SINAIS DOS TEMPOS – Por José Fernando Magalhães (9)

 

 

CARVALHOS À VOLTA DAS ALDEIAS

Paisagem, Memória e Futuro

PARTE 1

Introdução: A Árvore que Guarda o Tempo

O carvalho não é apenas uma árvore. Onde cresce um carvalho, há memória, há frescura, há abrigo, e há resistência. No entanto, nas paisagens portuguesas, sobretudo nas zonas mais fustigadas pelos incêndios e pelo abandono rural, os carvalhos rareiam. Que forças invisíveis, ou demasiadamente visíveis, impedem que se plantem carvalheiras à volta das aldeias, como muralha viva e uma herança comum?

Esta interrogação não é nova. O Arquitecto Ribeiro teles (1921-2020), um dos mais lúcidos pensadores da paisagem portuguesa, deixou-nos um legado claro: “À volta das aldeias, os carvalhos formam muralhas vivas.”

Contudo, este equilíbrio foi quebrado. Hoje, quase todo o país vive rodeado por floresta, mas raramente por árvores que o protejam. E a paisagem, essa obra conjunta da natureza e da cultura, está hoje ferida, empobrecida e perigosamente vulnerável.

A Paisagem Ferida

Monoculturas e Fogo

Portugal é hoje um país onde cerca de 70% da área florestal é dominada por espécies exóticas de crescimento rápido, como o eucalipto e o pinheiro-bravo. Estas espécies, embora economicamente rentáveis a curto prazo, são também altamente inflamáveis e ecologicamente pobres. A substituição dos carvalhais autóctones por estas monoculturas criou uma paisagem fragmentada, desprovida de resiliência e dramaticamente vulnerável ao fogo.

Os incêndios que todos os Verões devastam o interior do país são, em parte, consequência directa desta escolha. E no entanto, os carvalhos — resistentes ao fogo, regeneradores naturais, aliados da biodiversidade — continuam ausentes dos planos de reflorestação em larga escala. Espécies como o carvalho-alvarinho, o carvalho-cerquinho (carvalho-português) ou o carvalho-negral têm casca espessa, capacidade de regeneração vigorosa após incêndios e folhas menos inflamáveis que as resinosas. São, por natureza, guardiães contra o fogo.

Mas não estão sozinhos. Outras espécies autóctones resistentes ao fogo, como a azinheira, o sobreiro, o medronheiro, deveriam fazer parte integrante de qualquer estratégia séria de reflorestação e protecção das aldeias. A estas juntam-se árvores frutíferas como a oliveira, a alfarrobeira, a figueira e a amendoeira, que aliam resistência ao fogo a valor económico e alimentar.

Os carvalhos, ao contrário das monoculturas exóticas, representam a memória ecológica e o seguro do futuro.

 

A Aldeia e a Árvore

Uma Relação Esquecida

Durante séculos, os carvalhos foram parte integrante da vida rural. Até ao século XIX, os carvalhos eram comuns no Norte e Centro do nosso país. Forneciam bolotas para os animais, sombra para os caminhos, madeira para as casas, e folhas para a cama do gado. Eram árvores de uso e de culto, marcos da paisagem e testemunhas do tempo. Como lembrava Ribeiro Teles, “cuidar destes carvalhais não é defender-nos dos incêndios: é continuar uma tradição que vem de séculos, quando a árvore era sombra, alimento e encontro,”

Hoje, com o despovoamento das aldeias e a perda de saberes tradicionais, essa relação foi interrompida. A árvore deixou de ser companheira do homem para se tornar mercadoria ou obstáculo. Perdeu-se a noção de que “a paisagem é responsabilidade de todos, porque dela depende o futuro comum.”

Mas o carvalho continua a ser a árvore certa para o lugar certo. Plantá-lo à volta das aldeias não é apenas um gesto ecológico, é um acto de reconexão com a terra e com a história. É uma forma de devolver identidade ao território e segurança às populações.

O que Impede a Mudança?

Os Obstáculos Invisíveis

A pergunta persiste: porque não se plantam florestas de carvalhos à volta das aldeias? Porque não há leis que obriguem à plantação de espécies resistentes ao fogo?

A resposta é complexa e toca em várias camadas da política florestal portuguesa. Não há, ao que se saiba, proibições formais à plantação de carvalhos. Mas há obstáculos mais subtis e persistentes:

  1. Falta de enquadramento legal específico

Ao contrário do sobreiro e da azinheira, que beneficiam de estatuto de protecção legal, os carvalhos autóctones não têm salvaguarda equivalente. Esta lacuna legislativa tem levado à degradação progressiva dos carvalhais, vítimas do corte indiscriminado, da expansão de monoculturas e da proliferação de espécies invasoras.

