Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Kaja Kallas constitui uma verdadeira ameaça para a Europa
“Ela personifica o bloco no seu pior”.
E acrescenta Thomas Fazi: “Afinal, não é Kallas quem nos deve preocupar mais, mas o sistema que a tornou possível — um sistema que recompensa os falcões mais barulhentos, tem pouca consideração pela democracia e substitui a postura de Estado pela postura das redes sociais”.
Publicado por
em 11 de Julho de 2025 (original aqui)

Embora Ursula von der Leyen possa ter sobrevivido ao voto de censura de ontem, o resultado revelou um crescente descontentamento entre partidos com a sua liderança cada vez mais autoritária. O apoio à presidente europeia está a corroer-se.
A mudança mais notável foi do grupo de direita ECR, que inclui os Fratelli d’Itália de Meloni. Anteriormente, estes Deputados apoiaram von der Leyen em várias propostas – chave, mas poucos votaram contra esta moção, com a maioria optando por abandoná-la completamente. Também foi revelador o apoio que a moção recebeu para além dos seus patrocinadores populistas de direita: vários eurodeputados do grupo de esquerda, bem como Deputados populistas de esquerda não filiados da Alemanha e de outros países, também a apoiaram. No geral, von der Leyen garantiu o apoio de 360 eurodeputados — menos 40 do que na sua reeleição de 2024.
Um ponto-chave de convergência entre estas forças divergentes é a sua oposição partilhada à posição beligerante da Comissão sobre o conflito Rússia-Ucrânia. Com efeito, a moção de censura referia-se também à proposta da Comissão de utilizar uma cláusula de emergência no Tratado da UE para afastar os deputados europeus da aprovação de um regime de empréstimos de 150 mil milhões de euros para reforçar a aquisição conjunta de armas pelos países DA UE, principalmente para aumentar o apoio militar à Ucrânia.
É importante notar que a moção de Censura não foi dirigida apenas a von der Leyen, mas a toda a sua Comissão — em particular, ao seu segundo no comando, Kaja Kallas, Vice-Presidente da Comissão e Alta Representante para os negócios estrangeiros, a coisa mais próxima que a UE tem de um ministro dos Negócios Estrangeiros.
Kallas, a ex—Primeira-Ministra da Estónia – um país de apenas 1,4 milhões de habitantes, menos do que os residentes de Paris – foi confirmada como o novo Alto Representante da UE para os negócios estrangeiros em dezembro do ano passado. Desde então, ela passou a personificar, mais vividamente do que qualquer outra pessoa, a mistura tóxica de incompetência, irrelevância e estupidez total da UE.
Numa altura em que a guerra na Ucrânia é, sem dúvida, o principal desafio da política externa da Europa, é difícil imaginar alguém menos adequado ao papel do que Kallas, cuja hostilidade profunda em relação à Rússia faz fronteira com a obsessão. No seu primeiro dia de trabalho, durante uma viagem a Kiev, ela tuitou: “a União Europeia quer que a Ucrânia vença esta guerra” — uma declaração que imediatamente causou desconforto em Bruxelas, onde as autoridades viram isso como fora de sintonia com a linguagem da UE estabelecida dois anos depois da guerra. “Ela ainda está a agir como se fosse primeira-ministra”, comentou um diplomata.
Poucos meses antes da sua nomeação, ela propôs dividir a Rússia em “pequenos estados” e, desde então, exigiu repetidamente a restauração completa das fronteiras da Ucrânia de 1991, incluindo a Crimeia — uma posição que efetivamente exclui negociações. Embora até mesmo Donald Trump tenha reconhecido que a adesão ucraniana à NATO é inviável, Kallas insiste que continua a ser um objetivo – apesar de ter sido uma linha vermelha para a Rússia durante quase duas décadas. Kallas chegou a declarar que “se não ajudarmos ainda mais a Ucrânia, todos devemos começar a aprender russo”. Não importa que a Rússia não tenha razões estratégicas, militares ou económicas para atacar a UE. No início deste ano, ela denunciou os esforços de Trump para negociar o fim da guerra, descartando-os como um “acordo sujo”, o que explica por que o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, cancelou abruptamente uma reunião agendada com ela em fevereiro.
A fixação obstinada de Kallas na Rússia tornou-a praticamente silenciosa em todas as outras questões de política externa. Como observou o ex-diplomata britânico Ian Proud, que serviu na Embaixada Britânica em Moscovo de 2014 a 2019, ela aparece como uma “Alta Representante de um único assunto” que “apenas tem a intenção de manter a política europeia de uma década de não compromisso com a Rússia, seja qual for o custo económico disso”.
A sua retórica agressiva e unilateral – muitas vezes proferida sem consulta prévia aos Estados-Membros – alienou não apenas governos abertamente céticos do Euro e da NATO, como na Hungria e na Eslováquia, mas também países como Espanha e Itália, que, embora amplamente alinhados com a política ucraniana da NATO, não compartilham a avaliação de Kallas de Moscovo como uma ameaça iminente à UE. “Se a ouvirem, parece que estamos em guerra com a Rússia, que não é a linha da UE”, queixou-se uma autoridade da UE.
Tecnicamente, o papel do Alto Representante consiste em reflectir o consenso dos Estados-Membros como uma extensão do Conselho, e não em trabalhar por conta própria como formulador de políticas supranacionais. No entanto, Kallas interpreta o seu papel de outra forma, agindo repetidamente como se falasse em nome de todos os Europeus — uma abordagem antidemocrática de cima para baixo que é sintomática de uma tendência autoritária mais ampla potenciada por von der Leyen.
