Espuma dos dias — Os EUA em Moscovo: três perspectivas sobre uma missão sem rosto . Por Lorenzo Maria Pacini

Nota prévia

Este texto deve ser lido tendo presente também o texto, igualmente de Lorenzo Pacini, que publicámos ontem (dia 28 de Agosto) – A Coligação dos Voluntários quer uma guerra continental – vistas as ligações – de discrepância ou de concordância – ou as interrogações que poderão ser levantar-se face a estes dois factos: a Cimeira da Coligação dos Voluntários em Kiev em 24 de Agosto e a ida a Moscovo do diretor da CIA no dia seguinte, 25 de Agosto. Os resultados da Cimeira da Coligação dos Voluntários realizada na véspera estiveram incluídos nas três perspetivas de que o autor fala, ou poder-se-ia levantar uma quarta perspetiva sobre a missão do diretor da CIA?

FT, em 29/08/2026

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Seleção e tradução de Francisco Tavares

7 min de leitura

Os EUA em Moscovo: três perspectivas sobre uma missão sem rosto

 Por Lorenzo Maria Pacini

Publicado por  em 27 de Agosto de 2026 (original aqui)

 

 

Quando o director da CIA voa para Moscovo em segredo, algo significativo está a mover-se sob a superfície do conflito.

 

Na corte do Kremlin

Em 25 de agosto de 2026, um avião do governo dos EUA partiu da base conjunta Andrews, fez uma escala em Riga e de lá voou para Moscovo. A bordo estava John Ratcliffe, diretor da CIA. Não houve anúncio, nem comunicado de imprensa; a missão veio à tona através de dados de rastreamento de voo e fontes que falaram sob condição de anonimato. No dia seguinte, o Kremlin confirmou: Ratcliffe reuniu-se com altos funcionários da inteligência russa, não Putin, que teria sido apenas informado sobre as negociações. Washington não quis comentar.

Esta é a primeira visita conhecida de um director da CIA a Moscovo desde a missão de William Burns em novembro de 2021 – a que precedeu o início da operação militar especial em algumas semanas. O precedente não é tranquilizador, e é precisamente isso que torna a missão de Ratcliffe algo a ser interpretado e não meramente relatado. O vácuo de informação deixado pelas duas capitais foi preenchido pela especulação, e a especulação, na geopolítica, já é uma forma de análise. Segundo relatos convergentes, três questões estavam em cima da mesa: a Ucrânia, o Irão e o flanco Báltico da NATO. Entrelaçados com estes assuntos estão Israel e, em segundo plano, o equilíbrio de poder na Ásia.

Vamos prosseguir com três hipóteses de trabalho, que não se excluem mutuamente, mas, pelo contrário, podem complementar-se bem.

 

Hipótese da cooperação

A primeira interpretação é a menos dramática e talvez a mais sólida. Ratcliffe teria viajado para Moscovo porque existe um canal direto de comunicação entre as agências de inteligência das duas potências – e continuou a existir mesmo durante os anos mais frios do conflito ucraniano. Fontes americanas sugeriram que o director da CIA manteve contacto com os seus homólogos russos durante todo o seu mandato. Sob esta luz, a missão seria a manifestação visível de um diálogo permanente, nos bastidores.

O detalhe mais revelador é processual. Antes da partida de Ratcliffe, os Estados Unidos pediram à Ucrânia que suspendesse os ataques com drones e mísseis contra Moscovo e cidades do Norte da Rússia de segunda a quarta-feira. Kiev foi informada de que uma delegação americana de alto nível viajava pelo território russo. Aqueles que organizam uma trégua táctica – por mais breve e limitada que seja – não o fazem para emitir um ultimato, mas para garantir a segurança de um negociador e a viabilidade das negociações. A coreografia é de cooperação, não de confronto.

Esta hipótese é reforçada pelo que aconteceu imediatamente depois. Nas horas seguintes à saída de Ratcliffe de Moscovo, o Secretário de Estado Marco Rubio anunciou a rescisão formal da designação da Síria como estado patrocinador do terrorismo. É improvável que dois movimentos tão próximos não estejam relacionados. O Médio Oriente – a Síria, o Irão e os corredores que ligam o Golfo ao Mediterrâneo – é precisamente o teatro em que Washington e Moscovo, apesar das suas posições opostas em relação à Ucrânia, partilham o interesse pela desescalada.

Afinal, a cooperação não exige amizade, mas apenas que, em certas questões, o custo do conflito exceda o da coordenação.

Se esta interpretação for correcta, a viagem de Ratcliffe não é um acontecimento, mas um sintoma: prova de que, por detrás da retórica pública da inconciliabilidade, existe um quadro comum para a gestão de crises. Nesta perspectiva, o Irão, a Ucrânia e os países bálticos seriam as três mesas de negociação de um único processo destinado a reduzir simultaneamente as tensões em múltiplas frentes.

 

A tese da “fraqueza”

A segunda interpretação inverte a perspectiva. Não dois poderes a coordenarem como iguais, mas um poder em perigo batendo à porta do outro. A iniciativa estado-unidense revela uma posição de relativa fraqueza.

Não faltam provas que apoiem esta situação. As negociações para pôr fim à guerra na Ucrânia estagnaram; a administração Trump apostou capital político na promessa de uma paz rápida e encontra-se agora, em meados de 2026, sem cumprir essa promessa. Foi o enviado estado-unidense, não o russo, que organizou o cessar-fogo táctico em relação aos ataques ucranianos. Foi Washington que informou Kiev, apresentando-lhe um facto consumado. Na geopolítica, quem pede a suspensão das hostilidades – mesmo que por apenas três dias – admite implicitamente estar com mais pressa do que o outro lado.

Por detrás da urgência táctica, pode vislumbrar-se uma tensão estrutural mais profunda. Uma potência hegemónica que percebe a erosão da sua centralidade tem interesse em congelar frentes abertas para reorganizar as suas linhas.

A sobre-extensão estratégica é a doença clássica dos impérios maduros: demasiados teatros de operação, demasiadas promessas e recursos insuficientes para cobrir todos os compromissos simultaneamente. Uma trégua em múltiplas frentes seria, portanto, menos um acto de força do que uma manobra de reposicionamento para ganhar tempo, reduzir o número de crises activas e realinhar prioridades.

Esta interpretação tem uma limitação que deve ser reconhecida: corre o risco de confundir prudência com fraqueza. Nem todo o apelo de desescalamento decorre da necessidade; alguns surgem do cálculo. No entanto, em impérios em transição, o cálculo e a necessidade tendem muitas vezes a coincidir.

A questão decisiva não é saber se os Estados Unidos estão exaustos e/ou acabados, mas sim se percebem que já não podem sustentar todas as frentes de uma só vez. E a forma como a missão de Ratcliffe foi tratada sugere que esta percepção está agora firmemente estabelecida em Washington.

 

A tese do “engano” (e a longa sombra de Kissinger)

Há também uma terceira interpretação enraizada na memória histórica russa. A hipótese é que a mão estendida é uma armadilha: que os Estados Unidos estão a oferecer uma trégua não para congelar o conflito, mas para ganhar o espaço necessário para se reposicionar e atacar de forma mais eficaz, replicando o padrão da década de 1980, quando a abertura das negociações foi acompanhada por uma estratégia de atrito económico e estratégico contra a União Soviética, realizada a partir de dentro.

Há um eco da doutrina de Kissinger: fazer amizade com a Rússia para combater a China; manter o adversário num estado de dependência calculada; impedir que duas grandes potências rivais – neste caso, a Rússia e a China – se unam contra Washington; e usar as negociações como instrumento de divisão e não de reconciliação. Um diálogo com Moscovo serviria sobretudo para criar uma barreira entre a Rússia e a China, oferecendo à Rússia incentivos tácticos para afrouxar uma aliança que os Estados Unidos consideram a verdadeira ameaça sistémica.

Toda concessão estado-unidense é reversível e de baixo custo, enquanto o que Washington exigiria em troca – um arrefecimento das relações russo-iranianas, um enfraquecimento do eixo eurasiano – afetaria os interesses estruturais e de longo prazo de Moscovo. O desequilíbrio entre o que é oferecido e o que é exigido seria a marca do engano.

A referência às eleições russas completa o quadro, uma vez que agir enquanto o adversário é absorvido por uma eleição interna significa escolher o momento de maior vulnerabilidade política, quando a liderança está mais exposta e menos livre para manobrar. A desconfiança russa em relação às propostas ocidentais é um facto histórico bem estabelecido, e nenhum negociador de Moscovo se senta à mesa sem considerar a possibilidade de fraude. A memória de 1991 é, por si só, um factor nas negociações.

 

As quatro questões em cima da mesa

Estas três perspectivas lançam luz uma sobre a outra quando olhamos para o que estava, em termos concretos, em cima da mesa. Não quatro questões separadas, mas um sistema de assuntos interligados.

Ucrânia. A questão principal para todos. É a frente em que tudo se articula. A trégua táctica pedida a Kiev antes da missão demonstra que, sem uma redução das tensões militares, nenhuma outra questão é negociável. É a variável que abre ou fecha todas as outras.

Depois, há o Irão – o ponto em que os interesses se entrelaçam e se contradizem. A relação entre Moscovo e Teerão é precisamente o que Washington gostaria de enfraquecer. Pedir à Rússia que reduza o seu apoio ao Irão é a última exigência – aquela que revela se se trata de uma questão de cooperação, intercâmbio ou engano.

A outra questão importante, uma de aferição internacional, é Israel, que entra em jogo em função da questão iraniana: a segurança israelita é o pré-requisito tácito para qualquer recalibração estado-unidense no Médio Oriente, e a atitude de Rubio em relação à Síria também deve ser vista sob esta luz. Já explicámos muitas vezes o porquê.

Isso deixa a frente Báltica, e mais amplamente, a questão da Europa com todo o seu quadro arquitectónico. Algumas avaliações de inteligência dos EUA apontam para uma possível mudança no cálculo de risco de Putin, sugerindo que ele está mais inclinado a ações híbridas contra os membros da NATO para testar a sua coesão.

Se fosse este o caso, a missão teria também servido uma função dissuasora, alertando Moscovo para os limites que não deve ultrapassar. A dissuasão e a negociação, no âmbito da mesma visita, não são contraditórias: são as duas faces de toda a diplomacia dos serviços de informação. Ou, além disso, o jogo de dividir a Europa em caso de guerra, dado que a UE tem a intenção de avançar.

 

Lendo o silêncio

A força da missão de Ratcliffe reside, paradoxalmente, no seu silêncio.

Um acontecimento sem declarações oficiais torna-se uma tela na qual cada observador projeta a sua própria visão do equilíbrio de poder: aqueles que acreditam num mundo multipolar agora estabilizado vêem a cooperação; aqueles que vêem um Ocidente em declínio vêem um apelo por uma trégua; aqueles que não esqueceram a história vêem uma armadilha.

A única coisa que se pode dizer com certeza é esta: quando o director da CIA voa em segredo para Moscovo – e para o fazer, pede a Kiev que pare os seus ataques com mísseis – algo significativo está a mover-se sob a superfície do conflito.

A propósito: uma fonte interna informou que outra figura proeminente também estava presente no avião e em Moscovo – a saber, o Vice-Presidente dos EUA, JD Vance. Mas isso é outra história…

 

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O autor: Lorenzo Maria Pacini [1994 -] é Professor Associado na University UniCampus HETG de Geneve e Professor adjunto de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno e na Universidade Livre de Bellinzona. Estudou Filosofia e Teologia na Universidade Pontifícia Santa Croce de Roma, especializando-se em Bioética no Ateneo Pontifício Regina Apostolorum de Roma. É licenciado em Filosofia Estética pela Università degli Studi di Ferrara. Preparou o seu doutoramento na UniToscana-Universidade Leonardo Da Vinci de Zurique em Filosofia Política, com um projecto sobre a metafísica política em A. Dugin. Foi também chefe do primeiro curso académico sobre a Quarta Teoria Política de Aleksandr Dugin e do curso geopolítica do mundo Multipolar. Trabalha frequentemente como consultor em defesa e inteligência para assuntos diplomáticos e agências privadas. Jornalista, editor, músico, Taekwondo e atleta de tiro com arco. Membro consultor da WABT-Academia Mundial de Ciências e tecnologias biomédicas; membro do Conselho de administração do OSS – Observatório contra a vigilância Estatal do ECSEL (Europen Center for Science, Ethics and Law). É um dos fundadores do centro de Estudos Internacionais sobre multipolaridade “Daria Dugina”. Atualmente, árbitro italiano do movimento eurasiano Internacional. Fundador e Diretor da http://www.ideeazione.com.

 

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