Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Um ano da ofensiva tarifária de Trump: a China amplia a sua brecha com os EUA enquanto a economia global enfraquece perante a guerra no Irão
Publicado por
em 5 de Abril de 2026 (original aqui)

Há um ano, Trump lançou a sua cruzada comercial, um erro estratégico que afastou ainda mais a China, abalou os próprios EUA e agravou o ulterior impacto da guerra do Irão.
Há um ano, o presidente estado-unidense, Donald Trump, fez tremer o comércio global e deixou claro que não havia chegado ao poder em janeiro de 2025 para consertar as coisas, mas para emaranhá-las a extremos inimagináveis do ponto de vista da economia e da segurança internacionais. Em 2 de abril, Trump proclamou o “Dia da libertação” e declarou uma guerra tarifária a todo o planeta.
Nesse dia, os EUA estabeleceram uma tarifa base mínima de 10% sobre todas as importações, com impostos, que se fizeram recíprocos até 20% para a União Europeia e 34% para a China nesses primeiros momentos, embora em diversos momentos das negociações se elevaram até mais de cem por cento, nesse pulso lançado por um Trump totalmente enfurecido com Pequim e algum ou outro parceiro comercial respondão. Finalmente, as tarifas à China “caíram” até 23%, após uma disputa tarifária que sacudiu as urdiduras da economia dos dois países.
A tempestade que eclodiu nessas primeiras jornadas após tal confronto tarifário ser declarado, com as tarifas a atingirem os níveis mais altos num século, levou às quedas mais importantes nas bolsas desde a pandemia covid. Trump não se importava com isso. O líder republicano pretendia, com a sua ofensiva comercial, obter enormes benefícios das taxas, reativar a indústria manufatureira nos EUA, multiplicar as receitas governamentais, atrair investimentos estrangeiros e abrir novos mercados aos bens estado-unidenses.
A guerra que Trump perdeu
Mas embora um ano depois desse desastre inicial as tarifas efetivas médias sejam de cerca de 10%, frente aos 2,5% que havia antes do Dia da Libertação, os efeitos dessa estratégia global não foram os desejados por Trump e pela elite oligárquica que o rodeia no poder. A ferida foi muito profunda, especialmente no que se refere à incerteza gerada nos mercados, com todos os olhares de desconfiança ainda cravados nos EUA, onde quem pagou as consequências foram os próprios consumidores estado-unidenses.

A escalada tarifária de Trump foi sendo enfraquecida pouco a pouco pelos acordos comerciais que foram sendo negociados a contra-relógio, as isenções e, sobretudo, pela justiça americana, após a decisão do Supremo Tribunal dos EUA de anular em fevereiro as tarifas recíprocas. Era uma derrota que a Casa Branca não esperava; em seguida, passou para o plano B para maquilhar o desastre.
A guerra lançada contra o Irão pelos EUA e Israel em 28 de fevereiro relançou assim, com mais intensidade se possível, essa inquietação nos mercados. O que a nova disputa fez foi agravar os efeitos da chantagem tarifária. Inclusive nos próprios EUA, não tanto no âmbito empresarial, mas a nível da população, acossada pela inflação crescente, a desvalorização do dólar e o golpe às indústrias manufatureiras, que em um ano perderam no país cerca de 90.000 empregos.
A Europa respondeu diversificando as suas exportações
No caso da Europa, o efeito económico da guerra do Irão está a ser devastador e poderia minimizar o êxito das ações dos vinte e sete para conter a pressão tarifária de Trump, que já significou uma queda de 28% nas exportações europeias para os EUA desde que começou a cruzada comercial do inquilino da Casa Branca.
Em 2 de abril de 2025, a regra que Washington impunha à UE era de uma taxa de 20%, o dobro dos 10% que seria aplicada à maioria dos países. Se no primeiro trimestre de 2025 o superávit comercial europeu com os EUA era de mais de 80.000 milhões de euros, no final do ano havia caído para 31.000 milhões de euros.
