Nota prévia
Sobre a contagem do número de mortos na Faixa de Gaza remetemos para a nota de editor sobre o artigo que publicámos em 17 de Agosto de 2025 e em que dizíamos nomeadamente o seguinte:
Em artigo publicado pelo Deutsche Welle em 3 de julho último (ver aqui), Sarah Judith Hofmann – editora no DW e Chefe da equipa consultiva sobre anti-semitismo, vida judaica, Israel e Territórios Palestinianos – relata que, de acordo com uma pesquisa conduzida pelo economista Michael Spagat (Royal Holloway College, Londres), o número de mortos é 65% maior do que o anunciado oficialmente. Segundo a pesquisa, entre outubro de 2023 e janeiro de 2025, mais de 80.000 palestinianos haviam sido mortos (mortes diretas), 30% dos quais crianças e adolescentes ! Segundo a jornalista, extrapolando até hoje (assinale-se que o artigo é de 3 de julho de 2025) “chegaríamos rapidamente a 100 mil mortos. Um número difícil de imaginar, por trás do qual estão os nomes e as histórias de pessoas”.
Cerca de um ano depois, o presente artigo da jornalista Claudia Carpinella vem lembrar-nos que as estatísticas oficiais subestimam a verdadeira e dolorosa realidade e, pior ainda, os meios de comunicação social fazem silêncio sobre o assunto, como se “parar de contar fosse suficiente para fazê-los desaparecer”, aos mortos.
FT
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Seleção e tradução de Francisco Tavares
4 min de leitura
Quando é que parámos de contar os mortos em Gaza?
Publicado por
em 4 de Agosto de 2026 (original aqui)
O verdadeiro número de mortos em Gaza continua a ser uma questão sem resposta. Enquanto a contagem oficial é tomada como o número final, milhares de vítimas sob os escombros, morrendo de fome, doença ou colapso do sistema sanitário permanecem fora da narrativa pública. Já ninguém parece questionar o número real de mortos do genocídio.
Quando é que parámos exactamente de contar os mortos em Gaza? Desde a entrada em vigor do chamado “cessar-fogo”? De facto, não se trata de uma verdadeira trégua porque, apesar das contínuas actualizações do “Conselho da Paz” fantasma de Trump, na Faixa continua a matar-se. Menos do que antes, mas sempre de forma sistemática. A este propósito, o título de um artigo do Haaretz detalha: “Uma criança por dia: a Força Aérea israelita continua a matar regularmente crianças em Gaza“. Não é uma fórmula de efeito: é uma contagem real trágica. Em 23 de julho, o número de crianças mortas desde outubro de 2025, quando a trégua começou, era de 282. É a posologia do genocídio lento, desaparecido dos meios de comunicação social, mas não da vida dos palestinianos.
Ver aqui
No momento em que este artigo foi escrito, o número de crianças mortas durante o cessar-fogo, interpretado por Israel no modo negligente, já aumentou. Com efeito, só no dia 30 de julho, Israel bombardeou algumas tendas na Faixa, matando quatro pessoas: duas eram crianças, oito anos e apenas dezoito meses. A trágica contagem descrita pelo Haaretz não só continuou, mas esse dia até duplicou.
Julho foi o mês mais mortífero desde a “trégua”
Na comunicação social italiana, não há qualquer vestígio de factos posteriores que indiquem a situação real em Gaza. Em outros lugares, sim. O Haaretz escreve que “Julho foi o mês mais mortal desde o início da trégua, com pelo menos 152 mortos“. Entre eles, 21 crianças, 14 mulheres e quatro idosos.
E, precisamente quando corria a notícia de um possível acordo no âmbito do chamado Conselho de Paz — o nó central continua a ser o desarmamento do Hamas — Gaza vivia outro Domingo sangrento. Em 2 de agosto, o exército israelita matou 17 palestinos num único dia, incluindo várias crianças.
É impossível não ligar este surto às negociações em curso, que nos últimos dias registaram um ponto de viragem, com o Hamas a declarar que está pronto a desarmar, o que aconteceria uma vez instalado o governo tecnocrático palestiniano, expressão do Conselho de paz, cuja implantação deverá conduzir à retirada israelita da Faixa.
