Espuma dos dias… sobre o circo, os palhaços e as suas vítimas — A China reindustrializa a sua universidade enquanto a Europa procura a felicidade .  Por Jesús G. Maestro

Nota de editor:

Este texto é o terceiro de uma mini-série composta por cinco textos onde é abordada a crise que atravessa as universidades e o sistema de ensino mais em geral, de que o caos criado pelo ministro da educação em torno da avaliação dos exames nacionais do secundário é tão só mais um sintoma.

O último texto da série é uma troca de pontos de vista entre o autor da mini-série e o robô de conversação Claude Sonnet 4.6.

FT


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5 min de leitura

A China reindustrializa a sua universidade enquanto a Europa procura a felicidade

 Por Jesús G. Maestro

Publicado por em 12 de Julho de 2026 (original aqui)

 

Graduação de universitários chineses / Zhou Chao | EFE

 

A universidade perdeu o controlo sobre o conhecimento, pois a Internet substituiu-a e absorveu essa função de forma insuperável. Apenas a China parece estar a reagir de forma efetiva a este novo cenário.

Pequim substituiu milhares de cursos para orientar o seu sistema universitário para os setores que considera estratégicos. A comparação com a Europa obriga a colocar uma pergunta tão desafiante quanto inevitável: terá o Processo de Bolonha fracassado nas nossas universidades? Eu digo que sim.

De tempos a tempos surge um título nos media destinado a provocar uma mistura de alarme e fascínio: «A China elimina doze mil cursos universitários.» O leitor conclui que um país assim decidiu sacrificar as humanidades no altar da inteligência artificial e transformar a universidade numa imensa escola de tecnologias desumanizadas. No entanto, a realidade é um pouco mais complexa do que sugere a notícia e bastante mais interessante.

A China não está a destruir o seu sistema universitário; está a reorganizá-lo numa perspetiva industrial. Entre 2021 e 2025, substituiu milhares de programas de licenciatura e criou outros tantos orientados para setores considerados estratégicos.

Não se trata simplesmente de encerrar cursos, mas de os substituir por outros. A diferença é fundamental, porque revela uma conceção de universidade que, na Europa, parece impossível de defender: uma instituição de ensino superior deve responder às necessidades do presente e às previsões do futuro.

A China obriga-nos a colocar pelo menos três perguntas, às quais, por cá, só conseguimos responder com um tabu:

  1. É compatível o modelo europeu de universidade com a realidade do século XXI? Na sua maioria, não.
  2. Pode a Europa levar a cabo, de forma competitiva, uma reforma universitária comparável à da China? De maneira nenhuma.
  3. E a pergunta de um milhão: a reforma universitária de Bolonha foi um fracasso? Sem dúvida.

Esta última questão é a mais grave de todas, porque revela um facto que nenhuma geração está disposta a reconhecer, exceto a dos nascidos no século XXI. Estes jovens, quando têm de escolher entre a universidade e o ensino profissional, optam maioritariamente por este último, porque consideram a universidade atual dececionante. Hoje, é um segredo de Polichinelo que o famoso «Processo de Bolonha» foi um fracasso.

No século XXI, o monopólio do conhecimento pertence à internet, e não à universidade. Durante décadas, pelo menos em teoria, a universidade investigava, transmitia conhecimento e formava as gerações que viriam a integrar as profissões mais qualificadas. Hoje, esses objetivos são cumpridos de forma mais eficaz por outras instituições. Neste contexto, a universidade perdeu o controlo do conhecimento. A internet substituiu-a e absorveu esse papel de forma insuperável. As salas de aula estão vazias, enquanto as redes sociais estão sobrelotadas. As empresas e o mercado completaram o processo.

O comércio e as suas leis impõem à universidade um ritmo impossível de acompanhar nas salas de aula e nos laboratórios académicos. A ciência está na empresa e no mercado, não nas salas de aula.

A revolução digital, a inteligência artificial e a aceleração tecnológica alteraram profundamente a relação entre conhecimento e trabalho, ou seja, entre a universidade e a empresa. Setores profissionais inteiros reinventam-se em poucos meses, enquanto os sucessivos planos de estudos universitários são modificados com uma lentidão desesperante, dando origem a novos planos ainda mais ineficazes do que os anteriores.