A diversificação comercial, pondo em marcha, por exemplo, o acordo com o Mercosul após décadas de negociações, impediu a catástrofe. No entanto, diante dos danos que a guerra do Irão está a causar e dos rumores de uma segunda ofensiva tarifária para custear o gasto militar dos EUA, finalmente em 26 de março a Eurocâmara blindou o fundo comercial europeu com uma série de cláusulas sobre o marco comercial estabelecido com Washington.
Embora a decisão do Parlamento Europeu não toque no enésimo acordo alcançado com os EUA em julho passado, que estabelece uma taxa máxima de 15% sobre a maior parte das importações da Europa, ao mesmo tempo em que elimina os impostos sobre os bens industriais americanos, essas cláusulas permitiriam à UE suspender o pacto com Washington se a Casa Branca aplicasse novas tarifas ou ameaçasse, como fez com a Gronelândia, a integridade territorial europeia.

Como resultado da guerra tarifária, a incerteza comercial na Europa disparou e reduziu o crescimento económico da área do euro em 2025 em 0,3 pontos percentuais em relação a 2024. O crescimento do Produto Interno Bruto na Europa não foi finalmente tão mau como se previa para 2025 (0,9%) e ficou em 1,5%. Isso sim, a incerteza gerada levou muitas empresas europeias a adiar os seus investimentos externos. Especialmente nos Estados Unidos, principal vítima do bumerangue de Trump.
A China devolve o golpe
Apesar de que boa parte da pressão comercial de Trump se centrou na Índia e no Extremo Oriente, tanto na China, como nos países aliados dos EUA, como Japão ou Coreia do Sul, esta região conseguiu superar a ofensiva tarifária, remontá-la e inclusive posicionar-se com dignidade ante os EUA.
A impressão é que, embora a escalada tarifária de Trump não tenha conseguido sujeitar economicamente estes países aos EUA, a posterior guerra contra o Irão, com a instabilidade energética desencadeada pelo corte do fluxo normal de hidrocarbonetos do Golfo Pérsico, tem sido vista como uma última tentativa de Washington de terminar a tarefa iniciada com a ofensiva comercial, essencialmente para debilitar a China (principal comprador mundial do petróleo iraniano) e com vítimas colaterais como Japão, Coreia do Sul, Índia e Austrália.
Uma das principais razões que travaram os efeitos negativos da coerção tarifária de Trump na Ásia foi a decisão do Supremo Tribunal dos EUA sobre a ilegalidade dos impostos recíprocos, que esvaziou a força dessa pressão e devolveu à caixa de saída as negociações e pactos acordados com boa parte dos países asiáticos.
A sentença do Supremo americano reforçou, por exemplo, a posição da China, país que enfrentou desde o início a chantagem comercial de Washington e que tinha conseguido fazer valer com dureza as suas próprias condições aos EUA em até seis sessões de negociações ao longo de 2025 e princípios de 2026.
Na batalha comercial sino-estadounidense, Trump chegou a ameaçar a China com taxas de até 130%. O duelo foi muito acirrado e fez com que o valor das importações norte-americanas procedentes da China caísse cerca de 30% em 2025. As vendas dos EUA para a China também caíram 25%.
Amplia-se a brecha entre os EUA e a China
Se na última década, desde o primeiro mandato de Trump (2017-2021) as exportações chinesas para os EUA tinham começado a manifestar um evidente declínio, este acelerou-se de forma precipitada com a guerra de tarifas. Em contraposição e para desgosto dos EUA, as exportações chinesas para o Canadá aumentaram, fruto também das grosserias de Trump para com o país vizinho, económicas e em matéria de segurança.
Assim, o Canadá acaba de acordar a redução do imposto sobre veículos elétricos chineses de 100% para 6,1%. Esta decisão foi uma bofetada muito sonora para a indústria automobilística dos EUA, que dominava o mercado do Canadá.
