Espuma dos dias — Quando as notas deixam de ter significado: o escândalo de matemática da UC San Diego é um alerta. Por Kelsey Piper

Nota prévia

Já perto dos 83 anos nunca imaginava vir a ler um texto sobre a crise no ensino e sobre uma das melhores universidades dos EUA – este país tem as melhores Universidades do mundo -, como aquele que aqui vos deixo. Nunca imaginaria uma situação destas, mas vislumbram-se já alguns paralelos em Portugal e isto, mesmo sem ainda se ter disponibilizado para cada uma das nossas crianças o dito tutor da Inteligência Artificial, para que mais rapidamente possam assumir o estatuto de cretinos digitais que não saberão ler, não saberão escrever, não saberão pensar: os programas farão isso por eles.

Dir-me-ão que este texto que agora vos envio não tem nada a ver com Portugal. Talvez seja assim, mas tudo indica que estamos a meio caminho de ficar como se diz no texto. Conto-vos uma história: há uns anos um dado aluno dizia à mãe que queria ir para Física. Notas boas não tinha. Mudou para o ensino particular e as notas boas chegaram. Foi parar a Física e nunca passou do primeiro ano. Desistiu. Talvez isto não tenha nada a ver com o texto. Um outro exemplo, vou a uma loja de cosmética e depois de ter feito mentalmente umas contas que a empregada, com o 12º ano, tinha dificuldade em perceber sobre o custo, diz-me: como é que o senhor faz contas tão depressa e acrescenta, sem esperar pela minha resposta: eu só soube o que era 10% de 100 depois de estar aqui. Disse-lhe: sabe, tive uma primária decente. Talvez isto não tenha nada a ver com o texto que acabei de ler, mas o que estou a contar não é de lá de fora, é de cá de dentro.

Mas no final o texto remete-nos para o sistema de fingir que…. tudo vai bem e quando quase tudo vai mal.

Dizem-no no texto:

“Ouvi histórias de pais cujos filhos estavam a tirar notas A em Línguas, mas não conseguiam ler fluentemente. Ouvi histórias de pais cujos filhos estavam a tirar notas A em matemática, mas depois reprovaram num teste de admissão e descobriram que a escola simplesmente não se preocupou em cobrir uma parte significativa do currículo.

Isto é revoltante. É ultrajante. Sinto-me relutante até em discutir isso sem um plano sobre o que fazer, porque sempre que falo com os pais, eles ficam angustiados e querem conselhos sobre o que fazer a seguir.

Mas essa é a verdade. O único conselho que posso dar é este: fiquem indignados. Esse sistema não vai mudar a menos que alguém exija isso.”

No mesmo texto ainda se pode ler:

3. O processo de admissão nas universidades está-se a tornar cada vez mais competitivo e longo, ano após ano, levando estudantes e pais a uma intolerância maior em relação a notas baixas.

4. A crise de saúde mental entre os jovens, que deixou muitos fragilizados e torna as escolas mais cautelosas em atribuir notas baixas.

É triste porque o programa *AP for All* é, na verdade, uma resposta à longa e dolorosa história de como o sistema de turmas diferenciadas (tracking) falhou com os alunos. Mas, em vez de enfrentar o problema nas suas raízes – o facto de que as escolas frequentemente tinham expectativas baixas ou inexistentes para os estudantes nas turmas de nível inferior — nós apenas corrigimos a aparência e acabamos por servir todos os alunos de forma menos eficaz.

