As consequências económicas do boicote à Venezuela (1/2). Por CELAg-Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica

america latina 1

Seleção e tradução de Francisco Tavares

As consequências económicas do boicote à Venezuela (1/2)

pela Unidade Debates Económicos do celagCentro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica, em 8 de fevereiro de 2019

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O calcanhar de Aquiles da América Latina continua a ser o seu setor externo. Os Estados Unidos estão conscientes desta fragilidade e utilizam-na em seu proveito, como com Cuba, que leva 6 décadas com um embargo sobre o seu setor externo. Todos os países que hoje são qualificados como “milagres económicos” de desenvolvimento recente, são-no em grande parte porque conseguiram diminuir a dependência do setor externo. Com efeito, a estratégia desenvolvimentista baseada nas exportações, não só é uma política ativa de desenvolvimento económico, também é uma política estratégica de soberania.

A historia da América Latina demonstrou que as crises começam e terminam com um desequilíbrio com o exterior, seja por uma queda dos preços internacionais das matérias primas, uma fuga massiva de divisas ou por uma perda do financiamento da dívida externa. Qualquer destas situações detona, em última instância, uma crise de financiamento de divisas e um ajustamento da economia doméstica via taxa de câmbio.

No caso da Venezuela, a dependência é ainda mais crítica porque a oferta interna de bens é altamente dependente da quantidade de divisas disponíveis para importação. A Venezuela é um país que desde a década de 1960 aprofundou a sua especialização produtiva em petróleo e, consequentemente, é altamente dependente das importações. O dólar é o insumo mais importante da oferta agregada e o seu sistema produtivo depende do financiamento externo para continuar a reproduzir-se. Sem uma entrada líquida de dólares que financie o processo produtivo, a economia encolhe ao ritmo da escassez de moeda estrangeira. O boicote económico que a Venezuela está a sofrer e que recrudesceu após a assunção da presidência por Nicolás Maduro em 2013, é um sinal de que a plena integração comercial na globalização tem efeitos colaterais negativos, e entre eles estão os riscos geopolíticos que afetam o país hoje.

Nesta breve nota, fazemos uma estimativa contrafactual do que tem sido o efeito do boicote dirigido pelos EUA à Venezuela desde 2013 -e com maior ênfase desde 2015-, quando os Estados Unidos cortaram o acesso ao mercado de crédito, repetindo a receita cubana de sufocar comercial e financeiramente a economia e a sociedade. Utilizando um modelo macroeconómico consistente, quantificámos o efeito do bloqueio financeiro sobre a produção do país e, consequentemente, sobre as condições do mercado de trabalho e a migração.

O trabalho mostra que o bloqueio explica a maior parte da crise económica que afeta o país, e que tem sido a principal causa das migrações, e argumenta que a atitude internacional de atribuir toda a culpa ao governo venezuelano faz o mesmo sentido que as desculpas dos violadores que culpam o comprimento das saias.

Motivos do bloqueio

Qual é a motivação por trás do boicote internacional liderado pelos EUA à Venezuela?

Em primeiro lugar, temos de nos interrogar se a intervenção é realmente justificada por razões humanitárias. Em nossa opinião, esse argumento desmorona-se quando observamos que os EUA têm tido uma política muito hostil e golpista em relação ao governo venezuelano desde o início do governo de Chávez, quando não havia crise humanitária. Também se desmorona quando provamos que a crise humanitária é consequência direta do estilo de boicote que os Estados Unidos promoveram através do instrumento de guerra económica baseado na hegemonia financeira.

Há muitas razões que explicam as reivindicações dos EUA sobre a Venezuela. Muitas delas são de natureza política e têm a ver com os desafios à hegemonia norte-americana, que estão na matriz do pensamento chavista, e a aposta por um mundo multipolar em desafio à Doutrina Monroe, com a participação aberta de atores extra-regionais, como a China e a Rússia.

Não menos importantes são as razões económicas. Entre elas destacam-se os desafios sem precedentes liderados pela Venezuela à hegemonia do dólar e a abundância de recursos naturais venezuelanos.