Nessa batalha económica, a China trouxe à tona as suas defesas mais fortes, por exemplo, a restrição das exportações de terras raras para os EUA, setor em que o gigante asiático ocupa a primazia mundial. Foi então que Trump ficou ciente de que havia potências internacionais que ele não poderia pressionar como havia feito com os seus próprios aliados europeus e asiáticos.
Embora Trump tenha afirmado ufano no Dia da libertação que boa parte do planeta cederia a esta ofensiva para aceder ao “maior mercado do mundo” (referia-se aos EUA), a realidade é que foi a China quem beneficiou da diversificação e encontrou muito mais compradores para as suas exportações em princípio dirigidas aos Estados Unidos. Basta olhar para os números: a China fechou 2025 com um superávit comercial recorde de.1,2 milhares de milhões de dólares.
O encontro que tiveram na Coreia do Sul Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, em outubro permitiu um certo apaziguamento entre Pequim e Washington. Espera-se que a viagem que o presidente americano faça em maio a Pequim permita aproximar as posições, hoje muito distanciadas por causa do conflito tarifário e da guerra do Irão. Este país é um parceiro comercial muito importante da China e o governo chinês manifestou a sua intenção de mediar entre Teerão e Washington para alcançar uma trégua, com um plano de paz conjunto com o Paquistão que a Casa Branca ignorou.

A China age com muita cautela na sua política externa, mas não separa ações agressivas aparentemente desconexas, como a guerra das tarifas e a disputa no Irão. Para Pequim, são duas manifestações do hegemonismo estado-unidense que amanhã pode fixar-se na região da Ásia-Pacífico para sua expansão.
A guerra tarifária e a pressão de Washington sobre os seus aliados refletiram-se no ataque ao Irão e na recusa de europeus e asiáticos em se somarem aos EUA e Israel na destruição do regime islâmico. Pareceria absurdo que esses “amigos” que a Casa Branca denigre e espreme tarifariamente quisessem apoiar os delírios supremacistas dos EUA no Médio Oriente.
O bumerangue de Trump já o atingiu de volta
A guerra no Irão está a submeter Trump a um duro teste que começou com a guerra comercial. E essas dificuldades estão a refletir-se nos próprios EUA. Neste país, os preços dispararam com o caos comercial e a redução de certas importações. A guerra do Irão simplesmente não acrescenta nada de novo.
Não só o setor manufatureiro se contraiu nos EUA, mas o investimento estrangeiro também entrou em queda. Ninguém confia num país extorsionário que a qualquer momento pode atacar as fábricas erguidas no seu solo ou perseguir como ilegais os trabalhadores das fábricas que se instalam nos EUA.
Na realidade, são os próprios estado-unidenses – empresas e consumidores particulares – que assumem entre 70 e 90% do aumento das taxas sobre as importações. É como se as tarifas de Trump tivessem cobrado mil dólares adicionais a cada lar dos EUA em 2025.
E como se isso não bastasse, o golpe de misericórdia do Supremo Tribunal à política tarifária de Trump inclui o reembolso de mais da metade dos 260.000 milhões de dólares arrecadados pela Casa Branca através das novas taxas. Uma devolução que representará um novo fardo para os estado-unidenses, justamente quando a dívida pública da primeira economia do mundo se aproxima dos 40 milhões de milhões de dólares.
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Juan Antonio Sanz [1966-], é um jornalista espanhol, independente. É especializado em temas internacionais com a maior parte de sua carreira profissional desenvolvida no exterior, na Rússia e na ex-União Soviética (especialmente Ásia Central e Cáucaso), Coreia do Sul, Japão, Uruguai, Bolívia e Cuba. Além disso, exerceu como comunicador no âmbito da cooperação internacional e deu aulas de jornalismo e comunicação na Universidade Católica San Pablo de La Paz e no Estado-Maior do exército boliviano sobre Inteligência estratégica e analista jornalístico em Cuba. Autor do livro ” Vampiros, príncipes do abismo. Crônicas de vampiros, nosferatus e outros mortos-vivos”, Editorial Almuzara 2020.


