(Continuação do texto anterior)
E a nuvem, muitas nuvens fazerem um céu imenso de indignação provocando a revolta, a mudança.
Onde está a magia da vida? No tiro que um polícia disparou fatalmente sobre um jovem, na exclusão de todos os que incomodam, nos sem abrigo, nas crianças de rua, nos colégios de reinserção social, nos desacatos entre as claques de futebol?
Não é preciso inventar muito, é preciso tempo para reflectir, querer a mudança com a mesma energia com que se quis a Revolução dos Cravos.
Abril não trouxe a exclusão, não trouxe a resignação, não trouxe o medo de existir, trouxe, isso sim, a alegria da vida, o respeito por todos, todos foram convidados para a festa. Trouxe o querer resolver os problemas sociais com os parceiros envolvidos. Trouxe o desejo de sermos mais felizes, de termos direito à magia feita com varinhas mágicas de responsabilidade, justiça e liberdade.
Não quebrem as nossas frágeis varinhas mágicas, não envenenem os nossos pós de prelimpimpim, feitos com as vidas de lutadores corajosos!
Faço minhas as palavras do professor Daniel Sampaio, “É preciso partir logo para a acção” com a constituição de comissões anti-bullying (CAB) constituída por professores, alunos, pais e auxiliares. “Dá trabalho, mas é o único caminho.” Sabemos que é preciso coragem para irromper neste ambiente de resignação e de culpabilização do outro.
Este é um grande desafio para filhos e pais do 25 de Abril! Chega de silêncios, chega de atirarmos para os olhos dos outros as nossas próprias violências!
Toda esta minha reflexão, mais do que ser centrada na Escola, foi pensada nos meninos e meninas que conheci vítimas de violência no seio da família, vítimas de violência na rua, vítima dos colegas nas escolas.
Foi pensada na Escola que se tem batido invisivelmente pela denúncia, em tribunais, das violências de que são alvo os seus alunos, na Escola que acredita que não é no abandono da rua que as crianças aprendem as regras sociais, que não é castigando os pais com a privação dos subsídios que saberão educar os filhos, que não é no medo que se aprende a ser pessoa.
Que revolta tenho ao saber que as vítimas, sejam elas quais forem, adultos ou crianças, têm apenas a voz do silêncio.
Mas cuidado porque o silêncio pode abrir brechas e deixar sair a razão esmagada do sofrimento abafado, em forma de tragédia ou de mudança… por isso temos a obrigação de “… partir logo para a acção.”
Como dizia Sophia de Mello Breyner Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.
Sim é verdade, já lemos, já ouvimos muitas vezes, mas também já ignoramos outras tantas.