Em Economia utilizamos o conceito de “maldição dos recursos” (resource curse), que podemos descrever como o efeito negativo no desenvolvimento gerado pela abundância de recursos naturais. Uma das variedades desta maldição é explicada pelo facto de que a disputa pelo controle do recurso conduz a conflitos políticos que dificultam o desenvolvimento. Alguns desses conflitos são internos [1], entre facções que tentam controlar o recurso; outros conflitos, por outro lado, apoiam-se em facções internas que representam interesses externos, como no caso do boicote económico à Venezuela.

Desafio venezuelano à hegemonia do dólar

Após a crise do petróleo dos anos 70, os Estados Unidos reagiram com o fim unilateral dos acordos de Bretton Woods, nos quais tinha sido acordado o sistema monetário global baseado no padrão-ouro. Um dos desencadeadores da crise foi o embargo petrolífero da Arábia Saudita e de outros países árabes aos países que apoiaram Israel na guerra do Yom Kippur, entre eles os Estados Unidos. Os Estados Unidos reagiram para impedir que nenhum outro país pudesse utilizar o petróleo como arma contra a economia estado-unidense.

O acordo alcançado com os sauditas incluía a protecção de Washington a Riade contra qualquer ameaça externa, em troca de as vendas de petróleo serem cotadas e pagas exclusivamente em dólares americanos. Desta forma, os EUA garantiam a procura artificial de dólares nas transacções económicas internacionais, de modo a ser o novo pilar sobre o qual cimentar o poder global da economia norte-americana. O acordo foi a estratégia para conter o descrédito da moeda americana após a desvalorização produzida pelo fim do compromisso de apoiar o dólar em dinheiro. O novo padrão monetário já não ligaria as detenções de dólares às reservas de ouro, mas sim ao petróleo, de modo que qualquer país que precisasse de comprar ou vender petróleo teria de obter os dólares para realizar a transacção. Assim, foi criada a procura mundial por dólares que sustentaria o seu valor e credibilidade como nova moeda de reserva e circulação global.

Qualquer país que tenha desafiado a hegemonia do dólar rapidamente recebeu a resposta dos EUA, seja através de embargos ou – se estes não eram eficazes – de alguma forma de intervenção militar. Dois países com grandes reservas de petróleo, como o Iraque e a Líbia, quando promoveram a criação de sistemas alternativos para o comércio de petróleo que evitavam usar o dólar como moeda de transação, sofreram intervenções dos EUA. Estes não são os únicos casos. As sanções sobre a economia russa também se intensificaram após as suas tentativas de criar mecanismos alternativos para colocar a oferta de petróleo russo.

Do mesmo modo, a Venezuela promoveu nas últimas duas décadas, juntamente com o processo de recuperação soberana dos seus recursos naturais, iniciativas que lhe permitiriam libertar-se da situação de dependência do dólar.

Nesse sentido, iniciativas como o SUCRE (Sistema Unitário de Compensação Regional de Pagamentos), acordos bilaterais com outros países para comerciar com outras moedas, tentativas de criar um banco de financiamento regional como o Banco do Sul ou, recentemente, a criação da Petro criptomoeda, implicam desafios à hegemonia do dólar promovidos pela Venezuela.

O SUCRE (Sistema Único de Compensación Regional) [2], uma iniciativa criada no âmbito do ALBA (Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América), propôs a criação de um sistema de pagamento internacional baseado numa moeda virtual que funciona como uma unidade de conta comum para o registo das transacções internacionais. Estas operações, e as liquidações daí resultantes, são canalizadas através dos bancos centrais dos países participantes que procedem ao apuramento das contas em virtude das operações efectuadas.

