Espuma dos dias — Em primeiro lugar missa e comungar, e logo depois mentir, atacar os imigrantes e odiar o adversário. Por Juan Torres López

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

Em primeiro lugar missa e comungar, e logo depois mentir, atacar os imigrantes e odiar o adversário

 Por Juan Torres López

Publicado por  em 1 de Fevereiro de 2026 (original aqui)

 

O bispo de Orihuela-Alicante, José Ignacio Munilla

 

Os principais líderes da direita espanhola, Alberto Nunez Feijóo, Santiago Abascal e a madrilena Isabel Díaz Ayuso, fazem constantes manifestações públicas de catolicismo. Nas últimas festas de dezembro inclusive gastaram abundante munição mediática para criticar os seus adversários que as felicitavam em geral e não como Natal.

Feijóo acaba de dizer há poucos dias que os ideais de seu partido são “a liberdade, a paz, a democracia, a sustentabilidade, a defesa do Estado de Direito e a tradição e a cultura cristã”. Embora Abascal afirme que o seu partido não é confessional e que nele cabem pessoas de diferentes crenças, em várias ocasiões ele declarou-se expressamente católico. E o mesmo acontece, e ainda em maior grau, com Díaz Ayuso.No seu último discurso de Natal, ela disse que “o nascimento de Jesus é uma mensagem de amor e verdade” e que “ser católico é a antítese de ser racista ou insolidário”.

A direita espanhola foi sempre de sacristia e sempre se gabou de alma limpa e consciência recém-engomada. Os seus líderes benzem-se em público, comungam e fazem contínua ostentação de fé. Mas saem das igrejas e logo em seguida se põem a mentir com uma tranquilidade espantosa.

Não estou a exagerar. Estes últimos dias estão fazê-lo sem piedade, vergonha nem limite não para combater a regularização de imigrantes em si, mas sim o governo – segundo eles inimigo da Espanha – que aprovou a medida (defendida entre outras instituições pela Conferência Episcopal e as patronais de setores onde se emprega maior número de trabalhadores estrangeiros).

Os dirigentes da direita denunciam que a regularização do governo de Pedro Sánchez modificará o censo eleitoral.

Deixando de lado que eles dão por certo que os imigrantes regularizados votariam em massa à esquerda – o que certamente estaria por ver -, trata-se de uma afirmação mentirosa porque em Espanha (como em todos os países) só votam os nacionais, e uma coisa é regularizar e outra obter a nacionalidade espanhola.

Não se pode pensar nem por um momento que Feijóo, Ayuso e Abascal e a sua infinidade de assessores não saibam a diferença entre os dois processos, de modo que é inevitável assegurar que estão a mentir conscientemente.

Os dirigentes da direita espanhola presumem de fé, de tradição e de valores cristãos, mas quando descem do altar fazem política ou inclusive governam como se o evangelho fosse um folheto publicitário que distribuem para captar votos.

E eles não mentem apenas, mas mantêm completamente alterados os valores e princípios éticos que cabe serem associados com o catolicismo. Supõe-se que ser cristão é seguir Jesus de Nazaré que, segundo o Evangelho de Mateus, disse: “Afastai-vos de mim, malditos, ao fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos (.) era forasteiro, e não me acolhestes”.

Feijóo, Abascal e Ayuso mentem e criminalizam sem misericórdia as pessoas que trabalham ao nosso redor, empregadas onde nós não queremos trabalhar, ou que vêm suprir a nossa falta de mão de obra. E fazem-no, além de mentindo, com desumano desprezo, como também sucedeu com José Luis Martínez-Almeida, presidetne da Câmara Municipal de Madrid, que também confessou em diversas ocasiões o seu fervoroso catolicismo. Em novembro de 2024, ele disse: “fui abençoado pelo dom da fé”, mas a sua prefeitura proibiu uma ONG de distribuir lanches para pessoas sem-teto. Ao contrário, como nos casos anteriores, do ensinamento de Jesus:”tive fome, e não me deste de comer”.