Telavive, tendo há muito obstaculizado a implantação do governo em questão, aceitou-o finalmente formalmente sob pressão estado-unidense, daí a aceleração. Mas as mortes dos últimos dias e as declarações de políticos e funcionários israelitas que se opõem ao Acordo, bem como declarações mais explícitas do Ministro das Finanças, Bezalel Smotric, que repetiu o mantra da inevitabilidade do repovoamento israelita em Gaza, deixam claro quão frágeis são aqueles desenvolvimentos.
Não foram somente os civis que se viram afetados nestes dias sangrentos, mas também as poucas e preciosas instalações sanitárias que ainda se conservam de pé. No Sábado, 1 de agosto, Israel bombardeou os armazéns do hospital Al Aqsa, em Deir el Balah, no centro da Faixa. Aí se mantinham materiais essenciais, incluindo os necessários aos doentes com insuficiência renal submetidos a diálise.
O exército israelita justificou este último ataque também com a ladainha habitual: os locais afectados seriam utilizados pelo Hamas como depósitos de armas. Nada de novo na frente de Gaza.
Os mortos debaixo dos escombros
O número oficial de mortos em Gaza é de 73.349, pelo menos no momento em que escrevemos este artigo. Um facto que, em janeiro passado, também foi reconhecido pelo exército israelita após dois anos em que tinha sistematicamente contestado a dimensão da carnificina. Já esta admissão seria suficiente para deixar claro que se trata de um número inevitavelmente subestimado.
Uma admissão tardia, número que muitos fizeram descer com medo de que surgisse um número maior.
Este número, de facto, tem em conta apenas as vítimas identificadas e mortas de forma directa: pessoas que morreram nos atentados, atingidas por franco-atiradores ou mortas em consequência dos seus ferimentos. Não abarca, de facto, quantos ainda estão sob as imensas extensões de escombros da Faixa.
Só no sábado 1 de Agosto, as autoridades de Gaza recuperaram os restos mortais de 112 pessoas. Depois de mais de 136 horas de escavações realizadas em grande parte com as próprias mãos — Israel continua a impedir a entrada de escavadoras destinadas à remoção de entulho, necessárias para recuperar cadáveres — foram desenterrados os corpos de pessoas mortas há mais de dois anos.
O New Arab escreve: “entre os miseráveis restos mortais, os de 40 crianças, 38 mulheres e sete pessoas com deficiência física”.
Ali mesmo, no bairro de Sabra, ao sul da cidade de Gaza, acredita-se que estejam enterrados os restos mortais de outras 156 pessoas que desapareceram durante os bombardeamentos que arrasaram várias casas no bairro. É por isso que a Proteção Civil Palestiniana continua a cavar: devolver os corpos dos seus entes queridos aos sobreviventes e permitir-lhes um um enterro digno.
As mortes indiretas que já ninguém contabiliza
Voltemos a esse número: 73.349. Porque não leva em conta todas as pessoas que morreram não sob bombas, mas por causa das consequências da guerra: fome, frio, epidemias, doenças que agora são incuráveis devido à destruição do sistema de saúde.
Depois, há outro elemento, explicado pelo Professor Michael Spagat, um dos maiores especialistas mundiais em mortalidade por conflitos. Diz no Haaretz: “Em muitos casos, as famílias simplesmente enterraram os seus entes queridos sem relatar oficialmente ao Ministério da Saúde. Algumas famílias não querem fazê-lo, outras não conseguem fazê-lo. Talvez os pais morram e apenas uma criança de oito anos permaneça. Como pode isso ser denunciado?”
O facto de a contagem oficial estar subestimada já tinha sido salientado há muito tempo. O The Lancet escreveu já em julho de 2024, reiterando-o em janeiro de 2025, que os dados do Ministério da Saúde de Gaza foram provavelmente subestimados em cerca de 40%. O estudo abalou o mundo, ainda que brevemente. Prova de que em todas as guerras parece haver números “aceitáveis” e outros não.
Já em outubro de 2024, numa carta assinada por 99 médicos estado-unidenses e enviada ao então presidente Biden, se estimava que as vítimas fossem mais de 119.000.
Um ano depois, o Haaretz publicaria o estudo de Michael Spagat, segundo o qual era plausível que o número real de vítimas já tivesse ultrapassado os 100.000.
Desde então, porém, não se tem falado do número real de mortos em Gaza. Ninguém parece perguntar-se sobre o que aconteceu com as milhares de vítimas que não aparecem nas contagens oficiais. Como se parar de contar fosse suficiente para fazê-los desaparecer.
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A autora: Claudia Carpinella é jornalista. Licenciada em Humanidades pela Universidade de Roma Tre.




