Hoje faço anos
Coimbra, em 20 de Fevereiro de 2026
Meus caros Amigos e Amigas
Hoje faço anos, e numa conta bem somada significa 11, numa conta bem multiplicada significa 24, em que o número mais elevado dos que satisfazem estas duas relações significa a casa das dezenas, mas começo a não saber somar nem multiplicar, estou como muitos alunos americanos das suas universidades de elite- os alunos de agora atrapalham-se com os cálculos, os nossos para lá caminham, e eu também.
Faço anos, nada há de especial, mas… costumo editar um texto nesse dia a dizer que fiz anos. Uma forma de reafirmar o meu inconformismo. Estava preparado para pegar de novo no tema A FEUC e o caos do ensino superior, tomando como reverência a troca de pontos de vista havida entre mim e os professores José Manuel Mendes, José Reis e Luís Cruz, assim como textos diretamente dirigidos ao ministro da Educação, Fernando Alexandre, meu antigo aluno e de quem fui amigo. Devo fazê-lo, isso é para mim um imperativo, dado o vandalismo que percorre o ensino superior e de que a FEUC é um extraordinário exemplo, tanto do ponto de vista do que se ensina, como da forma como se ensina, da forma como se exige o que não se ensina, o que se pode exemplificar com disciplinas como Projeto Integrador, e ainda, tão importante quanto tudo isso, é a destruição de um ambiente de trabalho coletivo, de um ambiente de democracia real, de um ambiente de respeito pelo trabalho de cada um e que é substituído por um ambiente de medo. Mas há as contas de fim do mês, como nos assinala um professor americano bem atento à crise do ensino superior, Paul Musgrave, há também, e por isso mesmo, a síndrome de Estocolmo e para agravar tudo isto, também existe agora um fenómeno novo: uma vaga de misoginia, o que é simplesmente inacreditável. A escrever sobre esta realidade nunca poderia sair uma peça de agradável leitura, mas por duas razões que abaixo discrimino não a irei escrever por agora, mas sim mais tarde.
- Um amigo meu, pessoa bem experiente nas questões do ensino que vai do pré-primário ao final do secundário, diz-me que está de acordo com muita coisa do que digo sobre a Educação, mas acha que é um erro incidir sempre sobre a FEUC, porque se fica com a sensação que se trata de um ajuste de contas. Disse-lhe que pensar sobre factos que são do domínio público nunca pode ser visto como um ajuste de contas, tanto mais que não tenho contas a ajustar com ninguém. Tão importante quanto isso é que nunca me refiro exclusivamente à FEUC e mais, reafirmo sempre que as minhas críticas são extensivas, salvo especificidades que são detalhes, a todas as Faculdades do país. Aceitou a crítica e eu fiquei a pensar na crítica feita, apesar de a achar errada.
Entretanto, quanto à crítica do meu amigo, segundo a qual eu me devia distanciar da FEUC para que o texto não possa ser visto como um ajuste de contas, encontrei uma possibilidade de outro tipo de resposta ao meu amigo, digamos que uma saída curiosa. Ao ler um artigo de Brad DeLong, vi uma referência a um texto de Paul Musgrave sobre Ensino Superior e IA. Fui pesquisar. Entrei no blog dele e eis que Musgrave ao longo de vários meses escreveu uma crítica extensiva ao que se passa no ensino superior de hoje. Dos seus trabalhos escolhi 15 textos e uns outros tantos de diversos autores centrados no período estudantil que vai da primária ao final do ensino secundário.
Parafraseando Paul Musgrave, diremos que as crianças de ontem são os pais dos universitários de hoje, e isto levou-me a alargar o espectro de análise da série sobre o ensino em geral, recuando no tempo e ao tempo dos pais dos universitários de hoje, quando estes últimos eram ainda os adolescentes a estabelecerem a sua formação de base para virem a ser adultos de corpo inteiro pela via do ensino obrigatório e do secundário. A partir deste dado, iremos então publicar textos sobre a crise da educação em geral, desde o ensino primário passando pelo secundário, onde se cria a matriz intelectual dos estudantes universitários futuros e onde se situa a origem de muitos dos problemas que se agravam depois nas Universidades de agora e, por fim, concluiremos com uma extensa análise sobre o ensino superior.
Para se ter uma ideia da razão de ser do nosso alargamento do campo de análise na crise do ensino, lembro que os sinais de alarme nos vêm das universidades de elite americanas, e estas estão cotadas como das melhores no mundo, sinais estes emitidos bem antes da política de terra queimada levada agora a cabo por Trump. Os professores queixam-se de que os seus estudantes, que já vem das melhores escolas do país termos de ensino secundário, têm dificuldade em conseguir ler livros do princípio ao fim, têm dificuldade em ver filmes longos, ao ponto de podermos inferir que Lawrence da Arábia seria hoje um enorme fiasco, têm dificuldade em suportam grandes planos em cinema, tudo isto por uma situação relativamente nova, a de que os jovens estão a perder dramaticamente a sua capacidade de concentração. A agravar tudo isto, e estamos a falar de estudantes entrados nas faculdades de prestígio americanas, muitos deles não sabem sequer o cálculo que é suposto vir na bagagem trazida do secundário. Esta situação é bem expressa por Brian Conrad, professor de matemática em Stanford, quando nos diz:
“Quem é que vai confiar em alguém formado em engenharia aeronáutica que não sabe como resolver um problema sem que um computador lhe dê a resposta? (,,,) A premissa de que as ideias fundamentais já não precisam de ser aprendidas é uma receita para a idiocracia”.