Não tenho a certeza de como saímos dessa situação, dado o quão profundamente entrelaçados estão todos esses fatores.”” Fim de citação

No mundo a fingir que também é o nosso, embora ainda em menor escala do que o mundo a que se refere o texto, assistimos recentemente a uma campanha fortíssima a favor dos mercados de capitais e da literacia financeira desde pequenos, de pequeno é que se torce o pepino diz o ditado popular, em que alinharam os governantes deste país assim como as suas faculdades , a falar de literacia a quem mal sabe ler e a falar de contas a quem mal sabe contar. Esse dia foi um dia curioso, e foi um bom exemplo de como as faculdades se vergam aos ditames do poder. Não se sabe ler bem, lê-se muito pouco, não se sabe escrever, escreve-se pouco, não se sabe fazer contas, mas ensina-se literacia financeira. Uma campanha pelo país em que todos as Faculdades alinharam. Por exemplo, e com orgulho, a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, colocava no seu sítio:

No 𝐃𝐢𝐚 𝐌𝐮𝐧𝐝𝐢𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐏𝐨𝐮𝐩𝐚𝐧𝐜̧𝐚 (31 de outubro), 19 estudantes e 6 docentes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra dinamizaram sessões de 𝐋𝐢𝐭𝐞𝐫𝐚𝐜𝐢𝐚 𝐅𝐢𝐧𝐚𝐧𝐜𝐞𝐢𝐫𝐚 em várias escolas da região centro, no âmbito da iniciativa nacional “𝐄𝐝𝐮𝐜𝐚𝐫 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐚 𝐂𝐢𝐝𝐚𝐝𝐚𝐧𝐢𝐚: 𝐏𝐨𝐮𝐩𝐚𝐫, 𝐮𝐦 𝐂𝐨𝐦𝐩𝐫𝐨𝐦𝐢𝐬𝐬𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐨 𝐅𝐮𝐭𝐮𝐫𝐨”.

O Ministro da Educação, Fernando Alexandre, destacou que “saber gerir dinheiro e fazer escolhas conscientes são competências fundamentais para a vida adulta e em sociedade.”

Com esta ação, a FEUC reforça o seu compromisso com a 𝐫𝐞𝐬𝐩𝐨𝐧𝐬𝐚𝐛𝐢𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐚𝐥 e contribui para formar cidadãos mais preparados para o futuro” Fim de citação.

Mas este discurso terá sido mais ou menos igual por todo o país. O Governo terá fica satisfeito com esta missão, uma campanha massiva em nome da financeirização da economia, os Diretores das Faculdades contentes por se colarem ao governo, cantando e rindo em nome de vivas à poupança que irá irrigar os mercados financeiros, os professores participantes envaidecidos com a sua participação e com uma eventual linha adicional no seu curriculum, e os alunos terão ficado embasbacados com o que não perceberam e terá sido, eventualmente, muito.

O que as autoridades não contaram, e muito cinicamente, é que o que estava em jogo na sua campanha era a promoção da financeirização da economia, a tal financeirização que levou à grande crise financeira de 20008. Lembram-se? E a questão é tão evidente que o PS, conforme relata a agência Lusa tomou a seguinte posição:

O Partido Socialista pediu ao Governo que rejeite a intenção da União Europeia de condicionar o acesso aos fundos europeus a reformas nos sistemas de pensões. PS diz que seria uma “clara violação do princípio da subsidiariedade”

O PS pediu esta sexta-feira ao Governo que rejeite a intenção da União Europeia de condicionar o acesso aos fundos europeus a reformas nos sistemas de pensões.

Em causa está uma notícia do jornal Politico, especializado em assuntos europeus, segundo a qual a Comissão Europeia tenciona reter fundos europeus a países que não avancem com reformas nos respetivos sistemas de pensões.

No projeto de resolução entregue na Assembleia da República, o grupo parlamentar socialista considera que uma decisão desta natureza “seria inédita e suscita fundadas reservas quanto ao respeito pela repartição de competências entre a União e os Estados-membros, tal como consagrada no Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE)”. Fim de citação

O PS diz que o que Maria Luís Albuquerque quer é algo que viola os princípios enunciados no Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, a começar por algo bem, simples, a chantagem  que se quer exercer sobre  os governos nacionais com a disponibilização dos fundos estruturais e em que as faculdades exultam em, de forma encapotada,  estar a colaborar com as intenções do governo, produzindo as mensagens que os Fernando Alexandre, os Gonçalo Matias , os  Álvaro Santos Pereira, o Joaquim Miranda Sarmento e muitos outros neoliberais de meia tijela querem que sejam emitidas.  Mas falando em princípios; será que o nosso governo os tem? Mas falando em princípios, será que a União Europeia os tem? E fico-me por aqui.

