Nota prévia:
Este texto de Aaron Maté relembra rápida e resumidamente alguns dos antecedentes do golpe agora desferido por Trump e seus apoiantes sobre a Venezuela. Procurámos alguns dos textos que ao longo destes últimos anos (nomeadamente desde 2019) fomos publicando sobre a Venezuela. Um, entre outros, chamou-nos especialmente a atenção. Trata-se de um texto publicado pela CELAG (Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica) em fevereiro de 2019 e que incide sobre as consequências económicas [e não só] do boicote à Venezuela. Deixamos aqui as conclusões do estudo da CELAG (texto aqui e aqui):
Conclusões
Desde a chegada de Nicolás Maduro à presidência e o falecimento de Hugo Chávez, em 2013, praticamente desapareceu o financiamento disponível para a Venezuela, que deixou de contar com aproximadamente 22 mil milhões de dólares por ano. Foi o único país na região que sofreu esta discriminação. A economia venezuelana, altamente especializada no sector petrolífero, é o país mais aberto da região mas, como contrapartida, depende da disponibilidade de importações. Sem disponibilidade de divisas e importações, não pode ativar o seu aparelho produtivo. Em termos gráficos, a reversão do financiamento é equivalente a ter lançado bombas sobre a infraestrutura produtiva do país, nomeadamente a petrolífera.
Apesar das limitações metodológicas que implica qualquer exercício de simulação contrafactual, este trabalho põe em evidência que o boicote financeiro e comercial sobre a Venezuela explica uma grande parte da crise que hoje afeta o país. Os cenários considerados, seguindo um critério de prudência, são cenários realistas, que refletem o que poderia ter sucedido no pior dos casos se o país tivesse que enfrentar a adversidade sem os embates do boicote financeiro internacional. Com efeito, poderíamos ter considerado até cenários ainda mais favoráveis, como aqueles que facilitaram o endividamento da Argentina e de muitos governos da região que tiveram a possibilidade de praticarem uma política contra cíclica recorrendo ao financiamento externo. Ninguém melhor para conseguir financiamento que um país como a Venezuela, repleto de recursos naturais úteis para servirem como garantia dos empréstimos internacionais. Se a Venezuela tivesse contado com um financiamento proporcional ao que recebeu Mauricio Macri nos seus três primeiros anos de Governo, teria tido um crescimento do PIB superior ao da Argentina. Pelo contrário, em vez de contar com o apoio internacional a Venezuela foi o único país obrigado a desendividar-se.
Como consequência direta do boicote financeiro e comercial os venezuelanos perderam entre 1,6 e 1,1 PIBs entre 2013 e 2017. Isto representa entre 350 mil e 245 mil milhões de dólares acumulados desde 2013, ou seja, entre 12.100 e 8.400 dólares per capita. As migrações de venezuelanos para o resto do mundo representam um problema humanitário que requere solução e atenção. Lamentavelmente, o rosto humano do drama migratório não só foi provocado em grande medida pelas medidas de bloqueio, que rebentou com as condições de vida da população, como também, de momento, parece servir só de desculpa para justificar a ingerência dos EUA.
As aspirações soberanistas da Venezuela, as suas políticas de retenção na origem da receita petrolífera, as suas iniciativas que desafiavam a hegemonia do dólar, a sua aposta na integração regional através da UNASUR e por um mundo multipolar, foram desafios à hegemonia dos Estados Unidos que tiveram consequências. Talvez tenham representado um desafio maior do que se podia permitir um país com a soberania económica limitada da Venezuela.
A Venezuela é um dos países mais integrados no comércio internacional a julgar pelo coeficiente de abertura externa. Um dos riscos inevitáveis da integração no mercado financeiro é a vulnerabilidade derivada da estrutura produtiva especializada e concentrada no petróleo, que significa dependência em relação a qualquer personagem no mercado petrolífero e pouca capacidade de autosuficiência nos restantes bens. Venezuela confiou na sua capacidade de endividamento, na sua capacidade para importar desde várias origens em condições normais de mercado, e no entanto o que encontrou foram condições de boicote.
Cabe notar que a obstinação com a Venezuela faz parte de uma estratégia hegemónica global dos Estados Unidos. É um tiro dirigido à elevação da China e outros países extrarregionais que ousaram pôr um pé na região desafiando a Doutrina Monroe.