Além desta iniciativa, nos últimos anos a Venezuela promoveu acordos e convénios bilaterais para o comércio de petróleo em outras moedas que não o dólar. Neste sentido, destaca-se o acordo com a China para vender petróleo em yuan. Em março de 2018, a China, atualmente o segundo maior consumidor mundial de petróleo e o principal adversário da hegemonia norte-americana, emitiu o primeiro contrato de yuan, um passo importante para converter o renminbi numa moeda de referência mundial. Como fez a Venezuela, outros países exportadores de petróleo que já têm acordos avançados para comercializar petróleo em yuan são a Nigéria, Angola, Rússia ou Irão; estes dois últimos também são países vítimas de sanções e boicotes impostos pelos Estados Unidos.

A última iniciativa promovida pela Venezuela para combater a hegemonia do dólar foi o lançamento da Petro em 2018, uma criptomoeda de tipo transnacional não especulativa, cujo valor deriva do apoio nos recursos naturais. O objetivo da Petro é contornar o bloqueio financeiro, levantar fundos com a emissão e criar um ativo de reserva internacional para competir com a procura de dólares dentro da Venezuela [3].

Apesar das tentativas de outras moedas, como o euro, o Reinminbi ou as iniciativas promovidas pela Venezuela, o dólar ainda representa 62% da dívida global, 56% dos empréstimos internacionais, quase 44% das transacções no mercado cambial e quase 63% das reservas cambiais.

O denominador comum destas iniciativas apoiadas ou promovidas a partir da Venezuela é que partilham o objetivo primário de se libertarem da dependência financeira e o objetivo secundário de reduzir o poder de fogo de uma das armas estratégicas mais poderosas utilizadas indiscriminadamente pelos Estados Unidos: a hegemonia do dólar. A Venezuela não é caso único; ela compartilha esse objetivo com muitas nações. Quanto mais os EUA usam a ferramenta de boicote financeiro, mais incentivam os países com pretensões soberanas a tomar medidas para alcançar essa independência financeira.

É difícil prever se atingirão este objectivo partilhado pela Venezuela, porque hoje estamos numa fase de transição para um mundo multipolar e os Estados Unidos, com Donald Trump à cabeça, abandonaram a via diplomática, intensificando a batalha contra todos aqueles que ousam pôr em causa qualquer um destes dois pilares do poder. A guerra comercial contra a China, as sanções contra a Rússia, o bloqueio comercial, o boicote financeiro, a ingerência política e a ameaça de intervenção militar contra a Venezuela são as respostas dadas pelo poder de uns EUA em decadência, face a um mundo multipolar que ainda não terminou de nascer.

Os Estados Unidos estão conscientes do caráter estratégico da hegemonia do dólar e, como demonstram com suas ações contra a Venezuela e outros países que desafiaram o sistema monetário petrodólar -como Iraque e Líbia-, estão dispostos a fazer grandes sacrifícios de reputação diplomática para defender a sua posição na ordem mundial. O clima de injustiça política que hoje abunda na liderança dos EUA não deve surpreender ninguém, é um sinal de que o momento da verdade chegou, e que as mudanças na hegemonia global nunca foram pacíficas.

Exuberância dos recursos naturais venezuelanos

No entanto, é difícil provar que por trás da tentativa de golpe de Estado está o interesse material na abundância de recursos naturais da Venezuela. Como podemos provar que os EUA querem controlar os recursos naturais para obter uma vantagem competitiva internacional e/ou estimular a sua economia e/ou beneficiar as suas corporações? Talvez as declarações circunstanciais de algum funcionário desprevenido apoiem esta suspeita. As declarações do Conselheiro de Segurança dos EUA, John Bolton [4], apontam nesta direção que afirmou sem corar que “seria uma grande diferença económica para os Estados Unidos se conseguíssemos que as companhias petrolíferas americanas participassem no investimento e produção de petróleo da Venezuela” ou as próprias declarações de Trump sobre a invasão da Líbia, nas quais reconheceu que os Estados Unidos seriam uma grande diferença económica para os Estados Unidos se conseguíssemos que as companhias petrolíferas americanas participassem no investimento e produção de petróleo venezuelano” ou as próprias declarações de Trump sobre a invasão da Líbia, nas quais reconheceu que os Estados Unidos deveriam ter chantageado os opositores a Kadafi, oferecendo-lhes um lapidário: “Nós iremos ajudá-los, mas queremos 50% do seu petróleo” [5]. Mais uma vez, a ajuda humanitária dos EUA às primaveras árabes parece ter as mesmas motivações que a ajuda humanitária à Venezuela. Tendo em mente que este país tem duas vezes mais reservas do que a Líbia, é fácil esperar que a vocação golpista de Trump seja ainda mais intensa.

