Liberdade, Mulher de Abril 2 – por Carlos Pereira Martins

Liberdade, Mulher de Abril 2

por Carlos Pereira Martins

A Mulher de Abril não precisa de ter um nome. Tem todos os de muitas Mulheres. E, ao mesmo tempo, não precisa de nenhum. O seu verdadeiro nome habita a memória colectiva de um povo que, numa madrugada luminosa, ousou transformar o medo em esperança e o silêncio em palavra.

Os seus nomes vivem nas nossas recordações mais vivas, mais presentes e mais profundas. São os nomes que cada um de nós transporta consigo, preenchendo o imaginário de Abril, esse tempo que não pertence apenas ao calendário, mas à consciência de um país que decidiu romper, de uma vez por todas, com quarenta e oito anos de opressão, censura, repressão e ausência de liberdade. Abril não foi apenas um dia. Foi um princípio. E continua a ser um futuro por cumprir.

A Mulher de Abril é a soma de milhares de mulheres. Tem o rosto de Beatriz Ângelo, pioneira do direito de voto; a coragem de Catarina Eufémia, cuja morte se tornou símbolo da resistência à injustiça; a inteligência e a determinação de Maria Lamas, que deu voz às mulheres portuguesas quando quase ninguém as escutava; a irreverência luminosa de Natália Correia, que fez da palavra um acto de combate; a ousadia de Antónia Palla, que enfrentou preconceitos e silêncios; o exemplo de Elvira Fortunato, que demonstra como o conhecimento e a ciência também são caminhos de liberdade. E tem ainda Sofia — tantas Sofias anónimas ou conhecidas — como metáfora de todas aquelas que, sem procurarem o protagonismo, escreveram Abril com gestos discretos e coragem quotidiana.

Mas seria injusto limitar a Mulher de Abril aos nomes que a História registou. Ela existe também na operária, na camponesa, na professora, na enfermeira, na estudante, na jornalista, na artista, na mãe, na filha, na avó. Existe na mulher que resistiu em silêncio, na que enfrentou a prisão, na que sofreu a censura, na que educou para a liberdade antes mesmo de ela existir. São milhares. Talvez milhões. E todas contribuíram para que Portugal pudesse respirar um ar novo.

A liberdade, porém, não se conserva apenas pela evocação. Alimenta-se pela transmissão da memória. É por isso que a peça “Mulher de Abril”, levada à cena pela A Barraca, sob a direcção e com a extraordinária interpretação de Maria do Céu Guerra, ultrapassa largamente a dimensão de um espectáculo teatral. É uma verdadeira aula de cidadania, um exercício de memória colectiva e uma celebração da dignidade humana.

Esta obra não pode permanecer confinada ao Largo de Santos, onde encontrou palco e público. Tem de percorrer o país. Tem de entrar nas escolas, nos liceus, nas universidades, nos auditórios, nas bibliotecas, nas colectividades, nos teatros municipais e nas aldeias. Deve chegar aos jovens, para que compreendam que a liberdade nunca foi uma herança gratuita, mas uma conquista feita de sacrifícios, de lágrimas e de esperança. Deve igualmente alcançar todas as gerações, porque a memória só permanece viva quando é partilhada.

Cada representação é uma semente lançada à terra fértil da democracia. Cada espectador que dela sai transporta consigo um pouco mais da responsabilidade de preservar Abril e os seus valores fundadores: a liberdade, a fraternidade e a igualdade. Valores que não pertencem ao passado; pertencem ao futuro.

Maria do Céu Guerra oferece-nos, uma vez mais, uma obra-prima. Fá-lo com a paixão, a inteligência e a autenticidade que marcaram toda a sua vida artística e cívica. O teatro português fica-lhe profundamente devedor, como lhe fica devedor o país. O seu percurso inscreve-se entre aqueles raros criadores que transformam a arte em património moral de uma nação.

Tive o privilégio de viver esta noite de muito perto.

Cheguei ao Largo de Santos ainda antes das sete da tarde. O calor fazia-se sentir, mas o ambiente respirava serenidade e expectativa. Jantei, numa cervejaria à beira do passeio, com Hélder Costa e com quem, diariamente, dele cuida com uma dedicação tão discreta quanto admirável. Mesmo ali ao lado, numa mesa vizinha, petiscava boa parte do elenco de A Barraca, numa descontração que precede sempre os grandes momentos. A Inês, incansável, desdobrava-se em tudo o que faz uma casa de teatro funcionar como um organismo vivo: da organização administrativa à bilheteira, da logística aos pequenos pormenores que o público nunca vê, mas sem os quais o espectáculo nunca aconteceria.

