A leitura dos jornais, tanto os de cá com o os lá de fora (menos o manha de todas as manhãs), traz-me hoje mais angústia que prazer e, não fora a profissão que exerci durante umas dezenas de anos, já tinha deixado de os ler, por uma citação hoje bem reveladora, da autoria de Timothy Garton Ash, ‘A Europa é o lugar onde o jardim de Goethe encontra o campo de concentração de Mauthausen’.
Ash, o autor da ‘História do Presente’, professor em Oxford, e colunista no ‘The Guardian’, tem uma visão crítica da evolução cultural e política, bem mostrada naquela frase, pois os europeus acreditaram que a liberdade era um processo histórico, esquecendo como teriam sempre de lutar por ela.
E, a complementar bem esta ideia, a investigadora em ciência política e Anna Ortega, afirma no ‘Público’ daqui ao lado, ‘O mais assustador é que não estamos a falar de uma ameaça externa; a extrema direita já está dentro, dos governos, do Parlamento Europeu, no espaço do debate público. As suas ideias deixaram de ser impensáveis para se tornarem aceitáveis, e até já foram repetidas por alguns partidos tradicionais, o que contribui para sua legitimidade’.
Na opinião de Anna Ortega e do economista de Harvard, Dani Rodrik, tudo é consequência do efeito Trumpa, que até dá origem ao bem conhecido ‘trilema de Rodrik’, que traduzi e aqui transcrevo, ‘A integração económica global, a autodeterminação nacional e democracia, não podem existir ao mais alto nível nem ao mesmo tempo. Só se podem escolher duas daquelas opções, sacrificando necessariamente a terceira’.
Talvez por isso, o poeta e escritor Luís Castro Mendes, deixou escrito na crónica no DN do dia 11, ‘Olhemos para a Europa: a extrema-direita cresce por todos os Estados, e interrogamo-nos até quando a direita, que se reclama da Democracia, irá fazer barreira a essa torrente e manter o seu lema, “não é não”. A esquerda, obviamente, deve assumir como sua missão o combate, sem reservas nem meias palavras, àqueles que querem o suicídio do regime democrático’.
É um problema deveras complicado, principalmente por ‘É triste que em Portugal a cultura seja sempre desprezada, minimizada, olhada de soslaio, posta no canto das grandes decisões políticas’, escreveu o professor, poeta e crítico literário António Carlos Cortez, no DN do dia 9; mas Cortez vai mais longe ‘Não admira. Para quantos – do cinema ao teatro, das artes performativas à literatura, dos museus às associações culturais, da música (a de qualidade e não a música de contrafacção cultural) à dança – vivem numa autêntica sobrevivência existencial; a inexistência de um Ministério da Cultura só vem confirmar a lógica de mediocridade que este Governo irá implementar nas mais diversas áreas e sectores’.
E aqui deixo também algumas frases de um já antigo cronista, também escritor e professor, Garcia Montero, ‘Obrigado às pessoas que saem de casa todas as manhãs e vão para o trabalho, a pé, de carro, de metro ou combóio. Obrigado aos ouvidos que acordam com o rádio, ouvem as notícias e pedem à água do chuveiro que os purifique das decepções e tristezas. Obrigado aos que tomam o primeiro café e descem as escadas em busca dos seus dias, aos habitantes das horas que se vestirão a bata branca dos hospitais, à vocação dos professores que ensinam a somar e multiplicar nas aulas. E, diante dos políticos corruptos e dos empresários que corrompem e subornam, obrigado a todas as pessoas que dão sentido à vida, e nos ajudam a seguir em frente’.
E será que esta Carta poderá contribuir para ajudar as pessoas a pensar no que afirma Garcia Montero? Luís de Castro Mendes, no DN do passado dia 18, mostra-se muito céptico, ‘Nem a guerra, tão iminente, parece afectar grandemente a opinião pública. Mas diz-se que era assim, do mesmo modo, o ambiente em Paris em 1914 e em 1939. E que havemos nós de fazer, qual é o nosso poder enquanto europeus, que rosto mostraremos ao mundo, nós que nem um extermínio a decorrer sob os nossos olhos, em Gaza, conseguimos contrariar?’
Quem puder e souber responder, que o faça bem alto!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor