Começo esta Carta a dizer de Pier Paolo Pasolini, o realizador italiano de filmes que marcaram uma época e um modo de actuar, como ‘O Evangelho segundo São Mateus’ ou ‘Sodoma e Gomorra’, por neles, como noutros mais próximos da actualidade onde viveu e foi assassinado, ter sempre mostrado que os vícios são melhor administrados pelas classes ricas e intelectualmente avançadas, do que pelas desfavorecidas e culturalmente menos educadas.
Esta crítica faz parte da explicação do seu filme de 1961 ‘Accattone’, por aqui aparecido com o título ‘Desajuste social’, como escreveu num artigo publicado no ‘Corriere della Sera’, em Outubro de 1975 –A sua ‘cultura’, tão profundamente diferente a ponto de criar uma ‘raça’, fornecia aos subproletários uma moral e uma filosofia de classe ‘dominada’, que a classe ‘dominante’ se satisfazia a ‘dominar’, sem se preocupar em evangelizar ou obrigar a absorver a própria ideologia– absolutamente actual em todos os domínios do nosso viver.
Mas esta situação veio-me à memória pelo uso dos telemóveis que, como todos os estudos documentam, aumenta à medida que se desce na escala social, e na extremidade inferior do espectro, onde são mais amplamente utilizados, o seu uso se limita quase exclusivamente ao ‘lazer proletário’; mas são ainda mais específicos ‘Os ricos conduzem negócios e política a partir de seus telemóveis e as classes média e baixa vêem pornografia, os influencers favoritos, compram doces, jogam videogames e fazem apostas, e conversam sem parar com outros náufragos, durante as deslocações quase obrigatórias nos transportes públicos’.
E todos acabamos por ser afectados por tal ‘engenho’, a saber por uma crónica lida num jornal lá de fora, que aqui resumo: o cronista passava em frente de uma igreja romana, bem conhecida pelas pinturas nas abóbadas. Ao aproximar-se viu uma enorme fila de turistas em frente da porta, mas, ao chegar mais perto, reparou que se podia entrar sem problemas. A causa era apenas um espelho colocado inclinado no meio da igreja, para que se pudesse fazer uma foto com o tecto no fundo. Parou um pouco para ver como os turistas tiravam uma selfie, mas sem terem o ‘trabalho’ de olhar as pinturas das abóbadas.
Turismo contemporâneo, ‘selfiezado’, aglomerações e um ‘MacDonald’ para terminar, exactamente como na foto do ‘La Vanguardia’ do dia 25 que também aqui deixo.
‘As selfies que destroem a Arte’
‘La Vanguardia’, 25.06.26
Diz o filósofo Santiago Alba Rico, ‘Somos todos um pouco como crianças online, com um smartphone nas mãos; então é muito difícil proibir crianças de usar gadgets tecnológicos porque, para isso, teríamos que ser adultos, e é muito difícil ser um de dentro do sistema, e sem recursos individuais e colectivos. Mas também não podemos ‘reprimir’, porque isso seria tratá-los como se fossem razoáveis e libertadores. E a repressão é sempre (e felizmente) uma batalha perdida’.
Este aparente paradoxo, leva-me também a evocar o escritor franco-libanês Amim Maalouf, ‘Os tempos que vivemos são fascinantes e assustadores. Nossa evolução científica acelera, mas as nossas mentalidades não conseguem acompanhar’ e, como resposta aos que dizem foi sempre assim, afirma ‘A nossa era não se parece em nada com as anteriores. Tem uma natureza diferente. As novas tecnologias que nos transformam a existência e a irão transformar mais nos próximos anos, e representam, pelo seu imenso potencial, riscos sem precedentes, difíceis de prever e difíceis de evitar. Só que ciência e tecnologia são moralmente neutras; tudo o que podem alcançar, alcançarão, independentemente das intenções de quem as inventou’.
Talvez possa aqui acrescentar, a terminar, a ‘Prece’ que Pessoa escreveu, como último poema da segunda parte da ‘Mensagem’, como se pedisse para reformar, ou reformatar, as ‘distâncias’ que nos fizeram os sonhos!
Prece
Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia –
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância –
Do mar ou outra, mas que seja nossa
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
I’ve gained a much better understanding thanks to this post.
Obrigado pelas suas palavras
António Oliveira