Para os Estados Unidos o controle dos recursos venezuelanos representa não só o restabelecimento das condições históricas de domínio sobre a região, como também uma vantagem económica, uma vantagem competitiva que fortaleceria a hegemonia do dólar e a competitividade da economia norte-americana frente aos competidores europeus e chineses. Como assinalámos, representa uma vantagem para as grandes empresas estado-unidenses que terão a seu cargo o negócio extractivo e uma vantagem para o conjunto da economia norte-americana que disfrutará de uma redução do custo do combustível, tanto pelo controle do petróleo venezuelano como pela possível retirada da Venezuela como integrante da OPEP.
O crime do golpe de Estado é uma violação do direito internacional com motivações económicas que a televisão mostra, salvo em algum canal de História. Parece ser que, para evitar que a história se repita, não só é necessário conhecê-la, como também antecipá-la.
Daí o nosso exercício prospetivo.
Quase sete anos depois assistimos ao golpe dos EUA, sob Trump, sequestrando o presidente Nicolás Maduro e abrindo um tempo de incerteza sobre o futuro da Venezuela, mas golpe esse que aponta não só para o conjunto da América Latina, mas também para outros pontos do mundo.
FT, 07/01/2026
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Seleção e tradução de Francisco Tavares
6 min de leitura
Trump sequestra Presidente da Venezuela para roubar petróleo do país
A “doutrina Donroe” vem para ser aplicada à soberania da Venezuela, e de qualquer outro desafio ao “domínio americano.”
Publicado por
em 5 de Janeiro de 2026 (original aqui)

Ao anunciar o ataque dos militares dos EUA à Venezuela e o sequestro do Presidente Nicolás Maduro, uma operação que teria matado pelo menos 80 pessoas, o presidente Trump expôs o seu verdadeiro motivo.
Invocando a Doutrina Monroe de 1823, que sustentou décadas de agressão dos EUA contra governos latino-americanos, Trump gabou-se de que “eles agora a chamam de Doutrina Donroe… O domínio americano no hemisfério ocidental não será questionado novamente”. O principal alvo desse domínio são as reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo. Com as empresas petrolíferas dos EUA a liderar o caminho, Trump prometeu: “vamos recuperar o nosso petróleo… o dinheiro que sai do solo é substancial”.
Enquanto Trump pretende que seja um refrão sobre o seu primeiro nome, a sua doutrina também é adequada para espelhar o comportamento de um mafioso: usar violência, ameaças e roubo para obter riqueza.
Quanto à Venezuela, isso significou mais de duas décadas de política bipartidária dos EUA para destruir a Revolução Bolivariana do país, que começou sob o predecessor de Maduro, Hugo Chávez.
Em abril de 2002, uma fracção militar desonesta raptou Chávez e instalou Pedro Carmona, um líder empresarial com laços estreitos com a administração de George W. Bush. (Numa táctica que seria replicada no golpe de Maidan de 2014 na Ucrânia, atiradores dispararam contra manifestantes pró e antigovernamentais para fornecer um pretexto para a expulsão de Chávez, um episódio capturado no documentário “A revolução não será televisionada.”)
Uma ditadura de facto foi imposta ao abrigo do Decreto Carmona, que suspendeu a Constituição do país democraticamente aprovada de 1999 e dissolveu a Assembleia Nacional e o Supremo Tribunal. No prazo de 48 horas, uma revolta popular dos apoiantes de Chávez, juntamente com uma operação de resgate por membros leais das Forças Armadas Venezuelanas, devolveu o líder preso ao Palácio Presidencial.
Embora o golpe de 2002 tenha sido rapidamente revertido, foram lançadas as bases para uma campanha de mudança de regime a longo prazo. Entre os signatários do Decreto antidemocrático de Carmona estava Maria Corina Machado, a figura da oposição venezuelana que, juntamente com os seus aliados, tem recebido amplo apoio do governo dos EUA por meio de canais de mudança de regime, o National Endowment for Democracy (NED), e a agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Machado, que prometeu entregar a valiosa riqueza petrolífera e mineral da Venezuela para a exploração dos EUA e fez campanha abertamente pela intervenção militar dos EUA, foi recentemente premiada com o Prémio Nobel da paz.