A partir da base criada com a leitura dos textos de Musgrave, específicos para o ensino superior, procurámos e encontrámos também outros textos de carácter mais geral e talvez mais vocacionados para a análise dos problemas existentes no quadro da formação técnica e cultural que é subentendida como alcançada no final do secundário. Com este objetivo, compilou-se material suficiente para construir uma série sobre o ensino em geral, e sobre o ensino superior em particular. No caso do ensino superior, os textos incidem sobre a evolução dos estudantes, dos professores, das instituições, dos investigadores, em geral, e com isso responde-se à crítica que o meu amigo me tinha feito: minimizo nesta série a relevância da FEUC: é apenas mais um caso entre tantos outros, tão mau como os outros, a produzir proporcionalmente tanto lixo eletrónico como os outros, possivelmente com uma diferença enorme: não consigo imaginar um local universitário tão violento quanto a FEUC seja em termos de condições de trabalho, seja em termos de desrespeito por quem trabalha de forma séria, e se me demonstrarem o contrário, serei levado a pensar que o defeito é meu, por estar a ficar muito velho, por estar a perder a capacidade de imaginar que as coisas estão de facto a melhorar.
Se dúvidas há quanto ao que acabo de dizer, veja-se a dança dos professores por disciplina, ao longo dos últimos 5 anos, a mudarem sucessivamente de disciplina a lecionar, o que não acontecia quando eu era docente na FEUC, vejam-se agora as disciplinas que se abrem e fecham, proporcionalmente quase que como um abrir e fechar de olhos, vejam-se as notas elevadas ou elevadíssimas que são dadas, e isto significa que ou estamos cheios de génios ou cheios de ignorantes que precisamos de esconder e fazemo-lo com as classificações altíssimas. Não é preciso estar na FEUC para dizer isto, em 2022 avisei o diretor em funções por escrito que isso iria acontecer com a entrada em vigor da Nova Reforma em 2023, e avisei-o antes mesmo disso começar a acontecer: estava tudo escrito no vento que passa. Estabilidade na docência, é coisa que, com exceção dos mandarins, quase já ninguém sabe o que isso é, e a garantia de instabilidade profissional poderia ser orgulhosamente a divisa identificadora da Nova FEUC.
Vou organizar a série, publicá-la e apenas o último texto desta série será então dedicada à FEUC. Mas isto leva muito tempo a fazer e passará necessariamente para lá, e muito, de 20 de fevereiro, pensei eu. A sua edição fica então para mais tarde, foi o que decidi.
- Entretanto morreu Eurico de Figueiredo, com quem me relacionei desde os meus tempos de marçano em Lisboa. Quando quis fazer uma nota em sua homenagem optei por tomar um dos textos em que falava dele, mas não o encontrei no meu computador – o motor de busca não o encontrava. Um esforço de memória e fiz um texto novo, um pequeno texto que alguém depois levou à viúva. Isso soube-o depois. Mas tive de mergulhar a fundo nas águas já de tons esbatidos da minha memória e isso aguçou-me o apetite para voltar ao tema.
A leitura dos textos de Paul Musgrave e de uma série de outros textos de especialistas em matéria de clima geral do ensino deu-me as bases para poder organizar com tempo uma longa série sobre a educação em geral, sobre o ensino superior em especial, e a ser feita na sequência da sugestão do meu amigo, enquanto a escrita do texto sobre o Eurico de Figueiredo feita na urgência criada pelo seu falecimento reacendeu-me o apetite pela análise dos tempos da minha infância e adolescência, os anos 50 e 60.
Estas são, pois, as duas razões que me levaram a optar por me debruçar sobre os modos de vida da juventude do meu tempo, dos anos 50 e 60, os duros tempos do fascismo em Portugal, como texto para o dia do meu aniversário.
Peguei então num texto que tinha dedicado aos jovens da minha terra, escrito em Maio de 2024. Aprofundei um ou outro detalhe, e pedi a dois amigos meus daquela zona e de idades não muitíssimo distantes da minha, que me descrevessem o que foi a infância/ adolescência deles para juntar às minhas memórias. Aceitaram, e com as suas contribuições deram assim uma outra configuração bem mais interessante ao meu texto de 2024, do qual eu parti agora. Um deles cumpriu o pedido – uma nota curta – e o outro aproveitou a ideia para escrever uma espécie de carta aos seus netos, e já a entregou, dizendo-me para aproveitar dela o que eu quisesse. Decidi inserir o seu texto por inteiro. E esse texto, agora aí está, na totalidade inserido no meu.
Por hoje, aqui vos deixo esta nota, e para amanhã, partilharei o texto ampliado do que escrevi em 2024 e que conta, agora, com a participação de Eugénio Ferreira e de Manuel Ramalhete.



