Há já alguns dias li na net, porque a maior parte dos livros que gostaria de ter, se calhar, vou ter de os adiar definitivamente, a ver pelas ‘promessas’ do novo Orçamento que nos vai cair em cima um dia destes, mas li como disse atrás, um poema do poeta e professor catalão Joan Margarit, e não consegui deixar de apontar um verso, por me tocar muito fundo, e me chamar a atenção para um dos mais graves problemas destes tempos, a leitura e a liberdade.
Tenho que escrever sobre este verso, tanto pelo andar dos diversos movimentos (uns políticos e outros também não) surgidos nos últimos tempos, e que tantos problemas já estão a dar no mundo inteiro, muito mais ‘quando o incómodo da indignação cai sobre os justos’ nas palavras do professor de Direito em Lisboa, Miguel Romão, no DN do passado dia 18.
E o tal verso, apenas um único, abre um universo de autores, de títulos, de factos e de ‘estórias’, todos a fazerem parte da História deste mundo, qualquer que seja o ângulo por que se observe, qualquer que seja o lado por onde se comece a leitura, por ser apenas uma frase simples, que vale por si própria, independentemente de quem a pronunciou, “A liberdade é uma livraria. Uma forma de amor, liberdade”.
Outro catalão, o professor Joan-Carles Mélich da Universidade de Barcelona, salienta bem este problema ao afirmar ‘A tradição ocidental, na sua versão metafísica, nunca suportou o estranho, o estrangeiro. Procurou sempre a sua captura, domínio, e a integração no sistema, no Todo, no Ser. Por isso não suportou a leitura, por ler obrigar a sair de si e, ao fazê-lo, colocar o leitor frente ao estranho’.
Mas, voltando a Miguel Romão, ao escrever que a indignação cai sobre os justos, salienta bem ao acrescentar, ‘Os demais, os brutos e errados, estão aparentemente bem. Sob o conforto do processo judicial, da justiça construída para proteger todos de alguns, mas que também é a justiça que deve proteger um de todos; não há opiniões respeitáveis quando elas se concretizam no ódio a outros; não há posições aceitáveis quando a sua base dita política é a de eliminação de qualquer ponderação de diferenças, e possibilidades ao abrigo do que o permite; não há aceitação democrática quando esta afasta todo o direito natural, construído ao longo de séculos e que tanto estabeleceu a liberdade individual, quanto a dignidade de todos perante os demais e o Estado. Há limites, nesta coisa de vivermos juntos’.
Lamento a extensão das citações, mas não quero nem posso limitar a dimensão das palavras, até por Freud ter iniciado o seu ensaio ‘O Mal-Estar na Civilização’, de uma maneira bem simples também, mas extraordinariamente real, ‘Não podemos escapar à impressão de que o homem aplica frequentemente padrões falsos nas suas apreciações, pois, enquanto anseia por si mesmo, admira o poder, o sucesso e a riqueza nos outros, despreza os valores genuínos que a vida oferece’.
Freud refere especificamente o homem comum, o que todos os dias sai de casa para ir trabalhar, que pára no café da esquina para tomar um café, ler as notícias dos futebóis ou aquelas outras do ‘manha de todas as manhãs’, aquelas pequenas coisas que, inconscientemente, até acabam por o acorrentar.
É mesmo por isso, que ‘A Liberdade é uma Livraria’ pois, como escreveu também Guilherme de Oliveira Martins no DN do dia 25, tendo por base tudo o que estamos a assistir ultimamente, ‘Em vez de um debate funesto sobre as identidades nacionais, importaria olhar a realidade humana como produto de diversas influências e não de qualquer exclusivismo, consciente das raízes históricas, da identidade e da diferença;“A História pertence a todos e a ninguém, o que lhe concede uma vocação universal”.
Vocação consubstanciada nos fundamentos de um Estado de Direito, na assistência constante dos seus limites democráticos, a exigir a realização efectiva do verso de Joan Margarit.
Não posso deixar de citar também o nosso Eduardo Lourenço na obra ‘Memória dos Afectos’, talvez numa espécie de conclusão de tudo o que aqui deixei, ‘A cultura não é aquilo que nos enriquece, como a posse das coisas materiais. É aquilo que nos despe de toda a espécie de tentações, das quais a maior de todas, é o orgulho de pensar que nós somos os mestres do mundo ou da vida. É [a cultura] aquilo que nos deixa nus e não vestidos’, porque ‘Sem cultura moral não haverá nenhuma saída para os homens’, disse um dia Albert Einstein.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor