O POVO MAIS TRABALHADOR DO MUNDO — OU A ARTE DE ENCHER A BOCA COM PALAVRAS OU OS TEXTOS E ENTREVISTAS
por Carlos Pereira Martins
Há uma espécie de concurso nacional que nunca chegou a ser oficialmente instituído, mas que se disputa diariamente nas páginas dos jornais, nas revistas, nas entrevistas e, sobretudo, nas conversas em que alguém assume aquela expressão grave de quem vai finalmente revelar uma verdade escondida durante séculos:
— Os portugueses são um povo muito trabalhador.
E, se houver espaço na página, acrescenta-se:
— Muito lutador, muito sério, muito dedicado.
Se o artigo for sobre emigração, então a coisa sobe de categoria:
— Lá fora, os portugueses são reconhecidos pela sua enorme capacidade de trabalho.
Se vier, escrito ou falado em entrevistas, de um emigrado, isso mesmo é marcado diferenciando o português dos restantes emigrados.
E pronto.
Está feito o retrato nacional.
Podemos voltar todos para casa descansados, sabendo que, entre os 8 mil milhões de habitantes do planeta, fomos nós que ficámos com a medalha de ouro da enxada, da picareta e do turno das seis da manhã.
É uma afirmação bonita.
Tem apenas um pequeno defeito:
é uma banalidade.
O problema, ou não, é que os outros também trabalham
Convém lembrar uma coisa que às vezes parece escapar aos grandes especialistas em virtudes nacionais: os outros povos também precisam de sobreviver.
E isso dá bastante trabalho.
Muito antes de existir Portugal, antes de existir França, Alemanha, Espanha, Angola, Brasil ou qualquer das modernas nações que hoje gostam de contar a sua própria história como se tivessem sido inventadas numa manhã de segunda-feira, já os seres humanos trabalhavam.
Trabalhavam para comer.
Trabalhavam para se proteger.
Trabalhavam para criar filhos.
Trabalhavam para construir abrigo.
Trabalhavam para dominar ferramentas.
Trabalhavam para armazenar alimentos.
Trabalhavam para se defender dos inimigos.
E, sobretudo, trabalhavam porque a alternativa era bastante pouco recomendável.
Não foi a preguiça que permitiu à espécie humana sobreviver.
Foi precisamente a extraordinária capacidade de cooperar, aprender, adaptar-se e transmitir conhecimento entre gerações. A investigação sobre evolução humana considera a cultura e a cooperação elementos centrais da extraordinária capacidade da nossa espécie para viver em ambientes muito diferentes e formar sociedades de enorme complexidade.
Portanto, não há aqui nenhuma exclusividade lusitana.
Esta é a verdade e caracterização geral. Agora, que em todos os povos e em todas as gerações houve e há calões, é outra verdade que não se cola à pele de qualquer povo, por inteiro.
O antepassado do português trabalhava.
O antepassado do francês trabalhava.
O antepassado do congolês trabalhava.
O antepassado do chinês trabalhava.
O antepassado do nórdico trabalhava.
O antepassado do índio americano trabalhava.
Até o antepassado daquele sujeito que hoje passa o dia a explicar que “o português é que é trabalhador” teve, em algum momento, de fazer qualquer coisa para não morrer à fome.
A humanidade não chegou ao século XXI através de uma comissão de preguiçosos.
A fabulosa invenção do português trabalhador
Há, porém, uma coisa especialmente engraçada nesta história.
O português gosta de imaginar que o português trabalhador é uma característica quase genética.
Como se, algures entre Viriato, se é que existiu como é descrito, e o primeiro operário emigrado para França, tivesse surgido uma mutação qualquer:
gene T — trabalhador.
Talvez localizado junto do gene do desenrascanço.
E um pouco acima do gene da saudade.
Seria tudo muito mais simples.
Bastava fazer uma análise ao sangue:
— O senhor tem uma taxa de português trabalhador de 87%.
— E os restantes 13%?
— Preguiça depois do almoço.
Mas a ciência não funciona assim.
As diferenças de comportamento entre sociedades existem, evidentemente. A cultura, as instituições, a história, a educação, as condições económicas e ambientais moldam profundamente os comportamentos. Mas isso está muito longe de permitir concluir que uma nacionalidade possui uma espécie de superioridade moral ou laboral incorporada no ADN.
A investigação sobre cooperação humana mostra precisamente uma combinação complexa de mecanismos biológicos, aprendizagem cultural, normas sociais, reputação, reciprocidade e instituições.
Ou seja:
não somos um povo de trabalhadores. Somos uma espécie de sobreviventes.
E isso é muito mais interessante.
O emigrante: o santo padroeiro da nossa auto-estima
Depois existe o emigrante. Claro que com todo o apreço, valor e estima que lhe reconhecemos e dedicamos.
Ah, o emigrante!
Esse extraordinário personagem que Portugal exporta e depois transforma em prova científica da sua própria superioridade.
O emigrante português chega a França, à Suíça, ao Luxemburgo, à Alemanha, ao Canadá, aos Estados Unidos ou a qualquer outro lugar e trabalha arduamente.
Muitas vezes, é verdade.
Mas há uma coisa que raramente se diz:
muitos emigrantes de outras nacionalidades fazem exactamente a mesma coisa.
Também eles deixam família, língua, amigos, hábitos, paisagem e segurança para procurar uma vida melhor.
Também eles se levantam cedo.
Também eles trabalham em fábricas, obras, restaurantes, hospitais, agricultura, transportes, comércio e serviços.
Também eles enviam dinheiro para casa no país de origem.
Também eles compram casas.
Também eles passam dificuldades.
Também eles fazem sacrifícios.
A diferença é que, quando um português faz isso, descobrimos imediatamente uma virtude nacional.
Quando o faz um senegalês, um romeno, um marroquino, um cabo-verdiano ou um brasileiro, há quem descubra outra coisa:
“Vieram para cá porque precisam.”
É uma curiosa contabilidade moral.
Quando emigramos, somos corajosos.
Quando os outros emigram para cá, são necessitados.
Quando trabalhamos muito, somos trabalhadores.
Quando eles trabalham muito, são mão-de-obra.
Talvez valha a pena pensar um bocadinho nisto.
A história universal da superioridade
Esta necessidade de considerar o nosso grupo superior aos outros não é exclusivamente portuguesa.
É muito mais antiga.
Os seres humanos desenvolveram fortes tendências para distinguir entre “nós” e “eles”, favorecer os membros do próprio grupo e, em determinadas circunstâncias, desconfiar ou desvalorizar os de fora. A investigação sobre favoritismo intragrupal mostra que este fenómeno é recorrente na psicologia humana e não constitui uma particularidade de qualquer nacionalidade.
É precisamente por isso que a cultura é tão importante.
Porque a cultura pode pegar nessa velha tendência e transformá-la em cooperação.
Mas também pode transformá-la em preconceito.
Pode ensinar:
— Somos diferentes, mas iguais em dignidade.
Ou pode ensinar:
— Nós somos gente; os outros são outra coisa.
E é aqui que o colonialismo entra nesta história com a elegância de um elefante numa loja de porcelanas.
O colonialismo não foi uma reunião de cavalheiros
Há quem ainda fale do colonialismo português como se tivesse sido uma longa excursão pedagógica em que Portugal levou aos povos africanos a língua, a religião, a administração e os bons costumes.
É uma versão muito confortável.
Tem apenas o inconveniente de a história não ser obrigada a ser confortável.
O colonialismo português em África envolveu, em diferentes períodos e territórios, coerção laboral, tributação, discriminação racial, exploração económica e violência política. A historiografia identifica esses mecanismos como componentes estruturais do sistema colonial, e as políticas de trabalho indígena mantiveram formas de trabalho forçado até às décadas finais do colonialismo.
Isto não significa que todos os portugueses fossem colonialistas fanáticos.
Não significa que todos os colonos fossem iguais.
Não significa sequer que todos os indivíduos que viveram nas colónias tivessem a mesma visão do mundo.
Significa apenas que um sistema colonial é um sistema de poder.
E que, durante décadas, esse poder estabeleceu hierarquias entre seres humanos.
É isto que importa compreender.
Porque um império pode desaparecer politicamente numa determinada data e continuar, durante muito mais tempo, a sobreviver dentro das cabeças.
O império pode acabar e o preconceito ficar
É aqui que aparece a figura curiosa do ex-colono eternamente colono.
Não é necessariamente uma pessoa que vive a falar do passado.
Pode até dizer que “isso já acabou”.
Pode reconhecer a independência das antigas colónias.
Pode viajar para lá.
Pode ter amigos negros.
Pode até começar a frase dizendo:
— Eu não sou racista, mas…
E é precisamente depois do “mas” que começa o verdadeiro documentário.
Porque o velho preconceito tem uma característica extraordinária:
não precisa de ser declarado para se revelar.
Está no adjectivo.
Na anedota.
Na maneira como descreve uma pessoa.
Naquilo que considera “natural”.
Na surpresa perante um negro que ocupa uma posição de responsabilidade.
Na forma como se dirige a alguém.
No tratamento familiar ou paternalista que, perante determinada pessoa, substitui o respeito pela condescendência.
E, sobretudo, na convicção íntima de que certas pessoas nasceram para mandar e outras nasceram para obedecer.
Aí está o verdadeiro colonialismo sobrevivente.
Não no mapa.
Na cabeça.
O “tu” que pesa mais do que parece
É preciso cuidado aqui.
Chamar alguém por “tu” não é, evidentemente, uma prova de racismo.
Em Portugal, o “tu” pode ser amizade, intimidade, familiaridade ou simples hábito linguístico.
Mas em relações marcadas por uma história de dominação, a linguagem pode tornar-se reveladora.
Se alguém trata sistematicamente como “tu” uma pessoa que considera inferior, enquanto reserva outras formas de tratamento para aqueles que reconhece como seus iguais, então já não estamos apenas perante gramática.
Estamos perante uma hierarquia social traduzida em pronome.
É uma espécie de colonialismo em miniatura.
O império reduzido a duas letras.
E talvez seja por isso que algumas pessoas nunca compreenderam verdadeiramente que as colónias acabaram:
continuam a falar com o mundo como se ainda estivessem no gabinete do administrador.
O negro trabalhador — esse fenómeno inexplicável
E há uma coisa particularmente reveladora.
O racista gosta muito do negro trabalhador.
É um negro muito conveniente.
Não fala muito.
Não protesta.
Não reivindica.
Trabalha.
De preferência, trabalha muito.
É quase o negro ideal.
Porque confirma aquilo que o racista espera encontrar: alguém colocado no lugar que, na sua cabeça, lhe corresponde.
Mas basta esse negro deixar de ser trabalhador braçal e tornar-se engenheiro, médico, professor, empresário, magistrado, dirigente ou simplesmente alguém que lhe dá uma ordem, para o encanto poder desaparecer rapidamente.
É aí que se percebe que o problema nunca foi o trabalho.
Era a hierarquia.
O racista não se incomoda necessariamente com o negro que trabalha.
Incomoda-se com o negro que não aceita ser inferior.
E isso é outra coisa.
O branco preguiçoso também existe
A outra face da moeda é igualmente curiosa.
Para certos antigos colonos, o branco português que ficou nas colónias era “trabalhador” até prova em contrário, enquanto o negro precisava de ser vigiado, mandado, disciplinado e, em muitos contextos históricos, submetido a formas coercivas de trabalho.
É uma contradição monumental.
Porque, se a cor da pele determinasse a capacidade de trabalho, bastaria olhar para uma plantação e descobriríamos que a produtividade vinha da pigmentação.
Felizmente, a biologia não teve a delicadeza de confirmar o preconceito.
O trabalho é comportamento.
Não é cor.
A dedicação é comportamento.
Não é raça.
A honestidade é comportamento.
Não é nacionalidade.
A competência é comportamento.
Não é passaporte.
E é precisamente aqui que a conversa sobre os “portugueses trabalhadores” deveria começar a ficar intelectualmente séria.
Somos todos filhos de gente que trabalhou
O português que se orgulha legitimamente do trabalho dos seus pais e avós tem toda a razão para o fazer.
Mas talvez devesse acrescentar:
os meus avós trabalharam muito — como trabalharam os avós de milhões de outros seres humanos.
Isso não diminui ninguém.
Pelo contrário.
Dá-nos uma visão mais humana do mundo.
O camponês português que cavava uma terra dura sob um sol impiedoso não era moralmente superior ao camponês indiano que trabalhava sob o calor das monções.
O pescador português não era mais corajoso do que o pescador norueguês.
O operário português não era mais digno do que o operário polaco.
A mulher portuguesa que trabalhava em casa, no campo e a criar os filhos não era mais sacrificada do que milhões de mulheres em África, na Ásia ou na América Latina.
A condição humana não conhece fronteiras nacionais.
Conhece apenas diferentes circunstâncias.
E talvez esta seja a parte que mais incomoda
A grandeza de um povo não está em proclamar que é melhor do que os outros.
Está em ser capaz de olhar para os outros sem precisar de se colocar acima deles.
O verdadeiro progresso moral começa precisamente quando deixamos de perguntar:
“Em que somos superiores?”
e começamos a perguntar:
“Em que podemos ser melhores?”
Porque uma coisa é certa:
não precisamos de inventar uma superioridade portuguesa para reconhecer os feitos extraordinários dos portugueses.
Podemos admirar os emigrantes sem transformar os outros emigrantes em seres inferiores.
Podemos respeitar os nossos trabalhadores sem desprezar os trabalhadores estrangeiros.
Podemos amar Portugal sem precisar de diminuir Angola, Moçambique, Cabo Verde, Brasil, França, Espanha ou qualquer outro país.
E podemos recordar a nossa história sem a maquilhar.
Aliás, talvez uma das maiores demonstrações de maturidade de um povo seja conseguir olhar para o seu passado e dizer:
— Fizemos isto bem.
— Fizemos aquilo mal.
— Aqui fomos corajosos.
— Aqui fomos injustos.
— Aqui fomos vítimas.
— Aqui fomos responsáveis pelo sofrimento de outros.
Sem precisar de acrescentar imediatamente:
“Mas, no fundo, éramos os melhores.”
Não.
É precisamente essa necessidade de sermos “os melhores” que ainda nos atrasa.
Porque, quando um povo precisa de repetir constantemente que é trabalhador, sério, lutador, honesto, valente e especial, talvez esteja menos interessado em descrever-se do que em convencer-se.
E isso já é outra coisa.
É propaganda.
A última palavra
Portanto, sim:
os portugueses trabalham.
Muito, muitas vezes.
Alguns extraordinariamente.
Há portugueses corajosos, sérios, dedicados, honestos e competentes.
Mas também há portugueses preguiçosos, incompetentes, aldrabões, irresponsáveis e aqueles que passam meia vida a dizer que começam amanhã.
Como em toda a parte e em todos os povos!
E isso não é uma ofensa à pátria.
É apenas a consequência de sermos humanos.
A história da humanidade não é a história de um povo trabalhador rodeado por povos menos trabalhadores.
É a história de milhares de povos, milhões de comunidades e milhares de milhões de indivíduos que, cada um à sua maneira, encontraram maneiras de sobreviver, cooperar, adaptar-se, trabalhar, lutar e transmitir aos filhos aquilo que aprenderam.
Uns fizeram-no melhor.
Outros pior.
Alguns exploraram.
Outros foram explorados.
Alguns dominaram.
Outros resistiram.
E, frequentemente, as mesmas pessoas fizeram coisas diferentes em momentos diferentes.
É por isso que talvez devêssemos desconfiar um pouco das frases que começam por:
“Nós, portugueses, somos…”
E, sobretudo, das que terminam em:
“…ao contrário dos outros.”
Porque normalmente, quando aparece o “ao contrário dos outros”, já começou a entrar pela porta das traseiras aquela velha criatura que a humanidade conhece há milhares de anos:
o bichinho da superioridade.
E esse, ao contrário do português trabalhador, não precisa de emigrar.
Fica em casa.
Às vezes durante gerações.
E, pior ainda, aprende a falar muito bem.
Especialmente em jornais.


Verdadeiramente bom. E importante nos tempos que correm de regresso dos saudosistas do regime dos “brandos costumes” (leia-se ditadura fascista Salazar/Caetano), saudosistas que se têm alargado por esse mundo fora…. Trump.s, Abascales/Vox, Venturas/Chega em que uma característica dominante é a rejeição e a discriminação do “outro” porque é diferente . Cito deste texto:
“É por isso que talvez devêssemos desconfiar um pouco das frases que começam por:
“Nós, portugueses, somos…”
E, sobretudo, das que terminam em:
“…ao contrário dos outros.”
Porque normalmente, quando aparece o “ao contrário dos outros”, já começou a entrar pela porta das traseiras aquela velha criatura que a humanidade conhece há milhares de anos:
o bichinho da superioridade.”
Recordo sempre o grande cientista da genética Luigi Sforza, autor do texto “Genes, Povos e Línguas”, texto a propósito do qual comentei em nota prévia:
“Na linha do que disse Lídia Jorge no seu discurso no passado dia 10 de Junho [de 2025], já o Professor Luigi Sforza (falecido em 2018), especialista em genética, dizia em 1992: “As árvores genealógicas que relacionam povos e línguas sobrepõem-se. Ambos, povos e línguas, remetem para correntes migratórias. As provas biológicas situam em África a nossa origem”.
Além do elevado interesse científico, este texto de Sforza datado de 1992 é do maior interesse no atual contexto de crescimento da extrema-direita na Europa e nos Estados Unidos, e também em Portugal. Extrema-direita que coloca um foco privilegiado no tema da pureza do sangue, nomeadamente atacando os imigrantes como sendo os principais responsáveis de todos os males que afetam atualmente as nossas sociedades. As constatações e conclusões do Professor Luigi Sforza levam-nos a concluir pela demagogia, falsidade e falta de fundamento da argumentação subjacente a essas teses da extrema-direita”.
Muito obrigado pelo incentivo. Forte abraço Argonauta! Carlos Pereira Martins