O período pós-golpe coincidiu com um aumento dos preços do petróleo, o que permitiu a Chávez dedicar recursos consideráveis ao bem-estar social, beneficiando a maioria pobre da Venezuela. Segundo todos os indicadores, o seu programa ajudou uma população marginalizada há muito excluída da política venezuelana. No âmbito do regime de Chávez, o desemprego foi reduzido para metade, a pobreza extrema diminuiu drasticamente e o PIB mais do que duplicou. Estes ganhos sociais, juntamente com o desafio aberto da Venezuela à hegemonia dos EUA e a promoção da cooperação global do Sul, irritaram Washington, que há muito tem como alvo governos que desafiam o seu domínio. Como avisava um telegrama do Departamento de Estado [dos EUA] em 1960, sobre Cuba, a resposta dos EUA seria impor políticas que “diminuissem os salários nominais e reais, para provocar fome, desespero e o derrube do governo.”
A morte de Chávez em 2013 de cancro deu Washington e aos seus aliados da oposição uma nova abertura. Maduro, o sucessor escolhido, não tinha o carisma de Chávez e seria confrontado rapidamente com uma queda nos preços do petróleo que financiaram o programa bolivariano.
Em Março de 2015, o governo Obama declarou a Venezuela como uma “ameaça extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”. Esse movimento, escreve Anya Parampil no seu livro essencial “Corporate Coup“, prejudicou a economia da Venezuela ao enviar “às instituições financeiras internacionais uma mensagem para se afastarem da Venezuela ou correriam o risco de enfrentar a ira de Washington”. Ao assumir o cargo, a administração Trump intensificou essa ira com sanções incapacitantes contra o setor petrolífero da Venezuela, que representava 95% da receita de exportação do país. Eles também planearam o roubo de valiosos ativos venezuelanos, nomeadamente a Citgo, a subsidiária americana da sua companhia estatal de petróleo, e de reservas de ouro mantidas em bancos do Reino Unido.
De acordo com o economista venezuelano Francisco Rodriguez, um duro crítico de Maduro, as sanções de Trump “levaram a um colapso nas receitas do petróleo, contribuindo para a maior contração em tempos de paz da história moderna”. As sanções também alimentaram uma onda de migrantes que fugiam das terríveis condições do seu país, tal como tinham antecipado os principais responsáveis do governo Trump. Thomas Shannon, que exerceu o cargo de subsecretário para assuntos políticos do Departamento de Estado, lembrou então que: “as sanções vão reduzir a pó a economia venezuelana e têm enormes consequências humanas, uma das quais seria a migração”. Mas para John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional no primeiro mandato de Trump, um orgulhoso arquiteto das sanções, o colapso económico e a migração foram um resultado pretendido. “Sem dúvida nenhuma, as sanções, juntamente com a deterioração económica geral, estava a levar imensa gente para fora do país”, disse Bolton. “Isso, para mim, foi uma forma de pressionar o país.”
A admissão de Bolton ressalta o cinismo da política de Trump: esmagando conscientemente a economia da Venezuela e, em seguida, culpando apenas Maduro pelo colapso; e criando conscientemente milhões de migrantes económicos, e depois demonizando-os quando se candidatou à presidência.
No seu primeiro mandato, Trump procurou substituir Maduro pelo político venezuelano Juan Guaidó, que foi reconhecido pelos EUA como o presidente legítimo e festejou com uma ovação bipartidária de pé no Congresso. Embora Trump e o seu sucessor Joe Biden tenham finalmente abandonado Guaidó, não desistiram do objectivo. Desde que assumiu o cargo no ano passado, Trump renovou a sua campanha de mudança de regime sob a liderança do seu maior campeão, o Secretário de Estado Marco Rubio.
Há um ano, este mês, o enviado de Trump, Rick Grenell, visitou Caracas e negociou com sucesso um acordo para libertar prisioneiros americanos. A diplomacia de Grenell suscitou esperanças de uma aproximação mais ampla, mas Rubio rapidamente pôs fim a isso. “Uma das minhas prioridades é garantir que a política externa dos EUA envie um sinal de que é melhor ser amigo do que inimigo”, explicou Rubio. E Venezuela, Cuba e Nicarágua – alvos de longa data da mudança de regime pretendida pelos EUA – são “inimigos da humanidade”.
