Espuma dos dias — A viragem europeia em direção à Ásia. Por Juan Antonio Sacaluga

Seleção e tradução de Francisco Tavares

6 min de leitura

A viragem europeia em direção à Ásia

 Por Juan Antonio Sacaluga

Publicado por  em 28 de Janeiro de 2026 (original aqui)

 

António Costa, Narendra Modi y Ursula von der Leyen. (Foto: Comisión Europea).

 

A Europa impulsiona um giro estratégico para a Ásia, seguindo o “pivot to Asia” iniciado por Obama nos EUA.

 

A Europa está empenhada no seu particular pivot to Asia (giro para a Ásia), termo usado por Obama no início de seu mandato para indicar uma mudança estratégica de preferências na política externa e económica dos Estados Unidos. Para o primeiro presidente afro-americano, a Europa ainda era um aliado valioso e essencial para a manutenção da ordem liberal internacional, mas logo deixaria de ser a joia da coroa do sistema de alianças criado durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Em apenas três lustros esse giro para a Ásia ficou parcialmente parado, mas não devido a um retorno à aposta preferencial europeia dos Estados Unidos, senão pela confusa visão de Trump que alguns assimilam ao arcaico sistema de competição entre as grandes potências (great-power competition).

A Europa tem medo dos Estados Unidos. Ou essa é pelo menos a percepção nos meios de comunicação políticos, diplomáticos e estratégicos. Enquanto se aguarda um restabelecimento da normalidade na era pós-Trump, a liderança europeia parece determinada a tomar decisões de longo prazo que preservem os interesses gerais da Europa. Ou das elites que administram o futuro da Europa.

É mais fácil proclamá-lo para tranquilizar os ânimos do que torná-lo efetivo, devido ao alto grau de dependência da Europa em relação aos Estados Unidos em setores-chave do poder internacional: militar, comercial, energético, tecnológico, etc.

 

A dependência europeia dos EUA

Por ocasião da crise artificial da Gronelândia, ainda longe de estar resolvida, o jornal francês LE MONDE publicou um longo e documentado relatório sobre as chaves da debilidade Europeia num hipotético recrudescimento de conflito com os Estados Unidos [1]. Os números são mais do que inquietantes. Condensamos as mais significativas:

  • a taxa de dependência armamentista supera os 50% e aproxima-se dos 66% se excluirmos a França, o país europeu com o sistema de armamento próprio mais potente.
  • as importações de armamento na Europa aumentaram 155% no período 2020-2024, em relação aos cinco anos anteriores; mais da metade desse montante (53%) vieram dos Estados Unidos, em grande parte devido à guerra da Ucrânia.
  • o acesso ao espaço e a vigilância espacial europeia dependem em 90% dos dados fornecidos pelo comando militar espacial dos Estados Unidos; a dependência da empresa, Starlink, é completa, como se comprovou na guerra da Ucrânia.
  • 11 dos 21 cabos submarinos que conectam ambos os lados do Atlântico pertencem a atores norte-americanos.
  • as empresas de serviços digitais dos EUA absorvem 83% dos 265 mil milhões de dólares anuais, gastos em software e na nuvem de uso profissional na Europa.
  • em matéria de energia, o gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos substituiu o gás russo no aprovisionamento europeu; já representa 60% das importações europeias e, se não houver alterações dramáticas, alcançará 80% em apenas três ou quatro anos (outro fator esperado da guerra económica contra a Rússia).
  • o sistema de pagamentos internacionais, por cartões e on-line, também deixa a Europa à mercê dos Estados Unidos: VISA e Mastercard garantem mais de 60% das compras com dinheiro de plástico dos europeus e Pay Pal, Google Pay, Amazon Pay e AliPay dominam as transações on-line.

Este arsenal de dados oferece um panorama desanimador, caso o atual clima de acrimónia nas relações transatlânticas piore ainda mais; e ainda que a situação não se agrave tanto, a capacidade de pressão/extorsão de uma administração imprevisível não é desprezável.