Faltava apenas Maria do Céu Guerra para, como de costume, nos acompanhar à mesa. Recolheu directamente ao camarim. Conhecendo-lhe o rigor, percebeu-se que não desistia  de mais um retoque, de mais uma inflexão da palavra ou do gesto, numa permanente procura da excelência. E conseguiu-a. Tocou, uma vez mais, a perfeição possível que apenas os grandes artistas sabem perseguir.

As Mulheres invocadas no espectáculo

Entrámos na sala só nós, os que, com humor, poderíamos designar por “os inválidos do comércio” daquela casa. O Hélder, na sua cadeira de rodas; eu próprio, ainda com o ombro fracturado, ali mesmo, passados quase cinco meses de um acidente que continua a recordar-me, todos os dias, os limites do corpo. Mas havia uma força maior do que qualquer limitação física: a vontade de assistir àquela celebração de Abril. No palco, faziam-se aquecimentos de corpos e vozes.

Pouco depois abriram-se as portas e entrou o público. Um público diverso, como deve ser o povo quando se reúne em torno da cultura: gente de todas as idades, de todas as condições sociais e profissionais, anónimos e figuras bem conhecidas da política, das artes, da cultura e dos ecrãs da televisão. Todos iguais perante o palco. Todos convocados pela mesma razão: celebrar a liberdade.

No final, as longas palmas ecoaram pela sala. Foram calorosas, sinceras e inteiramente merecidas. Ainda assim, para muitos, não bastaram. Muitos permaneceram à espera dos actores. Havia necessidade de transformar o aplauso numa palavra dita frente a frente, num abraço sentido, num beijo de gratidão. Porque há emoções que apenas o contacto humano consegue transmitir.

Foi mais uma grande noite naquele Bairro de Santos, onde Abril continua a encontrar casa. Quanto a mim, diverti-me como sempre atrás da objectiva da minha máquina fotográfica. O óculo revelava-me enquadramentos, expressões, olhares e cumplicidades que eu ia aproximando e compondo, procurando fixar em imagens aquilo que a memória, por mais fiel que seja, um dia inevitavelmente esbate.

Enquanto houver teatro assim, enquanto houver artistas desta dimensão, enquanto houver mulheres que continuem a lembrar-nos que a liberdade nunca está definitivamente conquistada, Abril continuará vivo.

Porque a Mulher de Abril não tem um único nome.

Tem o nome de todas as mulheres que fizeram e continuam a fazer de Portugal um país mais livre, mais justo e mais fraterno.

Viva Abril!

Vivam as Mulheres de todos os Anos e de todos os Meses que Abril tem!

XXX – XXX

Nota do Editor:

Liberdade, Mulher de Abril 2 é o título do espectáculo que no dia 31 de Julho estreou a Companhia de Teatro A Barraca, de Maria do Céu Guerra, que foi responsável pela encenação, sendo também uma das intérpretes.
No final do espectáculo, logo pensei que teria de dar conta do acontecimento – sim, do acontecimento! – n’aviagemdosargonautras.net.
Hoje fui surpreendido pelo texto do Carlos Pereira Martins – naturalmente preocupado com os meus muitos afazeres! -, que me poupa trabalho.
Subscrevo as suas palavras, mas não posso deixar de salientar o desempenho genial da minha querida amiga Maria do Céu Guerra, o que não constitui surpresa para mim e naturalmente para quem habitualmente assiste aos seus desempenhos, sobretudo, neste espectáculo, quando dá voz à escultora e ceramista popular Liberdade Sobral, de quem nem sequer na Wikipédia se encontra referência, como se apenas Rosa Ramalho, cuja genialidade não nego, existisse na arte de saber moldar o barro.

Maria do Céu Guerra a dar voz a Liberdade Sobral
(fotografia de Carlos Pereira Martins)
Mas o espectáculo de A Barraca não tem apenas o nome de Liberdade no seu título, todo o espectáculo é um hino à Liberdade conquistada no 25 de Abril, liberdade essa que está em perigo, perigo este a que a generalidade dos portugueses parece indiferente.
Vão ver o espectáculo e juntem-se à Barraca na luta por essa liberdade que os Capitães de Abril nos ofereceram e que temos de demonstrar sermos dignos dela.
AGM

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