Sob a vigilância de Rubio, os EUA intensificaram a sua infundada alegação de que Maduro supervisionava um cartel de drogas inundando os EUA com narcóticos. Não interessa que o suposto cartel de Maduro, o Cartel de Los Soles, não seja uma organização real e, na medida em que operou, apenas o fez como parceiro dos EUA. Como a CBS News informou em 1993, a CIA trabalhou com um agente venezuelano para enviar cocaína para os EUA como parte de uma operação para se infiltrar nos cartéis de drogas colombianos. Esse esforço foi descrito informalmente como envolvendo o “Cartel De Los Soles”, uma figura de estilo que se refere a generais venezuelanos corruptos. É por esta razão que os relatórios anuais da Drug Enforcement Administration e do Departamento de Estado sobre o tráfico de droga nunca mencionaram o “Cartel De Los Soles” pelo nome. E ao mesmo tempo que acusava Maduro de liderar uma conspiração fictícia de drogas, Trump recentemente perdoou o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, um narcotraficante condenado que aceitou mais de 1 milhão de dólares em subornos para passar drogas através das Honduras e foi capturado em video prometendo “enfiar as drogas no nariz dos gringos”.
Trump e Rubio fizeram afirmações igualmente duvidosas sobre Maduro dirigir a quadrilha Tren de Aragua (TDA), o pretexto para deportar imigrantes venezuelanos para uma prisão de torturas em El Salvador sem o devido processo. A lógica do governo Trump foi minada no início deste ano por um relatório de inteligência dos EUA que concluiu que o governo venezuelano “provavelmente não tem uma política de cooperação com a TDA e não está a dirigir” as suas atividades nos Estados Unidos.
Despreocupado com os factos e desprezando o direito internacional, a equipa de Trump escalou com uma acumulação militar nas Caraíbas e bombardeamentos regulares de barcos que alegou que transportavam drogas. Os EUA também abriram uma nova campanha de pirataria, com a apreensão navios-tanque venezuelanos para garantir que os venezuelanos não podem sequer beneficiar com o petróleo que eles conseguem produzir sob incapacitantes sanções. Trump, explicou o Wall Street Journal, “vê a campanha agressiva como uma política externa de vitória que poderia ser uma vantagem económica para os EUA. dadas as vastas reservas de petróleo e outros recursos naturais da Venezuela.”
Nestas condições de estrangulamento económico e agressão militar, não é surpresa que Trump e Rubio tenham finalmente conseguido o seu homem. O facto de Maduro ter sido capturado por forças dos EUA com pouca resistência indica que Washington tinha cooperação dentro do círculo íntimo do líder venezuelano. Quanto ao público em geral, a Venezuela está profundamente dividida, uma divisão deliberadamente exacerbada por anos de sanções incapacitantes.
Está por ver o que acontecerá a seguir na Venezuela, onde o governo remanescente de Maduro ainda está no poder sob a Vice-Presidente Delcy Rodriguez. Nos seus comentários, Trump ameaçou com uma segunda invasão, uma clara ameaça aos sucessores de Maduro para submissão completa.
A única certeza é que a agressão da equipa Trump não termina em Caracas. Nos seus comentários públicos no sábado, Trump e Rubio identificaram mais alvos potenciais. O presidente colombiano Gustavo Petro, um crítico da campanha contra a Venezuela, “tem de vigiar o seu traseiro”, declarou Trump. Quanto a outra crítica, a Presidente mexicana Claudia Sheinbaum, indiscutivelmente a líder mais popular da América Latina, “algo terá de ser feito com o México”, acrescentou. E Rubio, que há muito procura uma mudança de regime no país de origem da sua família, ofereceu a sua própria ameaça: “se eu vivesse em Havana e estivesse no governo, estaria preocupado, pelo menos um pouco.”
De acordo com a doutrina Donroe, o aviso aplica-se a qualquer estado vulnerável que resista ao domínio americano.
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O autor: Aaron Maté é um jornalista e produtor. Ele é o anfitrião em Pushback com Aaron Maté no The Grayzone. Em 2019, Maté foi galardoado com o Prémio Izzy (com o nome de I.F. Stone) pelo seu feito notável nos meios de comunicação independentes pela sua cobertura do Russiagate na revista The Nation. Anteriormente, foi anfitrião/produtor de The Real News and Democracy Now!