 

JMota

23/11/2025

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

Quando as notas deixam de ter significado: o escândalo de matemática da UC San Diego é um alerta

 Por Kelsey Piper

Publicado por em 18 de Novembro de 2025  (original aqui)

 

Se o leitor nunca sentiu isto nas aulas de matemática, mas mesmo assim conseguia tirar notas A, ou o leitor é um génio ou roubaram-lhe a sua educação. (Photo by Ridofranz/iStock via Getty Images)

 

A pergunta que chamou a atenção do mundo foi: 7 + 2 = [_] + 6. Não há truque; é tão simples quanto parece. A resposta é 3.

A pergunta foi feita a alunos da crescente turma de matemática de recuperação da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), a disciplina Math 2, e um quarto deles errou, segundo um relatório do Grupo de Trabalho do Senado-Administração da UCSD sobre Admissões.

A UCSD, uma das melhores universidades públicas do país, tem oferecido aulas de matemática de recuperação há quase uma década — mas, recentemente, a proporção de estudantes que precisam delas disparou. No outono de 2020, 32 estudantes se matricularam em Math 2. No outono de 2025, nada menos que 1.000 estudantes tiveram notas tão baixas no teste de colocação em matemática que precisariam de voltar às aulas dessa matéria [1].

Na verdade, muitos dos alunos não precisavam apenas de reforço em matemática do ensino secundário — os seus resultados indicavam que necessitavam de reforço em matemática do ensino básico ou até do ensino primário. Apenas 39% dos alunos na turma de apoio sabiam como “arredondar o número 374518 para a centena mais próxima.”

Ao rever resultados de testes como estes, seria de esperar registos escolares cheios de notas C, D ou até reprovações. Mas, de forma alrmante, os históricos destes alunos nem sequer refletiam dificuldades profundas em matemática. Na maioria dos casos, eram alunos cujos históricos indicavam que tinham frequentado cursos avançados de matemática e obtido bons resultados.

“Entre aqueles que demonstraram competências matemáticas abaixo do nível do ensino básico,” constatou o relatório, 42% afirmaram ter concluído cálculo ou pré-cálculo. “O padrão das disciplinas de matemática frequentadas no ensino secundário sugere, em muitos casos, níveis de competência matemática muito mais elevados do que a competência real que o aluno frequentemente possui.”

Os estudantes, em geral, também estavam a receber boas notas: mais de um quarto dos alunos que precisavam de reforço em matemática tinham uma média de 4.0 em matemática. A média era de 3.7. Na verdade, o relatório constatou que, em média, as notas dos alunos em 2025 aumentaram em comparação com as dos alunos admitidos em 2020.

Em vez disso, eis a imagem absurda que o relatório pinta lenta e meticulosamente: várias escolas secundárias estão a atribuir notas A a alunos de Cálculo Avançado (AP Calculus) que não possuem nenhuma competência em cálculo e que obteriam a pontuação mais baixa possível no exame de AP Calculus se o fizessem.

Para tentar  entender como isso aconteceu, conversei com alguns professores de matemática do ensino médio.

“Eu já ensinei AP Cálculo em circunstâncias que produziram este tipo de resultado’, disse-me um professor de matemática de uma escola pública. “Ninguém sabe fazer frações” [2].

Os alunos estão a perder tantos pré-requisitos que ensinar-lhes cálculo é basicamente inútil. E, de facto, quase todos eles reprovam no exame de AP Cálculo no final do ano.

