POEMA – por Adão Cruz

POEMA

por Adão Cruz

 

 

Pintura de Adão Cruz

 

 

(No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida).

(Eugénio de Andrade)

 

Não sei o que há nestes dois versos

não sei se há palavras a mais ou a menos

não sei se há palavras velhas

ou palavras novas

nem sei se há palavras.

Sinto que não há palavras

e se há…

são palavras únicas

verdadeiras

puras

nuas

verticais

palavras fio-de-prumo.

Estes dois versos

com palavras ou sem palavras

palavras velhas ou novas

batem vivo o coração da poesia.

Por eu tanto ansiar que um dia

me ofereçam uma caixa de palavras novas

palavras em versos

de versos sem palavras

aqui deixo o meu sonho

a minha ilusão.

Mesmo gastas

as palavras são olhos de céu e mar

as palavras são fios de horizonte

as palavras são bonitas

são bonitas as palavras ditas e não ditas.

São de vida as palavras

por dentro e por fora

mesmo as palavras malditas.

São precisas as palavras

para os versos sem palavras

são precisos os versos

para falar com a paisagem

da poesia de Grieg

numa Canção de Solveig

ou da melodia de Smetana

nas ondulações do Moldava.

Mesmo gastas

mesmo dolentes

ainda têm olhos e lábios

as palavras presentes.

Eu acredito nas palavras gastas

puídas

sem cor

se nos dão a tangência da música

e acendem as noites com olhos de fora.

Não matem as palavras

gastas e velhas

assim sem mais nem menos.

Não deitem fora as palavras velhas e gastas

até que me ofereçam

no dia em que ficar mudo

uma caixa de palavras novas.

 

 

 

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