Seleção e tradução de Francisco Tavares
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O chamado paradoxo do Peru
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em 15 de Agosto de 2026 (original aqui)

A eleição de Keiko Fujimori dá poder a um regime de crescimento extractivo
Em 28 de julho, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador do Peru Alberto Fujimori, foi empossada como a nova presidente do país. Depois de três tentativas anteriores fracassadas, Fujimori conseguiu prometer pôr fim a uma década de crises intensas na política peruana: ela será a décima presidente a servir nos últimos dez anos no Peru devido a uma série de destituições, demissões no meio de escândalos de corrupção e coligações partidárias frágeis. Ela venceu a eleição na segunda volta com 50,13% dos votos válidos — a margem mais baixa de sempre para uma eleição presidencial.
A instabilidade política do país coexistiu há muito tempo com uma surpreendente estabilidade macroeconómica: inflação consistentemente baixa e uma moeda sólida. Este contraste entre política e economia é amplamente referido como o “paradoxo” da economia política peruana. É atribuído, tanto a nível nacional como internacional, à tecnocracia eficiente do país, particularmente ao seu antigo presidente do Banco central, Julio Velarde, e à sua gestão destemida da política monetária do país. Com promessas de estabilizar a política partidária e garantir a segurança macroeconómica através da reeleição de Velarde, Fujimori apresentou-se como a única capaz de pôr fim ao paradoxo de décadas.
A hipocrisia destas alegações é evidente. Desde 2016, Fujimori e o seu partido de direita, o Fuerza Popular, desenvolveram uma parte significativa desse caos político trabalhando consistentemente para obstruir os governos. Em 2022, o Fuerza popular conspirou com o Congresso para destituir o presidente de esquerda Pedro Castillo em favor da vice-presidente de Castillo, Dina Boluarte, que reprimiu mortalmente os grandes protestos que se seguiram após a destituição a a prisão de Castillo [1]. O governo de Boluarte, ilegítimo e impopular, honrou a sua aliança com o Fuerza Popular ao instituir três dias de luto nacional pela morte de Alberto Fujimori, que foi condenado a vinte e cinco anos de prisão por abuso dos Direitos Humanos e corrupção, mas perdoado por motivos humanitários em 2017.
Além disso, o próprio enquadramento do paradoxo peruano interpreta mal a relação entre as esferas política e económica do país: o declínio político e democrático do Peru está, de facto, intimamente relacionado com o seu status quo macroeconómico. Desde a introdução da Constituição do País de 1993, um modelo de crescimento centrado nas exportações de matérias-primas extractivas — particularmente as exportações de minerais — tem gerado consistentemente conflitos sociais e ambientais, ao mesmo tempo que pouco faz para reduzir as desigualdades territoriais e urbanas, superar a informalidade ou eliminar a pobreza de forma duradoura. Este modelo fundamenta-se na necessidade de obter Investimento Directo Estrangeiro constante (IDE) e de uma grande acumulação de reservas externas, o que reforça ainda mais as indústrias extractivas e enfraquece motores alternativos de investimento.
A economia do Peru do século XXI conseguiu evitar persistentemente o tipo de crises económicas que assolaram países vizinhos como a Venezuela, a Bolívia e a Argentina, os quais, por várias razões, sofreram ajustamentos na balança de pagamentos que levaram a uma inflação mais elevada e a recessões. Mas estabilizar a inflação não equivale a uma agenda de desenvolvimento forte. O isolamento do banco central, o Banco Central de Reserva do Peru (BCRP), do escrutínio, juntamente com a reverência dada ao seu líder, corrói oportunidades de debate democrático sobre as perspectivas de um desenvolvimento mais inclusivo. Na sua ausência, o Estado recorre à força para enfrentar a crescente agitação.
Milagre económico ?
O Peru foi um retardatário da industrialização. Até à década de 1960, a sua poderosa oligarquia fundiária de longa data e estava atravessada no caminho da reforma estrutural. Então, em 1968, um governo militar liderado por Juan Velasco Alvarado assumiu o poder e procurou redistribuir terras e promover a industrialização. Realizou uma série de reformas agrícolas e nacionalizações sectoriais, como a expropriação das participações da International Petroleum Company, subsidiária da Standard Oil de New Jersey. Durante um punhado de anos, os líderes peruanos tentaram remodelar a agricultura e a indústria de tal forma que o poder fosse transferido para cooperativas participativas que incorporassem as populações indígenas rurais historicamente esquecidas e abusadas [2].
Esta forma peculiar de capitalismo de Estado rapidamente atingiu os seus limites. O impulso da industrialização do país não foi capaz de superar formas arraigadas de dependência económica, nomeadamente a dependência da importação de bens de capital e a procura de dólares. Além disso, o Estado peruano não tinha capacidade e mandato político para alterar estruturalmente a dinâmica de acumulação. Uma forte pressão política por parte do governo e dos militares acabou por pôr termo a estas ambições de desenvolvimento.
