Esta Carta é um somatório de títulos e algumas reflexões jornalistas e comentadores de jornais variados, a que também me junto, sobre ‘a rendição incondicional’ da Europa, perante o acordo comercial com os ‘states’, que nada mais é que ‘a certidão de óbito da União Europeia’, escreve o historiador e cronista Pedro Angosto, no passado dia 25.
E Angosto acrescenta, para explicar, ‘Em qualquer negociação, alguns oferecem uma coisa e pedem outra, as demandas dos negociadores são discutidas e, depois de muitas horas, chega-se a um acordo em que ambas as partes cederam às suas exigências originais. Isso não aconteceu aqui; o pistoleiro grosseiro, o governante mais estúpido do mundo, nem precisou sacar o rifle ou disparar um tiro; bastou latir uma série de palavras, que foram suficientes para que Úrsula assinasse tarifas de 15% sobre todos os produtos europeus exportados para os Estados Unidos’.
E o premier francês, François Bayrou, explica tudo de outra forma, de acordo com o editorial do ‘El País’, também naquele dia, ‘É um dia sombrio, quando uma aliança de povos livres, reunidos para afirmar os seus valores e defender os seus interesses, decide submeter-se’; e o mesmo editorial também não usa panos quentes –é um mau acordo e a encenação, um campo de golf do magnata– uma derrota.
O ex-líder da Esquerda Unida espanhola e economista Alberto Garzón, é ainda mais radical, ‘Acordo UE-EUA é o Tratado da Humilhação do Atlântico. O que está em jogo não é apenas a nova ordem mundial, mas o futuro político de uma Europa que, se não reagir, corre o risco de ficar presa entre sua dependência energética, sua fragilidade produtiva e tecnológica, e sua crescente irrelevância estratégica’.
Num outro jornal, o antigo ministro dos transportes, Marcos López, também não tem dúvidas, ‘Von der Leyen entrega a Europa a Trump.
Não foi um acordo. Foi uma capitulação completa da Europa ao senhor americano. O chamado acordo tarifário ficará registrado na história, como um verdadeiro desastre económico para a Europa, e um grande triunfo para Trump que, com esta vitória, toma fôlego no meio das notícias que o implicam directamente no escândalo de assédio sexual de Epstein’.
Parece-me que com esta cerimónia, a Europa mostra que, como instituição política, é só uma ‘curiosidade’ para outras instituições similares que, refasteladas nos seus cadeirões, aguardam outras movimentações que terão como actores outros actores menos endinheirados, mas ansiosos por atingir a dimensão do tal pistoleiro grosseiro, como ‘Meloni, Abascal, Orbán, Ventura e toda a vanguarda da nova política europeia, livre de sentimentalismo, compaixão e coisas tão absurdas e castradoras como a fraternidade’, usando ainda as explicações de Pedro Angosto.
Convém salientar que a ‘curiosidade’ é também uma atitude política, pois quando alguém se atreve a questionar porque as coisas terão de ser sempre assim, como são, logo levanta a hipótese ou a possibilidade de elas também poderem ser diferentes. Hoje, num ambiente saturado de informação, monocórdica, ‘ecrânica’, sem profundidade por falta de leitura, a curiosidade é mais indispensável do que nunca.
Também os cartoonistas referiram o tema, e alguns alargaram-lhe os limites como
Manel Fontdevila, ‘El Acuerdo’
‘Diario.es’, 25.07.29
Para Nuno Vinha, director adjunto do ‘Diário de Notícias’, em artigo de opinião também a 29, ‘O mais irónico da “Canhoneira Tarifária” de 2025, é que os EUA ainda obrigam praticamente, os Estados europeus a comprar armamento norte-americano para entregar aos ucranianos, na guerra contra a Rússia. Há uma diferença muito grande entre ter uma posição de força, e saber-se quando se tem essa posição de força. Face à China, os EUA subiram o tom, tiveram resposta à altura e pensaram duas vezes; frente à Europa não houve sequer discussão’
Não resisto a transcrever uma ‘charge’ de Gerardo Tecé, no ‘Publico.es’ do dia 28, ‘A vergonha de ser europeu’, passada algures dentro de um bar.
‘Um chinês brinda ao principal mercado mundial, e um americano responde que seu país é a grande potência armamentista. Numa mesa próxima, um brasileiro gaba-se de sua economia emergente, um africano afirma que o seu continente é o futuro, e um cidadão da Oceânia, manifeste o orgulho por liderar a luta mais importante do momento, a alteração climática.
Onde está a piada? Na Europa. Em lugar nenhum! Um continente que nos poderia orgulhar, mas decidiu envergonhar-nos!’
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor



