universidade da Beira Interior e uma professora do ISCTE — “politóloga”, como a apresentou o moderador, com ênfase académica.

A professora tomou a palavra durante grande parte da sessão. Falou de forma articulada, segura, com aquele domínio das ideias que nos prende, mesmo quando já conhecemos parte do argumento. Mas a certa altura, talvez levada pela brisa que entrava insistente — ou pelo ar condicionado que parecia querer marcar presença — concentrou-se num ponto específico: a natureza verdadeiramente universal, ou não, dessas eleições.

Foi aí que começou a construir um raciocínio que dizia pouco ao comentar, mas, segundo ela, inegável: nas Constituintes de 1975, nem todos os cidadãos tiveram direito de voto. Argumentou que aos que haviam colaborado com o regime anterior, aos que tinham exercido cargos no Estado Novo, foram excluídos os direitos de participação no sufrágio. Um detalhe técnico, sim, mas com implicações que ela fez questão de sublinhar. Reiterou a dúvida que nunca será desfeita, se tivesse sido dado o direito ao voto a “TODOS”, como teria ficado a estrutura do poder dali saída? A composição da Assembleia Constituinte e, em resultado, a Constituição que dela saiu.

Da assistência, alguém interrompeu. Com algum fervor, recordou que essas eleições foram as mais participadas da nossa história democrática, com apenas cinco por cento de abstenção e filas intermináveis para votar. Lembrou também que, pela primeira vez, até analfabetos constaram dos cadernos eleitorais — não só os “Doutores bem comportados” do tempo da ditadura.

Mas a professora não recuou. Manteve o ponto, repetiu os argumentos, defendeu a tese. Não cedeu à interrupção, nem ao entusiasmo do contraditório.

Sabemos que os PIDES e fascistas eram muitos mas a ponto de alterarem a estrutura dos resultados que da eleição saíram… não é nada provável.

Eu, por minha parte, permaneci calado. Dominei o impulso — e não foi fácil. Sei bem como estas intervenções, feitas no calor de um debate, começam com uma pergunta e acabam por descambar em algo mais agreste, mais pessoal, menos construtivo. Talvez, no silêncio, tenha contribuído para a serenidade do momento, para a auto-estima da oradora, quem sabe até para o brilho académico do seu currículo.

Mas devo dizer: é preciso ter muita lata! Como anda “alguma” da nossa — e minha — academia. Voltem rápido, António Simões Lopes e José Barata-Moura, Magníficos Reitores! Pois esta está nas margens… e sem remos à vista.

 

 

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