Espuma dos dias — Inventando a ameaça de Cuba . Por Natasha Hickman

Seleção e tradução de Francisco Tavares

3 min de leitura

Inventando a ameaça de Cuba

Por Natasha Hickman

Publicado por  em 6 de Fevereiro de 2026 (original aqui)

 

As últimas sanções dos EUA levarão Cuba à beira do colapso. (Win McNamee / Getty Images)

 

Declarando Cuba uma ameaça à segurança nacional, os EUA intensificaram as suas incapacitantes sanções económicas — uma inversão absurda da realidade destinada a justificar a mudança de regime.

 

Em 29 de Janeiro, Donald Trump assinou uma ordem executiva declarando Cuba uma ‘ameaça incomum e extraordinária’ à segurança nacional dos EUA e autorizando novas sanções contra qualquer país que venda ou forneça petróleo à ilha. O movimento ameaça mergulhar Cuba numa profunda crise humanitária e marca uma grave escalada de quase sete décadas de guerra económica dos EUA contra a ilha.

Os cubanos já estão a enfrentar uma profunda crise energética como resultado direto do bloqueio dos EUA e das sanções anteriores da era Trump, incluindo as 243 medidas adicionais introduzidas durante o seu primeiro governo e deixadas praticamente intactas por Biden. Esta última escalada, destinada a cortar totalmente o abastecimento de combustível, será catastrófica. Irá paralisar o sistema eléctrico e devastar todos os aspectos da vida quotidiana.

Sejamos claros sobre o que isto significa: hospitais sem energia; incubadoras e máquinas de suporte de vida incapazes de funcionar; cirurgias de emergência realizadas sem luz. Escolas e locais de trabalho forçados a fechar. Padarias incapazes de funcionar. Falta de combustível impedindo o transporte de alimentos e de material médico. Alimentos estragados em frigoríficos e congeladores. A fome, a doença e o sofrimento vão alastrar-se. Trata-se de um ataque deliberado a uma população civil, destinado a infligir dor, privação e desespero. É cruel, calculado — e vai custar vidas.

A ordem executiva, cinicamente intitulada ‘Fazer face às ameaças aos Estados Unidos pelo governo de Cuba‘, é uma coleção repugnante de mentiras e hipocrisia. Esta ordem executiva traz as impressões digitais da turba pró-bloqueio de políticos extremistas cubano-americanos — nomeadamente Marco Rubio, Carlos Giménez e María Elvira Salazar — que há muito procuram submeter o povo cubano pela fome.

Trump, Rubio e os seus aliados estão a tentar concluir o trabalho delineado no infame Memorando de Mallory de 1960: o plano para sete décadas de guerra económica dos EUA contra Cuba. Como o então Secretário de Estado Adjunto dos EUA para os assuntos Interamericanos, Lester Mallory, deixou claro, o objectivo era negar a Cuba ‘dinheiro e fornecimentos’, ‘diminuir os salários monetários e reais’ e provocar ‘fome, desespero e derrube do governo’. Sessenta e seis anos depois, esta mesma política de punição colectiva está a ser intensificada à vista de todos. O objetivo final continua a ser a instalação de um governo fantoche dos EUA em Havana – uma perspectiva que Rubio admitiu que ‘adoraria ver’ em declarações à Comissão de Relações Exteriores do Senado em 28 de Janeiro.

Ao declarar uma dita emergência nacional, os EUA acusam falsamente Cuba de apoiar ‘países hostis, grupos terroristas transnacionais e agentes malignos’, alegando que Cuba ameaça a ‘segurança, segurança nacional e política externa’ dos EUA. Designar isso como uma ‘emergência nacional’ também dá a Trump liberdade para agir com supervisão mínima ou consulta com outros corpos legislativos dos EUA.

Trata-se de uma grotesca inversão da realidade. Cuba nunca ameaçou os Estados Unidos. Pelo contrário, é Cuba que vive sob ameaça há décadas. No ano do centenário do seu nascimento, as palavras de Fidel Castro soam mais verdadeiras do que nunca ao expor o cinismo por detrás das acusações dos EUA. Falando aos estudantes da Universidade de Buenos Aires em 2003, ele disse: ‘o nosso país não lança bombas sobre outros povos, nem envia milhares de aviões para bombardear cidades. O nosso país não possui armas nucleares, químicas ou biológicas. As nossas dezenas de milhares de cientistas e médicos foram educados na ideia de salvar vidas.’

Enquanto os EUA exportam bombas, tropas e guerras por todo o mundo, Cuba envia médicos. Desde a realização de quatro milhões de operações de salvamento da visão através da Operação Milagre, até ao trabalho de salvação da Brigada Médica Internacional Henry Reeve; desde a formação de milhares de médicos do Sul Global na Escola Latino-Americana de Medicina, até à realização de conversações de paz na Colômbia, Cuba é internacionalmente reconhecida como uma força de paz e de solidariedade humanitária. Se Cuba ameaça o poder dos EUA, é apenas pelo exemplo.

A ordem executiva de Trump também representa um ataque direto à soberania de todas as nações. Ao ameaçar sanções e tarifas contra países que comercializam com Cuba, os EUA estão a usar coerção, chantagem e intimidação económica para forçar outros estados a cumprir. Esta aplicação extraterritorial do bloqueio — há muito incorporado em legislação como a lei Helms-Burton — é uma violação flagrante do Direito Internacional.

É uma guerra económica. Trata-se de um castigo colectivo, com consequências humanitárias devastadoras.

O governo britânico e a comunidade internacional devem condenar pública e inequivocamente esta medida; pedir que a ordem executiva seja revogada; reafirmar a sua oposição ao bloqueio dos EUA e à sua aplicação extraterritorial; e defender o direito do povo cubano a desenvolver-se em paz.

As nações devem desafiar os ditames de Washington e fornecer a Cuba uma tábua de salvação. Estas sanções ameaçam não só o povo cubano, mas também os programas médicos e humanitários internacionais de Cuba — colocando em risco milhões de vidas em todo o mundo. O objectivo é claro: extinguir um exemplo vivo de solidariedade na acção e silenciar a ideia de que um outro mundo é possível.

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A autora: Natasha Hickman é a gestora de comunicações na campanha de Solidariedade de Cuba. É licenciada em Política e História Moderna pela Universidade de Manchester.

 

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