ENTENDA OS SEUS MEDOS, MAS JAMAIS DEIXE QUE ELES SUFOQUEM OS SEUS SONHOS por Luísa Lobão Moniz

 

“Nomes de crianças de uma escola pública, muitas delas filhas de imigrantes, foram lidos por Rita Matias, deputada do Chega, alegando que isto prova que não há lugar nas escolas para os filhos de portugueses.”

Como é possível semelhante falta de respeito pelas crianças e pelas suas famílias!

Quem proferiu estas palavras não tem, certamente, conhecimento da Convenção dos Direitos da Criança. Será que sabe quais são os Direitos da Criança? Duvido.

A Constituição Portuguesa tem como princípios:

“Nenhuma criança pode ser discriminada em função da sua origem, cor, orientação sexual, língua, religião ou opinião.

O Estado tem a obrigação de fazer tudo o que está ao seu alcance para respeitar o direito da criança à sua identidade, incluindo, a sua nacionalidade, o seu nome e as relações familiares

Se a criança for refugiada (obrigada a abandonar o seu país) tem direito a proteção e ajuda especial.”

Estes são apenas três, por serem os que me parecem ser mais adequados ao tema em questão.

Só posso lamentar, disse o Ministro da Educação. Lamentar? Só?!

Não basta o Ministro da Educação lamentar o facto.

Ministério da Educação e Parlamento deveriam ter considerado a leitura, a cima referida, uma narrativa de ódio e serem penalizados os seus autores.

Não, o partido, que tem a falta de vergonha para levantar um sério falso problema, não está preocupado com a falta de vagas na escola para todos os que a querem frequentar. Não, o que quer é instigar o discurso de ódio que conduz à discriminação, à exclusão social a quem escolheu Portugal para poder ter uma vida com dignidade e ser respeitado ao abrigo dos Direitos Humanos.

É mais uma tentativa de sugerir que há portugueses mais portugueses do que outros.

Quero dar os parabéns aos pais, mães, encarregados de educação que se uniram para escreverem uma carta aberta a enviar a várias entidades, acusando o partido a que pertence quem leu uma lista com nomes completos de crianças, filhas de imigrantes, e que por o serem, supostamente preencheram vagas, que segundo o líder desse partido, deveriam ter sido preenchidas por crianças portuguesas.

A narrativa de ódio foi mais uma vez agitada.

Será que quem leu essa lista conhece os Direitos da Criança, conhece a Convenção dos Direitos da Criança? Duvido, ou conhecendo-os ainda se torna mais grave porque está a violar o direito à educação, deliberadamente, porque está a querer transformar a nossa Democracia numa sociedade em que os diferentes não têm lugar, em que há portugueses mais portugueses do que outros…

Temos que estar alerta antes que seja tarde.

A educação participa ativamente no desenvolvimento da personalidade da criança, da sua capacidade mental e física, promove o respeito pelos Direitos Humanos, pela cultura, pela paz, pela tolerância, pela igualdade de género e pelo meio ambiente, pela cidadania, pelo espírito crítico, pelo conhecimento…

Será que o partido Chega sabe a origem destas crianças? Como foram feitas as suas matrículas, como vivem, como mantêm e como assimilam as duas culturas? Se têm duas nacionalidades ou se já nasceram em Portugal?

Não, o Chega não está preocupado com quem tem vaga para se matricular numa determinada escola, não, o Chega não sabe o projeto educativo da escola, não, o Chega não está preocupado com o acesso à Educação. O Chega está, sim, comprometido com o discurso de ódio, há muito que conhecemos o dividir para reinar.

Que bom o povo ter medo, até na matrícula dos seus filhos nas escolas!

Medo, ódio, fim da interrupção voluntária da gravidez, não à eutanásia, lei da nacionalidade, recusa de promover a aproximação dos elementos da mesma família que estão afastados pela imigração.

 A Escola tem a capacidade de educar todos sem excluir ninguém.

Basta de nítidos ataques à Democracia, basta da tentativa de normalizar os discursos de exclusão.

Viva a Democracia, viva a Escola Democrática que educa para a Paz e para a Liberdade!

Senhores e senhoras deputados e deputadas, há tanto para aprender…para saberem o que significa expor publicamente os nomes dos meninos e das meninas que querem crescer em Paz e serem respeitados e respeitadas como todos e todas o devem ser.

A senhora deputada que leu a lista de nomes completos de crianças filhas de imigrantes sabe como foram tratados os filhos dos emigrantes portugueses em França, no Luxemburgo? Estaria de acordo com os vexames a que foram sujeitos, tais como estas crianças?

A todos os que lutam por uma sociedade mais justa:

Entenda os seus medos, mas jamais deixe que eles sufoquem os seus sonhos.

Alice no País das Maravilhas

 

 

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