
À Conversa com a Vida 7
Ócio Criativo
Ontem, remodelei a disposição da minha sala. Minha, porque passo nela a maior parte dos meus dias. É uma sala ampla, de formato assotado, cheia de livros, fotografias, documentos, sofás, memórias e … pensamentos. Pela janela, generosa, entra muita luz. Por vezes, tanta, que me cega. Do outro lado dos vidros, árvores, melhor, arvoredo, quintais, muros de pedra seca, antigos, cobertos com eras e outras plantas, e porque outrora dali o via, adivinha-se o mar da Foz. Por vezes, o nevoeiro que a maresia traz, sobe até aqui.
É neste recanto que gosto de pensar, sonhar, imaginar e, por vezes, criar. Tenho o silêncio por companhia, a par de inúmeros pássaros. As rolas de sempre, os rouxinóis, pardais, melros, pombas, as gaivotas terrestres e muitos pássaros novos, de taramelares estranhos e pouco melodiosos.
É aqui também que me permito pausas mais ou menos longas, entregue ao ócio, para recarregar a mente. E aí, o pensamento flui, livre e aluvial.
Preciso desses momentos como contraponto à aceleração incessante do mundo contemporâneo. O tempo deixou de ser um espaço para ser vivido e passou a ser um recurso a explorar, e isso cansa-me. Passamos o tempo convencidos de que cada minuto deverá produzir qualquer coisa. Seja o que for. Até o descanso necessita de justificação. Penso, por isso, que o ócio ressurge como o meu discreto acto de resistência. Não é preguiça, também não é tédio, não sinto tédio, esse silêncio vazio que revela a perda de sentido. Pelo contrário, é um silêncio fértil, onde me germinam ideias, memórias e, por vezes, possibilidades. O meu direito ao descanso afirma-se, assim, na minha dignidade perante a lógica da utilidade permanente, recordando-me que o ser vale mais do que o produzir. É precisamente nas pausas, quando o relógio parece abrandar e o mundo deixa de exigir respostas imediatas, que me reencontro. Afinal, como a terra que precisa do pousio para voltar a dar fruto, também o meu espírito necessita do repouso para criar, compreender e reinventar a vida.
Só quem aprende a habitar o tempo, em vez de se limitar a consumi-lo, consegue descobrir que o verdadeiro ócio não é ausência de vida, mas uma das suas formas mais profundas e luminosas.
Quando me vêem sem fazer nada, muito raramente estou parado.
Lá fora continuam os pássaros; cá dentro, continuam as ideias.
Nenhum conhece a pressa.

Que sorte. Eu tenho 1 escritório pequeno e muitas vezes a luz não me deixa ver bem o computador. Uma chatice.