Embora não possamos demonstrar ou documentar de forma fiável as razões do golpe de Estado promovido pelos EUA, é útil ter uma aproximação de quais seriam as vantagens que os países participantes na tentativa de golpe de Estado teriam à sua disposição. Afinal, a teoria do crime mostra-nos que a melhor maneira de encontrar o agressor é procurar entre aqueles que beneficiariam do crime.

Neste sentido, destacam-se as reservas petrolíferas venezuelanas que representam 18% do total das reservas globais. De facto, as reservas mundiais chegam a 1.650 mil milhões de barris, dos quais a Venezuela tem 300,9 [6] mil milhões, o que a torna a nação com as maiores reservas de petróleo do mundo.

O consumo diário mundial de petróleo é de 98 milhões de barris por dia, e os Estados Unidos consomem 19,2% [7] desse total. Se considerarmos esse nível de consumo, as reservas petrolíferas venezuelanas chegam a 9,2 anos dos 50 anos que duraria a reserva mundial total [8]. Neste sentido, considerando o consumo dos Estados Unidos, que tem reservas de petróleo escassas, que os poços que utilizam o sistema de extração por ruptura hidráulica (fracking) estão a demonstrar ter vida útil e produtividade inferiores às esperadas e que os Estados Unidos importam 53% dos barris que consomem [9], pode-se entender como é importante para os Estados Unidos ter acesso a uma grande fonte de petróleo como é a Venezuela.

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À relevância deste recurso em si, deve ser acrescentada uma consideração muito importante, como é a proximidade entre os Estados Unidos e a Venezuela. A distância entre os dois países é determinante no preço final ao qual os Estados Unidos podem aceder ao petróleo. Não é o mesmo transportar petróleo da Venezuela, que está a 2.500 km dos Estados Unidos, do que da Arábia Saudita, que está a 12.500 km de distância. Além disso, os benefícios multiplicam-se se se tiver em conta que várias refinarias de petróleo venezuelanas estão em território estado-unidense.

Até aqui resulta claro que os Estados Unidos estão interessados no petróleo venezuelano, mas a questão é, se já têm acesso a ele pelas exportações, o que procuram com a intervenção na política venezuelana. E a resposta está ligada à forma como o governo venezuelano exerce em termos geopolíticos o poder que o petróleo lhe confere. Com isto queremos dizer a influência que o país caribenho tem sobre a determinação do preço do petróleo em organizações como a OPEP e sobre a possibilidade, embora ainda não muito importante nos factos, de desviar a produção de petróleo para outros países como a China (1º importador e 2º consumidor mundial) e conseguir maior independência das exportações para os Estados Unidos.

A Venezuela não é apenas rica em petróleo. É um país de vastas riquezas naturais. Sua reserva de gás natural chega a 5,7 milhões de milhões de metros cúbicos e posiciona o país como a 8ª nação com as maiores reservas de gás natural do mundo. Essa reserva, somada à dos Estados Unidos, significaria ter o controle de aproximadamente 7,4% das reservas mundiais de gás natural e alcançar um maior peso num mercado fortemente concentrado nas mãos da Rússia, Irão e Qatar, países afetados por ações de hostilidade económica dirigidas pelos Estados Unidos, que juntos respondem por 54% das reservas [11].

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No arco mineiro do Orenoco, em particular, estima-se que as reservas de ouro chegam a 8.900 toneladas [12], quantidade que colocaria a Venezuela como o segundo país com as maiores reservas deste mineral [13]. O acesso dos EUA a estas reservas iria permitir-lhe triplicar as suas reservas atuais.