Quando um curso consegue adaptar-se a uma inovação tecnológica, essa inovação já desapareceu ou foi substituída por outra. No entanto, a estratégia silenciosa de Pequim é desmesurada e não tem precedentes.

Assim sendo, a China optou por intervir diretamente na estrutura universitária. Pode discutir-se se as suas decisões são acertadas ou não, mas existe, pelo menos, uma estratégia reconhecível. Não se limita a anunciar grandes princípios nem a produzir reformas administrativas. A China é um país muito silencioso, enquanto a Europa é um continente ensurdecido e narcisista. O velho continente apresenta um panorama muito diferente do chinês.

Aqui, a universidade parece ter-se habituado a viver numa reforma permanente que raramente enfrenta os problemas reais, entretida, como está, na busca da felicidade — desde o ensino básico as crianças são educadas para serem felizes —, na confirmação de sucessivas ideologias, na captação de reformados cuja presença nas aulas substitui a ausência, nas salas de aula, das gerações verdadeiramente jovens, na certificação pública de espaços livres do politicamente incorreto e na demonstração, perante o seu Deus e perante a História, de que as nossas Faculdades ocupam o lugar ideologicamente correto da democracia e da Agenda 2030, ainda que esse lugar seja cientificamente irrelevante para uma globalização que termina onde começa o poder mundial hegemónico da República Popular da China.

Em síntese: a universidade europeia está encantada consigo mesma, como Narciso diante do espelho. Mas o espelho está partido e Narciso não o sabe, porque a sombra do idealismo alemão é, além de muito longa, extremamente míope.

Não é que a universidade não saiba o que fazer com a inteligência artificial. É que não sabe o que fazer com coisa nenhuma. E aquilo com que menos sabe lidar é com os seus melhores professores e alunos. São precisamente esses que, de dia para dia, contam cada vez menos numa universidade que, essencialmente, só pensa em como aprovar legalmente os que reprovam, para que se diplomem sem que isso conste nas estatísticas do insucesso académico.

No entanto, a vida não é uma miragem. A realidade universitária não é um sonho, mas um período da tua biografia em que está em jogo, por vezes de forma definitiva, o teu futuro.

Mudam os procedimentos de avaliação, multiplicam-se os indicadores, elaboram-se novos documentos estratégicos e surgem terminologias e promessas sucessivamente renovadas. No entanto, a questão decisiva continua sem resposta: de que conhecimentos necessita realmente a sociedade do século XXI e como é que deve a universidade organizá-los, se é que ainda o pode fazer?

Esta situação obriga a pensar em novas formas de organização cultural e científica. Fundações, centros independentes de investigação, projetos editoriais e instituições especializadas podem tornar-se espaços capazes de desenvolver tarefas que a universidade desempenhou durante décadas e que hoje, por incapacidade própria, parece abandonar progressivamente, sendo a alma mater devorada por um mercado que ama mais o dinheiro do que o próximo e privilegia o benefício próprio em detrimento do serviço público.

 

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O autor: Jesús G. Maestro [1967 – ] é um professor catedrático espanhol especializado na Teoría de la Literatura y Literatura Comparada na Universidade de Vigo, que trabalhou como teórico e crítico da literatura e como editor e tradutor. Jesús González Maestro é um académico, teórico literário e professor espanhol de Literatura Comparada na Universidade de Vigo. A sua obra sobre literatura é considerada uma das mais prolíficas do século XXI. Licenciou-se na Universidade de Oviedo entre 1985 e 1990, tendo defendido a sua tese de doutoramento em 1993. É autor de três obras de referência: Crítica de la razón literaria (2017-2025, 25 vols.), Ensayo sobre el fracaso histórico de la democracia en el siglo XXI (2024) e Una filosofía para sobrevivir en el siglo XXI (2025). Recentemente publicou El fracaso de la felicidad (2026) e Fronteras invisibles. La nueva desigualdad en la era de la globalización (2026).

 

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