Por isso, a Europa pretende aprofundar vias alternativas para o leste longínquo, zona do mundo com maior dinamismo económico. No final desse movimento oriental está a China, a superpotência emergente, o desafio mais importante para a ordem liberal ocidental, antes de Trump a ter posto de pernas para o ar.

O Canadá incorporou-se nesta viragem, o país da NATO mais exposto pela mudança de ventos no seu vizinho do Sul. O discurso do seu primeiro-ministro, Mark Carney, no fórum de Davos talvez seja um dia comparado, mutatis mutandis, com o famoso discurso de Churchill na Universidade do Missouri, em 1946, quando pronunciou aquele famoso vaticínio da cortina de ferro.

Carney disse o que muitos dos seus colegas ocidentais levam na ponta da língua e só deixam escapar a conta-gotas: a ordem que organizou o mundo e a hegemonia ocidental nas últimas oito décadas terminou. É hora de construir um novo sistema multipolar que não gravite em torno da órbita hegemónica dos Estados Unidos [2]. Carney chegava a essa tribuna sagrada do pensamento liberal procedente da China onde havia assinado uma série de acordos comerciais e de investimento, ainda muito modestos em números, mas ambiciosos em propósitos.

Outros dirigentes europeus fizeram o velho caminho de Marco Polo, com espírito semelhante e objetivos ainda mais amplos. A cooperação ocidental na contenção do crescente poderio chinês saltou pelos ares e impõe-se uma dinâmica europeia, à qual está associada o Canadá, mas sem amarras políticas ou institucionais.

Com as suas visitas a Pequim, Macron, Merz e Starmer, as primeiras espadas do novo diretório informal europeu (o E3), começaram o ano a tentar recompor as relações com o gigante asiático sobre bases puramente pragmáticas. Não se pretendem mudanças geoestratégicas dramáticas, mas sim assegurar uma pacífica e até frutífera rivalidade.

A cartada indiana

Nesta viragem para a Ásia, a Europa já cimentou acordos comerciais com a Indonésia, Japão, Malásia ou Filipinas. Mas o posto mais significativo é a Índia, uma potência que muito em breve destronará a japonesa como quarta economia mundial (depois dos EUA, China e Alemanha) e aspira a converter-se em actor essencial de um novo equilíbrio internacional.

A visita realizada esta semana por dirigentes comunitários europeus (Ursula Von der Leyen e António Costa) consagrou um acordo de redução quase total das tarifas comerciais que economizará 4 mil milhões de dólares anuais e outros compromissos de cooperação económica que estavam há vinte anos na cozinha das negociações técnicas. No sector automóvel, as tarifas baixarão de 110% para 10% para uma quota de 250.000 veículos [3].

A dimensão em termos quantitativos deste novo eixo é menor. Atualmente, a Índia é apenas o nono parceiro comercial da UE, com apenas 2,4% do total das trocas comunitárias, contra 17,3% com os EUA e 14,6% com a China. Com um valor total de 50 mil milhões de dólares, as exportações europeias para a Índia são equivalentes às dirigidas aos países latino-americanos do Mercosul, com os quais acaba de fechar também um trabalhoso e polémico acordo de livre câmbio relativo.

Para a Índia, o alcance e as dimensões desta iniciativa estratégica são muito mais importantes. Em 2024, o valor das suas exportações de bens e serviços para a UE (105 mil milhões de dólares) foi semelhante ao das vendas para os Estados Unidos (129 mil milhões). Em todo o caso, não estamos perante uma liberalização sem limitações. Há muitos setores que continuarão sujeitos a certas limitações normativas protecionistas.