Apesar das suas proclamações sobre a defesa da democracia, a própria Kallas não tem mandato democrático. Não só nunca foi eleita para o seu actual cargo, como o seu partido — o Partido Reformista da Estónia — recebeu menos de 70 000 votos nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, representando menos de 0,02% da população europeia. Von der Leyen, no entanto, encheu a sua comissão com estes funcionários bálticos que pensam da mesma forma -vindos de uma região de pouco mais de seis milhões de pessoas — para preencher postos-chave de defesa e política externa. Estas nomeações reflectem um alinhamento estratégico entre as ambições centralizadoras de von der Leyen e a visão de mundo ultra-agressiva da classe política báltica. Ambos partilham um compromisso inabalável com a linha da Nato e uma profunda hostilidade a qualquer diplomacia com Moscovo.
O zelo anti-russo de Kallas fez dela uma escolha natural para o cargo. Mas raramente é mencionado o facto de a própria família de Kallas, longe de ser vítima da opressão soviética, ter realmente vivido uma vida relativamente confortável como parte do establishment soviético — ou o que pode muito bem ser considerado a classe média soviética.
De facto, Kaja Kallas nasceu numa das famílias políticas mais poderosas da Estónia — uma família cuja ascensão foi facilitada, em grande parte, pelo próprio sistema soviético que ela agora demoniza. O seu pai, Siim Kallas, foi um membro influente da nomenklatura soviética e, em seguida, uma figura-chave na política pós-soviética da Estônia, tornando-se Primeiro-Ministro antes de servir como Comissário Europeu por mais de uma década. Poucos ficarão surpreendidos ao saber que, imediatamente após completar os seus estudos, em 2010, Kaja decidiu entrar na política e se juntou ao Partido Reformista — o próprio partido do seu pai — nem que ela seguiu os seus passos ao mudar-se para Bruxelas depois de servir como Primeira-Ministra de 2021 a 2024. É difícil desfazer-se da ideia de que a continuidade da elite e o privilégio herdado tiveram uma mão amiga. Fica-se também a pensar, dada a sua educação, se a sua postura agressiva anti-russa é uma convicção sincera, ou uma cobertura para a ambição pessoal.
Uma história lança uma luz particularmente interessante sobre a sua atitude geopolítica. Em 2023, quando Kallas ainda era Primeira-Ministra, três grandes jornais estonianos pediram a sua demissão depois de se ter revelado que a empresa de transportes do seu marido tinha continuado a fazer negócios com a Rússia após a invasão da Ucrânia. No entanto, Kallas rejeitou o escândalo e recusou-se a demitir-se, alegando que não havia irregularidades, provocando acusações de hipocrisia: exigir o isolamento económico total da Rússia, por um lado, ao mesmo tempo que fechava os olhos aos laços comerciais da sua própria família com o país.
Tudo considerado, Kallas é dramaticamente inadequada para o cargo — tropeçando de um erro a outro. Recentemente, ela conseguiu ofender quase todos os cidadãos irlandeses, sugerindo que a neutralidade da Irlanda decorre de não ter sofrido atrocidades como “deportações em massa” ou “supressão da cultura e da língua” — uma declaração bizarra, dada a longa história da Irlanda de domínio colonial britânico e o derramamento de sangue durante “The Troubles”, o conflito etno-nacionalista na Irlanda do Norte que durou cerca de três décadas, de finais de 1960 até 1998.
Algumas gafes são mais consequentes. Numa reunião recente com o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, Kallas exigiu que a China condenasse as ações da Rússia na Ucrânia e se alinhasse com a “ordem internacional baseada em regras”. Yi, geralmente de fala mansa, respondeu bruscamente, observando que a China não havia apoiado a Rússia militarmente — mas também não tinha intenção de ver Moscovo derrotada, já que isso simplesmente traria a ira do Ocidente sobre a China em seguida. Ele poderia estar a aludir à observação anterior de Kallas: “se a Europa não pode derrotar a Rússia, como pode enfrentar a China?”. Que um alto funcionário da UE enquadre os assuntos globais em termos tão duros e conflituosos reflecte uma espantosa falta de nuance diplomático.
O facto de Kallas se sentir confortável a dar lições à China sobre o direito internacional e a “ordem baseada em regras” revela não apenas uma cegueira impressionante em relação à diminuída posição global da Europa, mas também uma profunda falta de autoconsciência sobre como os padrões duplos da UE são vistos em Pequim e em todo o sul global. Ao mesmo tempo que condena em voz alta os ataques russos contra civis, Kallas tem constantemente branqueado — ou apoiado abertamente — as atrocidades de Israel em Gaza. Um relatório recentemente divulgado da UE confirmou que Bruxelas reconheceu há muito tempo que Israel estava a cometer crimes de guerra em Gaza, incluindo “fome, tortura, ataques indiscriminados e apartheid” — mas Kallas não condenou Israel nem questionou os laços UE-Israel. Da mesma forma, ela não disse nada sobre as ameaças dos EUA de anexar a Gronelândia e apoiou o bombardeamento americano-israelita sobre o Irão — uma clara violação do direito internacional.
Este moralismo selectivo causou danos duradouros à credibilidade da UE, especialmente aos olhos do Sul Global. Mas colocar a culpa unicamente em Kallas seria um erro. Afinal, não é Kallas quem nos deve preocupar mais, mas o sistema que a tornou possível — um sistema que recompensa os falcões mais barulhentos, tem pouca consideração pela democracia e substitui a postura de Estado pela postura das redes sociais.
Se a Europa continuar neste caminho, não perderá apenas o seu lugar no mundo; tornar-se-á a expressão mais viva do deslizamento mais amplo do Ocidente para a caquistocracia – governo pelos piores, os menos qualificados e os mais inescrupulosos.
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O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e co-autor com Bill Mitchell, de Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017). O seu último livro, em co-autoria com Toby Green, é “The Covid Consensus”.


