General Garcia dos Santos – por Carlos Pereira Martins

General Garcia dos Santos

por Carlos Pereira Martins

Hoje, com o coração pesado e o espírito entristecido, cumpre-me prestar homenagem a um dos grandes construtores da Liberdade em Portugal: o General Garcia dos Santos.

A sua partida deixa um vazio imenso, não apenas entre os que com ele privaram, mas em todos aqueles que reconhecem na História os nomes dos que, com coragem e firmeza, ajudaram a mudar o rumo de um país.

O General Garcia dos Santos foi, indiscutivelmente, um desses nomes.

A sua vida foi marcada por um firme compromisso com o serviço público, com a justiça e com os mais altos ideais democráticos. Militar de carreira, de formação sólida e conduta irrepreensível, destacou-se desde cedo pela sua inteligência estratégica e pelo seu carácter reservado, mas profundamente determinado. Esses atributos viriam a revelar-se essenciais no momento mais decisivo da nossa história recente: o 25 de Abril de 1974.

Na madrugada dessa Revolução, foi ele o responsável pelas Comunicações no Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, instalado na Pontinha. Ali, no centro nervoso da operação militar que derrubaria décadas de ditadura, coube-lhe garantir que cada ordem, cada sinal, cada coordenação chegasse ao destino certo — num tempo em que qualquer erro podia ser fatal para o sucesso da Revolução e para a segurança dos envolvidos.

Com serenidade e precisão, o General Garcia dos Santos assegurou o silêncio necessário e a voz certa nos momentos cruciais. Sem ele, e sem a eficácia do sistema de comunicações que liderou, talvez o dia 25 de Abril não tivesse sido a epopeia pacífica e determinada que hoje recordamos com orgulho. Não procurou palco, nem medalhas — mas foi um dos esteios discretos e fundamentais da vitória da liberdade.

O seu percurso não se esgotou nesse momento histórico. Ao longo dos anos seguintes, continuou a servir o país em inúmeras funções, sempre com o mesmo espírito de entrega e sentido de responsabilidade. Foi dirigente, conselheiro, pedagogo, defensor incansável dos valores de Abril. Mais recentemente, como Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação 25 de Abril, empenhou-se em manter viva a memória dos acontecimentos que ajudou a construir e em garantir que as novas gerações compreendessem o verdadeiro significado da liberdade conquistada.

O General Garcia dos Santos era um homem de poucas palavras, mas de grande sabedoria. Diz quem com ele lidou militarmente que era respeitado pelos camaradas de armas, admirado pelos subordinados, e ouvido com atenção pelos mais jovens. A sua conduta era marcada por uma discrição que nunca foi sinal de ausência, mas antes de ponderação e profundidade. Tinha a serenidade dos justos, a firmeza dos que sabem o que está em jogo, e a humildade dos grandes.

Hoje, à medida que nos despedimos, não podemos deixar de reflectir sobre o quanto devemos a homens como ele — homens que, em momentos decisivos, escolheram o lado certo da história, com risco, com coragem, com sentido de missão. O General Garcia dos Santos não foi apenas um servidor do Estado. Foi um servidor da dignidade humana, da liberdade e da democracia. O seu nome ficará para sempre inscrito no livro maior da nossa memória colectiva.

Neste momento de luto, estendo à sua Ex.ma família, amigos e camaradas a mais profunda solidariedade. Partilhamos a dor da sua ausência, mas também a gratidão pela sua vida plena de significado. O seu exemplo permanece — como guião para os que continuam a acreditar na construção de um Portugal mais justo, livre e mais solidário.

Perdemos mais um dos Militares de Abril!

O General Garcia dos Santos, que o simples facto de ter sido um dos Militares de Abril, já nos merece enorme agradecimento e o coloca nas páginas mais brilhantes da História de Portugal.

Aqui, na foto do início, retirada da RTP, em mais uma das comemorações do 25 de Abril, na sua e nossa Associação 25 de Abril, da qual foi, como ficou dito, um honroso Presidente da Mesa da Assembleia Geral.

Até sempre meu honroso Amigo. Descanse em paz, Senhor General. A sua missão foi cumprida com honra. A sua memória viverá em cada flor de cravo, em cada voto livre, em cada gesto de cidadania.

Até sempre, General Amadeu Garcia dos Santos, até sempre honroso Amigo.

2025-07-04

2 Comments

  1. Honra a Garcia dos Santos. Um dos militares responsáveis por esse dia que deixou uma marca indelével da História de Portugal, o 25 de Abril de 1974. Dia da liberdade, dia da libertação do regime fascista que oprimia este país, Garcia dos Santos honrou sempre o seu compromisso com os valores declarados pelo Movimento das Forças Armadas.

  2. Concordo contigo, Francisco.
    Comentei com o Carlos Martins o relevo dado pelos órgãos de comunicação à morte do General Garcia dos Santos, quase reduzido a notas de rodapé. Em contrapartida, em simultâneo, aconteceu a morte trágica de dois jovens, o que é sempre de lamentar, mas, como eram futebolistas e um deles com uma carreira brilhante, as televisões dedicaram vários dias, quase sempre com imagens em directo, e ocupando quase todo o tempo de emissão, a falar destes.
    Que mundo este!

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