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As reservas estimadas de ferro da Venezuela chegam a 14,6 mil milhões de toneladas [14], o que a torna o quinto país com mais reservas. O ferro pertence aos minerais em que os EUA têm um nível moderado de vulnerabilidade, porque importa até 49% do que consome [15]. Se este recurso venezuelano fosse controlado, os EUA quintuplicariam a sua disponibilidade de ferro e praticamente eliminariam esta dependência.

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A bauxita, matéria-prima do alumínio, faz parte de outra das riquezas da Venezuela. Apesar de ter 1% das reservas mundiais [16], a Venezuela tem 16 vezes mais bauxita que os Estados Unidos, que depende 100% da importação deste bem para suprir o seu consumo [17].

 

O caso do bloqueio económico sobre a Venezuela

O uso do boicote económico como estratégia para intimidar aqueles que desafiam as diretrizes hegemónicas tem sido uma ferramenta amplamente utilizada pelos Estados Unidos. Em muitas ocasiões, como prelúdio a intervenções militares que devastaram económica, política e socialmente os países que as sofreram.

Ao longo da história, foram documentados vários episódios de boicotes económicos na América Latina orquestrados ou apoiados pelos Estados Unidos, entre os quais se destacam o sofrido por Juan D. Perón na sua primeira presidência  [18], o de Cuba desde 1960, o de Salvador Allende em 1973 e o perpetrado contra João Goulart  [19] em 1964. Ao longo do século XXI, um total de 18 países sofreram sanções e bloqueios por parte dos Estados Unidos. Além de Cuba, que sofre as consequências do bloqueio há 60 anos, a lista inclui Irão, Iraque, Birmânia, Zimbabué, Bielorrússia, Síria, República Democrática do Congo, Sudão, Somália, Líbia, Costa do Marfim, Líbano, Ucrânia, Coreia do Norte, Iémen, Sudão do Sul, Rússia e Venezuela. Além disso, há casos como o do Qatar, sancionado por países árabes dentro da órbita de influência dos EUA.

Se no século XX a causa que justificava o bloqueio era abertamente a luta anticomunista, hoje ela veste-se com outras mensagens, como a luta contra o terrorismo, as violações dos direitos humanos ou as “crises humanitárias” definidas unilateralmente. O bloqueio, em termos gerais, procura restringir a capacidade de receita nacional (se for um embargo à principal fonte de recursos do país), fechar as fontes de financiamento externo e boicotar a capacidade de acesso aos mercados internacionais de bens e serviços.

No caso venezuelano, o bloqueio assentou na expulsão da Venezuela dos mercados financeiros internacionais, impedindo o país de recorrer ao mercado de crédito tanto para renovar vencimentos como para fazer novas colocações. Num país integrado no mundo como fornecedor de petróleo, a especialização produtiva levou a uma elevada dependência das importações financiadas pelas receitas do petróleo. É por isso que o boicote financeiro e comercial à Venezuela tem consequências muito mais graves do que em economias diversificadas. A especialização produtiva venezuelana, fruto da sua vocação de integração ao mundo, pregou-lhe uma partida, no sentido de deixá-la exposta às vontades do país hegemónico. De facto, há várias razões que justificam um protecionismo que procura diversificar a produção, incluindo a soberania produtiva. Com a globalização, por outro lado, a integração nos mercados globais e a especialização produtiva que ela gera nos países em desenvolvimento podem afetar seriamente as intenções soberanas dos países em desenvolvimento.

Na Venezuela, o embargo da empresa-mãe da PDVSA (Petróleos de Venezuela Sociedad Anónima) em solo norte-americano, a CITGO, procurou limitar a capacidade de obter financiamento e, portanto, de financiar importações. A queda abrupta das importações, que atingiram valores da ordem dos 60 mil milhões de dólares por ano entre 2011 e 2013, caiu para valores estimados em 12 mil milhões em 2017. Assim se configurou o cenário de “crise humanitária” que serve às pretensões intervencionistas norte-americanas.