Embora a expressão de Von der Leyen (“esta é a mãe de todos os acordos”) soe um pouco hiperbólica, ao gosto de Trump, o seu alcance não pode ser minimizado. O comércio Índia-UE representa um terço das trocas mundiais, as economias de ambas as partes reúnem 25% do PIB mundial e as suas populações somam 2 mil milhões de pessoas [4].

Mais além do campo estritamente comercial e económico, a Índia e a UE “tentam preservar a sua autonomia estratégica como atores secundários nas suas respectivas esferas, Índia vs. China no Indo-Pacífico e Europa vs EUA no Atlântico”, diz O especialista da Chatham House britânica [5].

Nova Deli contempla esta nova iniciativa externa como uma ampliação da sua estratégia de diversificação na qual há muito se empenhou. Durante décadas, a URSS e depois a Rússia foram os principais clientes da Índia. Abastecia-se de petróleo, gás e armamento russos e vendia produtos manufaturados, tecnologia digital e serviços de escritório.

Os Estados Unidos aproveitaram a mudança política arrastada pela liberalização dos primeiros anos noventa para meter uma cunha entre Delhi e Moscovo e oferecer à nova geração de dirigentes ultranacionalistas indianos deste século a atrativa cooperação em matéria nuclear e de segurança. Trump alterou os termos da reaproximação, com a sua política mercantilista de tarifas intimidadoras. Impôs à Índia um adicional de 25% por esta continuar a comprar petróleo russo. Mas os imperativos estratégicos e a afinidade ideológica com o nacionalismo autoritário de Modi mantêm abertos os canais de diálogo e colaboração [6].

A Índia moveu-se entre a Rússia e os Estados Unidos como pivôs de apoio contra Pequim. Mas a modificação dos tempos e a aproximação russo-chinesa diante da assertividade dos Estados Unidos estimularam esta abertura da Índia [para a EU] fora da região Indo-Pacífico.

Isso não quer dizer que o nacionalismo indiano pretenda romper com Moscovo. Pelo contrário, como se viu nos últimos anos, o nacionalismo autoritário em ambas as potências permitiu manter os âmbitos de cooperação, como se viu na evasão da Índia às sanções norte-americanas a Moscovo pela guerra da Ucrânia. As diferenças políticas e de valores e as censuras pelas tradicionais conexões indianas com a Rússia (energéticas e militares) ficam ofuscadas pela necessidade europeia desta viragem para a Ásia.

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Notas

[1] “De la défense aux systèmes de paiement, les multiples dépendances de l’Europe à l’égard des Etats-Unis”. LE MONDE, 24 de enero.

[2] “Canada Flexes on Global Stage With an Eye to Its Own Survival”. MARTINA STEVIS-GRIDNEFF & IAN AUSTEN. THE NEW YORK TIMES, 20 de enero.

[3] https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/qanda_26_185

[4] “India, EU clinch long-delayed trade deal”. FOREIGN POLICY, 27 de enero.

[5] “Europe is aiming to sign a long-awaited free-trade deal with India”. THE ECONOMIST, 25 de enero.

[6] “America Must Salvage Its Relationship With India. Or risk losing a global swing state”. RICHARD FONTAINE. FOREIGN AFFAIRS, 16 de enero.

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O autor: Juan Antonio Sacaluga, jornalista. Durante 30 anos trabalhou na RTVE, onde desempenhou, entre outras, as seguintes responsabilidades: Coordenador dos corresponsáveis em RNE, Chefe de Internacional dos Telediarios (1988-1995), Diretor do Telediario Internacional (1995-1999) e Diretor de ‘En Portada’ (2004-2008). Em dezembro de 2008 foi-lhe aplicado o Expediente de Regulación de Empleo de RTVE e encontra-se em situação de pre-reforma. No âmbito universitário, foi professor da cadeira de Televisão no Mestrado Relações Internacionais e Comunicação, da Universidade Complutense de Madrid, entre 2000 e 2010. Atualmente publica as suas análises na Fundación Sistema e em Nueva Tribuna.

 

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