‘Os meus resultados de exame quando eu estava a ensinar eram, na maioria: um aluno (que realmente tem a maioria das competências prévias necessárias) tira um cinco e talvez mais um consiga um três, e todos os outros tiram um e dois valores’, contou-me o professor. ‘Eu não tinha permissão para avaliar de uma forma que os responsabilizasse.’

“O que aconteceria”, perguntei, “se você avaliasse com base no domínio real que eles têm de cálculo?'”

“Se eu estivesse a reprovar todos os alunos que não estavam a acompanhar o nível da turma, isso abrangeria quase todos”, disse-me a professora. “Os alunos estariam todos a tentar abandonar a disciplina para preservar os seus GPAs [Nota do tradutor: GPA (Grade Point Average) é a média ponderada das notas de um estudante, usada para medir o desempenho académico em cursos de ensino, especialmente em universidades], porque esse é o grupo de alunos que se importa com a classificação. E se todos abandonarem a disciplina, simplesmente esta desaparece dos currícula da Escola.

Espero que, chegados aqui, o leitor esteja pelo menos um décimo tão indignado por conta desses estudantes quanto eu estou. Porque vamos recapitular: Esses alunos frequentam escolas públicas. Eles esforçam-se; importam-se com a sua posição no ranking da turma; tiram boas notas.

“Os que sempre estiveram no topo não têm motivo para pensar que não estão preparados”, disse-me a professora de matemática. Afinal, eles tiram um A todos os anos. Não significa isso que dominam o conteúdo? Mas não, não significa isso.

Em vez disso, ano após ano, eles ficam cada vez mais para trás, e torna-se cada vez mais impossível para qualquer professor admitir que os alunos não conseguem fazer matemática e avaliá-los em conformidade — já que isso arruinaria as médias de notas [os GPAs] e as perspetivas de ingresso na faculdade. Dessa forma, eles podem chegar até à universidade antes de descobrir que só conseguem fazer matemática a nível de ensino básico [n.t. o nosso 9º ano] ou, às vezes, até de ensino primário.

Até recentemente, o “choque da realidade” – de que estas crianças foram privadas de uma educação adequada em matemática nos últimos 10 anos – acontecia quando elas apresentavam pontuações muito baixas no SAT [teste de aptidão escolar] e no ACT [teste para faculdade nos EUA]. Elas não teriam conseguido entrar numa universidade como a Universidade da Califórnia em San Diego, que está entre as universidades públicas mais bem classificadas e seletivas do país.

No entanto, em 2020, o sistema da UC eliminou o requisito do SAT e do ACT para admissões, contra o conselho da Academic Senate’s Standardized Testing Task Force. Em 2021, o sistema tornou essa política permanente, citando preocupações de que os testes são tendenciosos contra estudantes desfavorecidos e defendendo a ideia (factualmente errada) de que eles não ajudam a prever o sucesso na faculdade.

Desde então, o número de estudantes em aulas de matemática de recuperação na UCSD aumentou de 32 para quase mil, segundo constatou o relatório da universidade. No entanto, o relatório deixou claro que a instituição não estava — e ainda não está — bem preparada para responder a este problema.

Tantos estudantes precisaram de matemática de recuperação nos últimos dois anos que não houve aulas suficientes para todos, e centenas ficaram sem colocação. Talvez isso fosse aceitável se a matemática de recuperação universitária pudesse compensar anos de baixo desempenho. Mas mesmo para os estudantes que conseguem vaga nessas aulas, os resultados não são bons.

As áreas de estudo mais comuns escolhidas pelos alunos que fazem matemática de recuperação são biologia e psicologia. Os cursos de bacharelado em Psicologia e Biologia exigem cálculo em nível universitário, e os estudantes normalmente frequentam as disciplinas de cálculo 10A e 10B da UCSD.

Mas o relatório constatou que os estudantes vindos da matemática de recuperação têm dificuldades nessas disciplinas, mesmo depois de terem concluído todos os cursos de recuperação que a universidade pode oferecer: entre 2017 e 2023, 24% desses estudantes receberam nota D, F ou desistiram da disciplina 10A. Entre aqueles que prosseguiram para a 10B, 30% receberam nota D, F ou desistiram.