Em 2025, foi apresentado um projecto de lei que propõe estender a protecção legal aos carvalhos, proibindo cortes sem autorização e impondo medidas compensatórias. Mas esta iniciativa ainda aguarda concretização.

  1. Pressão económica e rentabilidade imediata

Os carvalhos crescem lentamente e não têm o mesmo valor económico imediato que espécies como o pinheiro-bravo ou o eucalipto, preferidas pela indústria da celulose. Num país onde a propriedade florestal é maioritariamente privada e fragmentada, a tentação do lucro rápido sobrepõe-se à visão de longo prazo.

Além disso, os incêndios florestais têm moldado as escolhas de plantação, mas de forma perversa: em vez de favorecerem espécies resistentes, perpetuam o ciclo de monoculturas inflamáveis e intervenções reactivas.

  1. Ausência de incentivos públicos e desconhecimento técnico

Os programas de reflorestação continuam a favorecer espécies de retorno económico rápido. Não existem incentivos financeiros robustos para quem queira plantar carvalhos ou outras espécies autóctones. Muitos proprietários desconhecem como plantar e cuidar destas árvores, e falta apoio técnico acessível.

  1. Ordenamento, fragmentação e negligência estrutural

Não há uma estratégia nacional coerente que promova a plantação de carvalhos em redor das aldeias ou como corredores ecológicos entre matas. O ordenamento florestal português continua a ser reactivo, em vez de preventivo e regenerador. As autarquias raramente integram zonas prioritárias para espécies autóctones nos seus planos municipais.

A fragmentação da propriedade dificulta ainda a criação de cinturões verdes contínuos e a gestão integrada da paisagem.

Em suma, a ausência de carvalhais não é fruto de uma proibição, mas sim de uma negligência histórica e estrutural. Falta vontade política, faltam incentivos económicos, falta educação ambiental; e falta, sobretudo, uma mudança de paradigma na forma como encaramos a floresta e a paisagem. Mas mais do que culpa, é necessária consciência, e vontade de reparar.

Vozes que Merecem Ser Ouvidas

Gonçalo Ribeiro Teles não está sozinho nesta luta. O seu pensamento, que une natureza e cultura, encontra eco em muitas outras vozes que, nas últimas décadas, têm alertado para a urgência de restaurar as florestas autóctones e repensar a paisagem portuguesa.

A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza tem sido uma das mais persistentes defensoras dos carvalhais e das espécies nativas, promovendo campanhas de reflorestação, estudos e petições públicas que visam inverter a lógica das monoculturas.

A ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável tem igualmente denunciado os riscos ambientais e sociais do modelo florestal baseado no eucalipto e defendido uma transição para paisagens mais diversificadas, resilientes e duradouras.

Entre os investigadores, Francisco Castro Rego, da Universidade de Lisboa, tem sublinhado a importância de diversificar a floresta portuguesa e de restaurar a continuidade ecológica dos carvalhais; Paulo Fernandes, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, tem demonstrado, através dos seus estudos sobre comportamento do fogo, como espécies autóctones são aladas naturais na prevenção de incêndios; e cristina Branquinho, também da Universidade de lisboa, tem defendido a regeneração dos ecossistemas mediterrânicos e o valor da floresta autóctone na adaptação às alterações climáticas.

O botânico Jorge Paiva, da Universidade de Coimbra, tem alertado para a perda acelerada da nossa flora nativa e para a urgência de recuperar as espécies que moldaram a paisagem portuguesa — entre elas, os carvalhos, que chama “árvores-mãe do território”.

Também o investigador Miguel Bastos Araújo tem recordado que a sobrevivência dos carvalhais é uma questão de segurança ecológica e climática, e que sem eles “a paisagem mediterrânica perde o seu rosto”.

Mas há ainda as vozes das comunidades e dos projectos locais que mostram, com o exemplo, que outro caminho é possível. A Montis, a LPN – Liga para a Protecção da Natureza, a Plantar Portugal ou a cooperativa Biovilla têm reabilitado áreas degradadas através de reflorestações comunitárias com carvalhos, sobreiros e azinheiras — restaurando não só o solo, mas também o sentido de pertença.

 

 

 

 

[Nota ao leitor]

Este ensaio foi dividido em duas partes para facilitar a leitura online. Nesta primeira parte, diagnosticámos a ausência dos carvalhos na paisagem portuguesa e identificámos os obstáculos que impedem a sua recuperação. Na segunda parte, apresentamos propostas concretas de acção e exploramos a dimensão cultural e literária desta relação ancestral entre o homem e a árvore.

 

 

 

 

 

 

 

texto escrito com a ajuda da IA

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