O professor de História Cultural em Cambridge, Peter Burke, tem desenvolvido estudos sobre o avanço da ignorância, nos últimos trinta anos, continuando a investigação do neurologista norte-americano George Beard que, ainda no século XIX, deixou a hipóteses de ser a ignorância a ter o domínio do poder nas sociedades em geral, embora sem poder imaginar como seria a situação nos tempos actuais.
O bem conhecido escritor e filósofo italiano, Umberto Eco, foi bem mais duro quando se referiu à revolução dos imbecis em 2015, num discurso em sua honra na Universidade de Turim: ‘Os media sociais deram o direito de falar a legiões de imbecis que falam primeiro no bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a comunidade; agora têm o mesmo direito de falar que um ganhador do Prémio Nobel. É a invasão dos imbecis’.
Além de se acharem com o mesmo direito, há ainda quem o quer ganhar seja qual for a maneira. Lembro-me do americano trumpa ter dito um dia que, com ele, a guerra da Ucrânia terminaria em meia dúzia de dias, mas, por não o conseguir, tem gasto as energias e guerrear o mundo inteiro com uma ofensiva tarifária, com efeitos nefastos em todo o lado e mesmo nos states, o que levou a manifestações multitudinárias em mais de cinquenta das maiores cidades dos EUA, debaixo do tema ‘No Kings’, sendo os manifestantes maioritariamente da classe trabalhadora.
Ele não é uma anomalia do sistema, mas o próprio sistema. Compreender as causas de um conflito ou as falhas de um sistema sociopolítico, implica o dever de estar disposto a ver soluções que eliminem os privilégios da elite dominante, só que isso ele não sabe nem quer entender.
Ann Telnaes, ‘O inimigo actual está dentro’
Le Monde’, 25.10.22