Além disso, embora se possa imaginar que a maioria dos estudantes da UCSD que precisam de matemática de recuperação sejam fortes em outras áreas, cada vez mais os mesmos estudantes também necessitam de aulas de recuperação na escrita: “dois em cada cinco estudantes com graves deficiências em matemática também precisaram de aulas de recuperação na escrita”.

Mesmo com um ano de aulas de recuperação, a universidade só consegue colocar alguns desses estudantes em condições de ter sucesso, mesmo diante dos requisitos matemáticos bastante mínimos para os cursos mais comuns que pretendem seguir. Ainda é cedo para haver dados sobre se esses grupos de estudantes que necessitam de recuperação extrema se irão formar no prazo — ou sequer se se irão mesmo formar —, mas eu não apostaria nisso.

Ora, muitas pessoas continuam a interpretar mal esta história, e quero aqui deixar algumas coisas claras:

  1. Isto não é apenas sobre a COVID-19 ou sobre telemóveis nas salas de aula ou seja lá qual for o seu bode expiatório favorito.

Algumas pessoas entenderam o rápido declínio da competência em matemática na UCSD como apenas um exemplo particularmente bem documentado de um fenómeno que ocorre em todo o lado: o desempenho dos estudantes caiu após as perturbações da COVID e o confinamento das escolas.

Este fenómeno é definitivamente real — os resultados dos testes padronizados estão feios — mas o que está a acontecer na UCSD não é típico. Outras faculdades da UC viram um aumento de duas ou três vezes no número de estudantes despreparados, não um aumento de trinta vezes.

Isto diz respeito ao processo de admissão da UCSD e, em particular, à tempestade perfeita criada pela enorme inflação de notas e pela proibição do uso de exames padronizados. Esses fatores permitem que as admissões sejam dominadas por estudantes com boas notas em disciplinas avançadas de que, na realidade, não aprenderam o conteúdo necessário.

  1. Isto diz respeito ao sistema da UC.

Tenho observado uma enorme desconexão na forma como esta história tem sido discutida na Califórnia e fora da Califórnia. Os californianos têm um imenso orgulho do sistema UC, uma das joias da coroa do Estado. Temos, sem dúvida, muitas das melhores universidades públicas do mundo, e acreditamos fortemente que se pode retirar o qualificativo “públicas” e a afirmação continua a ser verdadeira.

Acredito sinceramente que UC Berkeley, UCLA e UC San Diego oferecem uma formação universitária tão boa como em Harvard, Yale ou Stanford — e, se o ,leitor for residente na Califórnia, fará isso por um preço razoável. Já vi alguns não californianos dizerem: “Porque é que é um grande problema se as universidades precisarem de oferecer vários anos de recuperação em matemática ? Não queremos nós que as universidades façam isso?”

A minha resposta é enfaticamente sim, nós queremos que as universidades façam isso. Qualquer estudante de qualquer idade pode aprender o que quiser numa faculdade comunitária. Há também o sistema da California State University, com padrões de admissão mais acessíveis.

Mas também queremos que as universidades da UC continuem a serem instituições de investigação de nível mundial. Há um dilema entre a capacidade de um departamento de matemática oferecer aulas de reforço de matemática básica e intermediária para mais de mil alunos e a sua capacidade de oferecer aos futuros estudantes de STEM as disciplinas avançadas de matemática de que precisam.

“O número de estudantes que entram em Matemática 2 e conseguem concluir um curso de engenharia é muito pequeno, se é que existe algum”, observou o relatório. Isso pode não ser um problema se esses alunos não quiserem seguir carreiras em STEM, mas eles também não estão particularmente preparados para cursos fora da área de STEM.

A Califórnia já se comprometeu com um caminho de ensino superior acessível a todos — faculdades comunitárias abertas e universidades de pesquisa de ponta. Se tentarmos fazer com que essas universidades de ponta também desempenhem o papel das faculdades comunitárias, destruiremos ambas.