Nos últimos anos, a economia venezuelana tem coexistido com vários bloqueios e sanções que dificultaram a evolução económica do país. A conjuntura internacional adversa, impulsionada pela queda do preço do petróleo, foi agravada pelo impacto pró-cíclico do boicote internacional.

Uma das armas de boicote veio das agências de notação. O indicador de risco-país da Venezuela subiu sem correspondência com o risco económico da economia real, independentemente da evolução dos preços do petróleo e da história e capacidade de pagamento do país. Neste momento, pode-se dizer que a evolução do indicador parece ter antecipado com certeza os efeitos que o boicote económico causaria, ou seja, o risco geopolítico associado a ter uma posição independente e não o risco económico relacionado com o livre jogo das condições económicas.

O segundo elemento do boicote decorreu das sanções dos EUA, o que implicou a impossibilidade de acesso a financiamento no mercado tradicional e a renegociação de dívidas, apesar de os pagamentos devidos terem sido pagos.

Com efeito, entre 2014 e 2017, a Venezuela perdeu US$ 68.653 milhões em pagamentos da dívida externa. No entanto, apesar do facto de o país não ter falhado nos seus pagamentos, foi classificado com as piores notações por agências de notação de risco como a Moody´s ou a Standard & Poors. O risco-país (a taxa que um país paga acima da taxa livre de risco) está acima de 2.000 pontos desde 2015, com picos de até 5.000 e até 6.000 recentemente. As razões apresentadas por essas agências de notação ao avaliar os países são opacas e tendem a pontuar bem os países que favorecem as políticas de livre mercado e punem o contrário. Foi assim que a dívida venezuelana, apesar de continuar a ser paga de forma constante, foi classificada como de alta probabilidade de incumprimento com uma classificação pior que a de países em guerra, como a Síria.

Esta situação foi agravada pelo bloqueio financeiro imposto pelos Estados Unidos em 24 de agosto de 2017, como resultado da Ordem Executiva 13808  [20]. Implicou:

  • Proibição para o governo venezuelano de adquirir novas dívidas com vencimento superior a 30 dias.
  • Proibição da PDVSA de adquirir nova dívida superior a 90 dias.
  • Proibição para o Governo da Venezuela de obter novas ações.
  • Proibição do pagamento de dividendos ou distribuição de lucros ao governo venezuelano por empresas que operam nos Estados Unidos, o que afeta especialmente a refinaria CITGO.

Entre fevereiro e maio de 2018 as sanções foram ampliadas com:

  • Proibição dos credores internacionais renegociarem a dívida emitida antes de agosto de 2017.
  • Proibição para qualquer cidadão ou instituição financeira dos EUA de fazer transações na criptomoeda Petro.
  • Proibição total de investimentos em ativos venezuelanos para cidadãos norte-americanos e em solo norte-americano.

Este isolamento e perda de divisas através do pagamento da dívida ocorreu em correspondência com a queda dos preços internacionais, o que resultou numa significativa escassez de divisas. Assim, a Venezuela adotou uma dinâmica muito diferente da da maioria dos países da região que, diante da queda dos preços internacionais, tiveram um processo acelerado de endividamento. Por exemplo, no período mencionado, países latino-americanos de tamanho semelhante, como Argentina, Chile, Colômbia e Peru, receberam receitas a título de dívida externa de 99.624, 23.010, 48.048 e 17.070 milhões de dólares, respetivamente (dados do FMI). Foram anos em que os rácios da dívida aumentaram acentuadamente para compensar a queda dos preços internacionais. Pelo contrário, a Venezuela perdeu moeda estrangeira por esta via devido ao isolamento financeiro, aprofundando o problema externo.

