CARTA DE BRAGA – “de ignorância e do tom laranja” por António Oliveira

O professor de História Cultural em Cambridge, Peter Burke, tem desenvolvido estudos sobre o avanço da ignorância, nos últimos trinta anos, continuando a investigação do neurologista norte-americano George Beard que, ainda no século XIX, deixou a hipóteses de ser a ignorância a ter o domínio do poder nas sociedades em geral, embora sem poder imaginar como seria a situação nos tempos actuais.

O bem conhecido escritor e filósofo italiano, Umberto Eco, foi bem mais duro quando se referiu à revolução dos imbecis em 2015, num discurso em sua honra na Universidade de Turim:Os media sociais deram o direito de falar a legiões de imbecis que falam primeiro no bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a comunidade; agora têm o mesmo direito de falar que um ganhador do Prémio Nobel. É a invasão dos imbecis’.

Além de se acharem com o mesmo direito, há ainda quem o quer ganhar seja qual for a maneira. Lembro-me do americano trumpa ter dito um dia que, com ele, a guerra da Ucrânia terminaria em meia dúzia de dias, mas, por não o conseguir, tem gasto as energias e guerrear o mundo inteiro com uma ofensiva tarifária, com efeitos nefastos em todo o lado e mesmo nos states, o que levou a manifestações multitudinárias em mais de cinquenta das maiores cidades dos EUA, debaixo do tema ‘No Kings’, sendo os manifestantes maioritariamente da classe trabalhadora.

Ele não é uma anomalia do sistema, mas o próprio sistema. Compreender as causas de um conflito ou as falhas de um sistema sociopolítico, implica o dever de estar disposto a ver soluções que eliminem os privilégios da elite dominante, só que isso ele não sabe nem quer entender.

Ann Telnaes, ‘O inimigo actual está dentro

Le Monde’, 25.10.22

Mas tais manifestações, tiveram uma resposta a condizer com tal sujeito, como escreve no ‘Nueva Tribuna’ de 19, o cronista Roberto R. Aramayo, ‘Diante dos protestos cada vez mais massivos de seus compatriotas, a reacção de Trump foi desnudar a alma com um vídeo burlesco, feito pela Inteligência Artificial, onde é visto usando uma coroa real, pilotando um caça que despeja bosta e lama sobre os manifestantes na Times Square’.

O problema maior é que a influência do sujeito se alarga a todos os continentes, dizendo e desdizendo coisas, marcando e desmarcando reuniões, e outras incongruências com consequências difíceis de poder avaliar no momento em que, escreve o jornalista e escritor David Torres no mesmo jornal, ‘Chegámos a um ponto tal de confusão que não se sabe mais se é o ventríloquo que está manuseando o pulso ou se é o pulso que está a manusear o ventríloquo’.

Estamos no que aparenta ser um momento-chave, em que as maiorias estão dispostas a lutar por uma alteração dos modelos, de modo a dar prioridade aos mais desfavorecidos (e são muitos e de muitos lados e origens!), mas são poucos entre os que detêm as correias do poder, por sempre evitarem tais mudanças, quer se fale a nível local, regional, nacional e até nas organizações internacionais a que se pertença.

Aliás, diz-se no ‘El País’, do passado dia 15, que o dinheiro não compra paz, mas pode comprar felicidade, por também se poder ajudar com a história, a geografia e a religião, a dar algum valor à dignidade das pessoas, tudo porque, cerca de 4.500 milhões de pessoas não têm acesso à atenção sanitária que necessitam. Estes e outros números foram divulgados na Cimeira Nacional da Saúde em Berlim, que reuniu políticos, agentes da saúde e activistas, para reformar um sistema à beira do colapso, depois do fim da ajuda dos states às Nações Unidas.

Também foi ali lembrado, serem enormes os paradoxos de um sistema que afecta especialmente o Sul Global, ‘Por não se tratar apenas de determinar quem define as prioridades da saúde, e de reconhecer que a saúde e vida de um menino de Kinshasa, dependa também das decisões fiscais de Bruxelas, Washington ou qualquer outra grande rica capital’.

Mas hoje, afirma ainda o escritor David Torres, ‘Humor, humor negro, torrado com franja de laranja, é a nota essencial do nosso tempo. Somente a partir dessa perspectiva é que o aviso de Trump ligando o autismo às vacinas infantis e ao uso de paracetamol durante a gravidez, pode ser compreendido’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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