  1. Esses estudantes não são preguiçosos nem burros.

Ok, tenho a certeza de que alguns deles serão — eu mesmo fui bastante preguiçoso durante a faculdade. Mas acho importante enfatizar que muitos estudantes nessa situação são, na verdade, inteligentes. São alunos que estavam entre os melhores da turma em grandes escolas públicas, que procuraram disciplinas avançadas, se esforçaram nelas e tiraram notas altas.

Sinto-me bastante confiante de que, se tivéssemos realmente permitido que eles falhassem mais cedo, proporcionando-lhes uma educação adequada durante o ensino básico e secundário, eles estariam, de facto, preparados para se destacarem na faculdade.

Esses jovens não estavam a fazer nada de errado. Eles foram enganados. Disseram-lhes que estavam preparados para aulas para as quais não estavam preparados. Disseram-lhes que se estavam a destacar em disciplinas nas quais não se estavam a destacar. Eles mereciam algo melhor.

É importante discutir francamente o quão má é esta situação, mas isso não precisa — e não deve — assumir a forma de culpar os estudantes ou presumir que eles sejam estúpidos ou indignos de alguma forma. Acho que essas abordagens de ‘culpar o estudante’ ganham força por causa de algum tipo de falácia do mundo justo, ou seja, de que cada um recebe o que merece.

Não queremos acreditar que o sistema possa ser tão catastrófico a ponto de falhar mesmo com jovens inteligentes e trabalhadores. Mas sim, ele pode absolutamente falhar com os jovens.

 

Para onde vamos a partir daqui?

É preciso acabar com a ideia de “equidade de culto de carga”. Sou um verdadeiro crente do poder da educação. Nem todas as crianças são igualmente inteligentes, e algumas começam em desvantagem significativa devido às circunstâncias da vida. Mas todas as crianças são capazes de aprender muito, se as escolas conseguirem alcançar alguns objetivos:

  1. Adaptar o ensino ao que os alunos têm como competências prévias necessárias para aprender e dominar.
  2. Ganhar a confiança dos alunos de que o conteúdo vale a pena ser dominado
  3. Dar aos alunos tanta prática quanto a que eles precisem (o que, para algumas crianças, é uma quantidade enorme).

A educação pode ser uma ferramenta enormemente poderosa para combater a injustiça.

Mas deixa-me realmente irritado quando as escolas tentam passar por cima do trabalho árduo de ensinar os alunos a serem bem-sucedidos simplesmente atribuindo-lhes notas A e passando-os de nível, mesmo que não tenham dominado o conteúdo das matérias estudadas.

Para as escolas secundárias que se envolvem nessa fraude: isso pode, temporariamente, melhorar as suas estatísticas sobre quantos alunos de origens desfavorecidas estão matriculados em cálculo, mas, em última análise, é uma injustiça contra as próprias crianças que afirmam estar a ajudar.

O professor está a desperdiçar o tempo deles em aulas de matemática para as quais não estão preparados. O professor está a preparar os alunos para o fracasso em universidades que assumem que os seus alunos têm conhecimentos prévios que, na verdade, não possuem. E assim está-se potencialmente a fazer com que os alunos desperdicem tempo e dinheiro.

O objetivo da equidade não é envaidecer-se do número de alunos de dado meio a quem se deu um A em cálculo, mas sim garantir que cada aluno realmente aprenda.

Além disso, para os pais que estão a ler isto: as boas notas do seu filho podem não significar nada. Os pais, compreensivelmente, tendem a assumir que se o filho está a tirar notas A, isso significa que está a aprender. Estou aqui para dar uma má notícia: pode não significar isso. É perfeitamente possível que o seu filho, que traz para casa apenas notas A, esteja catastroficamente atrasado numa ou mais áreas do seu estudo.