Neste período também ocorreram episódios menos conhecidos, mas que alteraram o funcionamento normal da economia venezuelana. A partir de 2015, iniciou-se um processo de sobreposição de bloqueios financeiros, que tornou mais difíceis e caras as compras no exterior e diversas operações realizadas pelo governo ou instituições venezuelanas.

As consequências mais notáveis deste bloqueio foram o atraso ou impossibilidade de trazer produtos vitais para o país e as despesas extras envolvidas na procura de alternativas financeiras para fazer pagamentos. Insumos vitais como medicamentos, alimentos ou recursos essenciais para o plano de semeadura têm sido objeto desses obstáculos.

Os atrasos ou obstáculos à entrada de produtos essenciais somam-se ao aumento do custo das operações. Os portos da Venezuela estão catalogados como Portos de Guerra, o que implica um pagamento de frete mais elevado e seguros para importação e exportação. Tudo isso num contexto em que o pagamento a fornecedores tende tornar-se cada vez mais complicado, devido às limitações impostas pelos bancos internacionais ao realizar transferências e à recusa de abrir contas do governo ou de instituições venezuelanas no exterior (bancos correspondentes). Uma vez que não podia normalmente pagar através de bancos correspondentes, o país teve de providenciar pagamentos alternativos, como por exemplo através de fundos de investimento, que envolviam comissões adicionais e multas por levantamentos antecipados. Noutros casos, os pagamentos podiam ser efectuados mas com atrasos significativos, pelo que os fundos tinham de ser mantidos sem remuneração, enquanto se realizavam diligências para ultrapassar os obstáculos. O sobrecusto financeiro também tem sido causado pela utilização de moedas alternativas ao dólar, uma vez que as transacções em dólares foram as mais obstruídas, o que implica custos adicionais de conversão.

Segue-se uma lista cronológica de obstáculos específicos enfrentados pela Venezuela:

  • Abril de 2016: Instituições financeiras começam a deixar de receber pagamentos em dólares de instituições venezuelanas
  • Maio de 2016: Commerzbank Bank (Alemanha) fecha contas bancárias venezuelanas e da PDVSA
  • Julho de 2016: o Citibank fecha contas correspondentes de instituições e bancos venezuelanos, incluindo o Banco Central da Venezuela. O fecho das contas correspondentes reduz a capacidade de efetuar pagamentos em dólares, impondo custos adicionais para realizar transações em outras moedas.
  • Agosto 2016: o Banco Novo de Portugal proíbe transações com bancos e instituições venezuelanas.
  • Julho de 2017: a empresa Delaware, agente de pagamento da PDVSA, recusa-se a receber fundos da companhia petrolífera venezuelana.
  • Julho 2017: o Citibank recusa-se a receber fundos venezuelanos para importar 300.000 doses de insulina.
  • Maio de 2017: empresas de origem russa, empreiteiras encarregadas de elaborar a cadeia de blocos Petro utilizando o código NEM, desistem de continuar com o contrato argumentando razões de força maior após terem sido pressionadas pela Security Exchange Commission dos Estados Unidos.
  • Agosto 2017: Os bancos chineses informam que não podem realizar operações em moeda estrangeira em favor da Venezuela devido à pressão do Departamento do Tesouro dos EUA, e a Rússia relata a impossibilidade de realizar transações com bancos venezuelanos devido à restrição dos bancos correspondentes dos EUA.
  • Agosto de 2017: o banco correspondente do banco chinês BDC Shandong paralisa durante três semanas uma transação de 200 milhões de dólares sacados pela China.
  • Agosto de 2017: devido à pressão da OFAC, a empresa Euroclear retém 1.200 milhões de dólares sem possibilidade de mobilização.
  • Outubro 2017: o Deutsche Bank fecha as contas correspondentes do Citic Bank chinês para processar pagamentos da PDVSA, o que demonstra a pressão sobre a banca internacional.
  • Outubro 2017: A entrada de vacinas no país é adiada por quatro meses porque o bloqueio dos EUA torna impossível fazer pagamentos ao banco suíço UBS.
  • Novembro 2017: a Venezuela faz pagamento para comprar primaquina e cloroquina (para tratamento antimalárico), solicitado ao laboratório médico da BSN na Colômbia. O governo colombiano bloqueia a entrega de medicamentos.
  • Novembro 2017: o Deutsche Bank, principal correspondente do BCV, encerra definitivamente as contas correspondentes desta instituição.
  • Dezembro de 2017: foram devolvidos 29,7 milhões de dólares de bancos na Europa para pagamento a fornecedores de alimentos através do programa alimentar CLAP. Também nesse mês, as autoridades colombianas impediram a transferência para a Venezuela de mais de 1.700 toneladas de perna de porco.
  • Maio de 2018: o pagamento de 9 milhões de dólares para a compra de material de diálise foi bloqueado.
  • Novembro 2018: A partir deste mês, o Banco da Inglaterra reteve 1,2 bilhão de dólares que o governo venezuelano havia depositado nessa entidade.