A fé católica dos dirigentes da direita espanhola é de tirar e pôr. Leva-a a fumaça quando se trata de ajudar o fraco ou de repartir a riqueza: “o mais grave da lei é a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (digo eu, que esta última também aplicada à verdade).

A regularização de imigrantes não dá documentos automáticos, não concede nacionalidade, não outorga direito a voto, não converte ninguém em delinquente nem supõe invasão alguma. É simplesmente uma tentativa – modesta e até tardia – de tirar da clandestinidade pessoas que já vivem e trabalham no nosso país, que dessa forma ajudam a sustentar e a tornar maior e próspero. Mas mentir sai mais barato do que pensar, o medo mobiliza mais que a verdade e a estes dirigentes que presumem de católicos vale tudo para acabar com os seus adversários.

Ora, se a fé dos Abascal, Feijóo e Ayuso não parece muito coerente por tudo isto que aponto, o príncipe dos sepulcros branqueados (“escribas e fariseus, hipócritas!: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão”) é, sem lugar a dúvidas, o bispo de Orihuela-Alicante, José Ignacio Munilla.

Este vai muito mais longe. Não só não se pronuncia com as palavras de Jesus que mencionei, nem fala como quem crê nesse Deus justo e misericordioso, mas crendo que ele mesmo é Deus omnisciente e que, portanto, dispõe da capacidade que nenhum ser humano tem: a de saber as intenções reais de qualquer outro e, neste caso, as de Pedro Sánchez e seu governo quando propõem a regularização.

Segundo este bispo, não a aprovaram pelas razões que [os governantes] assinalaram: dar um justo estatuto legal, segurança jurídica, direitos e uma via ordenada de integração a milhares de pessoas que já estão entre nós, a imensa maioria delas convivendo aqui em paz e gerando riqueza; para favorecer a coesão social e a dignidade humana, permitindo que exerçam as suas atividades legalmente e recebam as contraprestações que legalmente lhes corresponda; para desenvolver uma política migratória baseada em Direitos humanos, integração e convivência, não só compatível, mas que impulsiona o crescimento económico; e para atender a reivindicação cidadã plasmada numa Iniciativa Legislativa Popular subscrita por centenas de milhares de assinaturas.

Não. O Bispo assegura que esta medida foi tomada como “estratégia para conseguir outros fins”, para tornar “evidente o desprezo dos nossos governantes para com os pensionistas e para com os imigrantes, a quem utilizam como moeda de troca”.

Jesus disse no seu Sermão da montanha: “Guardai-vos bem dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos os conhecereis”.

Por muita Missa a que vão e organizem, por muitas vezes que comunguem e por muito abundantes que sejam as suas declarações de fé, os dirigentes da direita espanhola não podem dissimular quais são os seus atos reais. Pelos seus frutos se pode conhecê-los perfeitamente e por isso se pode dizer exatamente o mesmo que disse Jesus aos fariseus: “fazeis-vos passar por justos diante do povo, mas o vosso interior está cheio de hipocrisia e maldade”.

Muita missa, muita comunhão e muito símbolo e atos religiosos… mas pouca justiça, pouca misericórdia e muita mentira.

 

(PD. Depois de ter publicado este artigo, uma amiga enviou-me um vídeo de alguns anos atrás, no qual Isabel Díaz Ayuso é vista a declarar que não é crente. Mais engano ainda).

 

____________

O autor: Juan Torres López, [1954 – ] é um economista espanhol. É membro do Conselho Científico da Attac Espanha e Professor Catedrático (aposentado) de Economia Aplicada na Universidade de Sevilha. Mantém a página web Ganas de Escribir, sendo colaborador habitual de Público. É, juntamente com Vicenç Navarro, o autor do documento-quadro do programa económico de Podemos. Autor de numerosas obras, entre as quais As grandes 10 mentiras económicas do nosso tempo e como elas condicionam a nossa vida e “Para que haya un futuro” (Deusto).

 

Leave a Reply