Ouvi histórias de pais cujos filhos estavam a tirar notas A Línguas, mas não conseguiam ler fluentemente. Ouvi de pais cujos filhos estavam a tirar notas A em matemática, mas depois reprovaram num teste de admissão e descobriram que a escola simplesmente não se preocupou em cobrir uma parte significativa do currículo.

Isto é revoltante. É ultrajante. Sinto-me relutante até em discutir isso sem um plano sobre o que fazer, porque sempre que falo com os pais, eles ficam angustiados e querem conselhos sobre o que fazer a seguir.

Mas essa é a verdade. O único conselho que posso dar é este: fiquem indignados. Esse sistema não vai mudar a menos que alguém exija isso.

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Comentário

Malcolm

Falando como um educador da escola pública, aprecio muito como a sua análise aprofunda a forma como essa inflação de notas está a prejudicar os alunos (que muitas vezes são considerados culpados por isso). Também quero garantir que não estamos a culpar os professores do ensino secundário aqui — o que não acho que o faça — mas vale a pena explicitar as várias forças que impulsionam esse fenómeno para fora do controle dos professores:

  1. Sistemas rígidos e punitivos de avaliação escolar em nível distrital incentivam as escolas a manipular as suas estatísticas (a responsabilização é boa, mas muitos administradores distritais são apenas pequenos tiranos).
  2. A enorme e bem financiada expansão do programa “AP-for-All”, que empurra mais alunos para aulas de nível universitário mais cedo (agora vejo rotineiramente alunos de escolas charter fazendo disciplinas AP no 7º ano — como assim???).

Nota de tradutor

Advanced Placement (AP): São disciplinas de nível universitário oferecidas no ensino médio. Ao concluir o curso e passar no exame, o estudante pode receber créditos académicos válidos em universidades.

 P-for-All: É um movimento ou programa que garante que todos os alunos, independentemente da escola ou região, tenham acesso a esses cursos rigorosos e de alta qualidade.

 

  1. O processo de admissão nas universidades está-se a tornar cada vez mais competitivo e demorado ano após ano, levando estudantes e pais a uma intolerância maior em relação a notas baixas.
  2. A crise de saúde mental entre os jovens, que deixou muitos fragilizados e torna as escolas mais cautelosas em atribuir notas baixas.

É triste porque o programa *AP for All* é, na verdade, uma resposta à longa e dolorosa história de como o sistema de turmas diferenciadas (tracking) falhou com os alunos. Mas, em vez de enfrentar o problema nas suas raízes – o facto de que as escolas frequentemente tinham expectativas baixas ou inexistentes para os estudantes nas turmas de nível inferior — nós apenas corrigimos a aparência e acabámos por servir todos os alunos de forma menos eficaz.

Não tenho certeza de como saímos dessa situação, dado o quão profundamente entrelaçados estão todos estes fatores.

 

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Notas

[1] No outono de 2020, 32 alunos fizeram o Math 2, que foi originalmente projetado para cobrir a matemática do ensino médio, e 22 não foram colocados. Com o passar dos anos, a Math 2 foi redesenhada para cobrir a matemática do ensino fundamental, enquanto a Math 3b assumiu o ensino de conhecimentos do ensino médio. No outono de 2025, 665 alunos fizeram Matemática 2, 245 fizeram Matemática 3b e 173 não foram colocados, para um total de 1.094.

[2] As frações, é claro, devem ser ensinadas no terceiro grau e as operações com frações na quarto e quinto.

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A autora: Kelsey Piper (1992 – ) é uma jornalista estado-unidense que é redatora da The Argument. Anteriormente foi redatora da Vox, onde escreveu para a coluna Future Perfect, que abordou uma variedade de tópicos de uma perspectiva de altruísmo eficaz. Enquanto frequentava a Universidade de Stanford, ela fundou e dirigiu a Stanford Effective Altruism student organization. Piper colabora no blog The Unit of Caring. Formou-se em Sistemas Simbólicos na universidade de Stanford.

 

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