(continua)

Notas

[1] Lam, R. y L. Wantchenkon (2002). Political Dutch Disease. NYU.  www.nyu.edu/gsas/dept/politics/faculty/wantchekon/…/dutch.pdf

[2] O desafio do SUCRE à hegemonia do dólar não resultou ser significativo. Em parte, isso deve-se a que o comércio intrazona, que explicaria a procura de sucres, é demasiado pequeno para justificar a sua existência e, em parte, a que os compromissos financeiros e comerciais com o resto do mundo justificam a preferência pelo dólar.

[3] O Petro representa um sério desafio à hegemonia do dólar, que está em pleno desenvolvimento, ainda que, sem dúvida, a um ritmo de avanço muito menor ao que teria se não houvesse o boicote internacional. A ativa campanha contra o Petro permite-nos especular favoravelmente acerca dos seus atributos como ferramenta para romper o boicote financeiro.

[4] https://www.eldiario.es/internacional/Venezuela-Bolton-petroleo-EEUU_0_862314795.html

[5] https://www.youtube.com/watch?v=Fj0ELtWsVEg

[6] https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2244rank.html

[7] https://www.bp.com/content/dam/bp/business-sites/en/global/corporate/pdfs/energy-economics/statistical-review/bp-stats-review-2018-oil.pdf

[8]  https://www.businessinsider.es/10-paises-mayores-reservas-petroleo-mundo-249164

[9]https://www.bp.com/content/dam/bp/business-sites/en/global/corporate/pdfs/energy-economics/statistical-review/bp-stats-review-2018-oil.pdf

[10] https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2244rank.html

[11] Dados de reservas de gas natural https://www.indexmundi.com/map/?v=98&l=es

[12] http://www.correodelorinoco.gob.ve/ministro-victor-cano-venezuela-podria-ser-el-segundo-pais-con-mayores-reservas-de-oro/

[13] U.S Department of the Interior U. S. Geological Survey. Mineral Commodity Summaries 2017.

[14] https://www.researchgate.net/figure/Figura-16-Reservas-de-Mineral-de-Hierro-de-Venezuela_fig15_320863885

[15]  Monica Bruckmann. Recursos naturales y la geopolítica de la integración Sudamericana, 2011.

[16]https://www.researchgate.net/publication/275716630_Explotaciones_mineras_en_el_mundo_de_bauxita

[17] Monica Bruckmann. Recursos naturales y la geopolítica de la integración Sudamericana, 2011.

[18] Escudé, Carlos (1983). Gran Bretaña, EE. UU. y la declinación argentina. Editorial de Belgrano.

[19] Rapoport, Mario y Rubén Laufer (2000). Estados Unidos ante el Brasil y la Argentina: los golpes militares de la década de 1960. Editorial Economizarte.

[20] Desde março de 2015 Obama declarou a Venezuela como “uma ameaça inusual e extraordinária para a segurança nacional e a política exterior dos Estados Unidos” através da Ordem Executiva 13692.

Texto disponível em https://www.celag.org/las-consecuencias-economicas-del-boicot-venezuela/

 

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