Começando no final da década de 1970, e especialmente após o choque Volcker de 1979 [n.t. forte alta das taxas de juros nos Estados Unidos], o Peru foi atingido por sucessivas crises da balança de pagamentos, intervenções do FMI e experimentação de políticas por governos democráticos de direita e esquerda. Os programas de choque ortodoxos e heterodoxos, bem como alternativas gradualistas, não conseguiram conduzir a economia do país a um caminho de crescimento sustentável e desenvolvimento industrial. As crises foram agravadas pela grande migração interna rural para as zonas urbanas que estava a aumentar a mão-de-obra informal subempregada nas cidades. Uma investida de violentos ataques do grupo guerrilheiro maoista Sendero Luminoso e a suja contra-guerra do Estado peruano na década de 1980 resultaram em quase setenta mil mortes, em grande parte em comunidades camponesas. A “década perdida” da dívida e da hiperinflação assumiu uma forma especialmente brutal no contexto peruano.
Alberto Fujimori foi eleito em 1990 numa plataforma que rejeitava políticas neoliberais, mas mudou de rumo mesmo antes da sua posse. O chamado “Fujichoque” — uma súbita revogação dos subsídios e dos controlos de preços, bem como a instituição de uma taxa de câmbio flutuante que fez com que o essencial do dia-a-dia duplicasse ou triplicasse de preço de um dia para outro — foi seguido por profundas reformas estruturais, privatizações e o desmantelamento geral do aparelho estatal de desenvolvimento, incluindo a eliminação do banco de desenvolvimento e dos gabinetes de planeamento. Sob o pretexto de combater a hiperinflação, Fujimori dissolveu o Congresso, destituiu o poder judicial e tomou o poder ditatorial com apoio militar. O que se seguiu foi uma campanha brutal de prisões e demissões que substituiu jornalistas, juízes e funcionários do governo por representantes do regime.
Em 1993, Fujimori propôs uma nova Constituição que foi aprovada por uma votação pública de 52%. Além de concentrar o poder político executivo, a Constituição consagrou um programa económico ao estilo Pinochet que proibia políticas discriminatórias contra o investimento estrangeiro e a imposição de controles cambiais. As actividades do Banco Central do Peru foram limitadas à manutenção da estabilidade de preços, sendo proibido o financiamento monetário.
Como uma economia pequena e subitamente abertan um mundo globalizado, a posição do Peru como exportador dependente de produtos básicos, particularmente de bens primários, tornou-se mais profundamente arraigada. Um novo código de exploração mineira reforçado pela Constituição de 1993 privatizou totalmente a indústria e concedeu aos investidores estrangeiros igual acesso à indústria que tinham os nacionais [3]. Um grande número de concessões constitucionalmente protegidas ofereceu às empresas mineiras nacionais e estrangeiras protecção contra a tributação. O cobre e outros metais passaram a representar mais de metade das exportações, com um mercado de exportação agrícola emergente a representar cerca de 15%.
As exportações do Perú assentam em bens primários, especialmente extração mineira (62%) – Quotas dos produtos exportados
As contas-padrão da economia política peruana posicionam as reformas constitucionais como a razão do milagre económico subsequente. De facto, entre 1990 e 1996, a inflação peruana caiu para um dígito, e os lucros das privatizações e as reformas fiscais reconstituíram a situação orçamental do país. No entanto, a realidade macroeconómica do país era complexa. O crescimento melhorou modestamente, mas foi volátil e situou-se, em média, em 1%. O Banco Central enfrentou um grave desafio em 1998, quando a Rússia deixou de pagar a sua dívida externa. O Peru tinha uma exposição significativa como resultado da sua abertura aos fluxos estrangeiros e da dolarização avançada pelas reformas da década de 1990, e o banco central não conseguiu impedir o início de uma crise bancária devido a incompatibilidades cambiais nos bancos peruanos. Os efeitos recessivos, agravados por catástrofes naturais como a do el Niño e o desaparecimento político do fujimorismo, duraram até 2001.
Principalmente, a crise de 1998 foi decisiva na definição dos mecanismos operacionais do Banco Central do Peru para as décadas seguintes, moderando algumas das reformas mais radicais de 1993. Na sequência, os funcionários à frente do BCRP, nomeadamente economistas de esquerda, introduziram um novo regime organizado em torno de políticas anticíclicas para resistir a tendências deflacionárias, a acumulação de reservas estrangeiras e a gestão tácita de uma taxa de câmbio flutuante. Subjacente a tudo isto esteve um impulso sustentado para a desdolarização — um esforço que se estendia muito para além do Banco central e, como explicou o ex-presidente interino do BCRP, Oscar Dancourt, numa entrevista, um esforço que exigia, em primeiro lugar, derrotar os que defendiam a adopção definitiva do dólar, como o Equador fez em 2000. Nenhuma destas características, nem a ideia fundamental de gerir a taxa de câmbio juntamente com a estabilidade de preços, estavam presentes na Lei Orgânica do banco central ou na constituição de 1993. Pelo contrário, faziam parte de um processo de aprendizagem criativa empreendido por um grupo plural de funcionários que reconheciam os riscos da financeirização subordinada. Mas, embora essa moderação do neoliberalismo tenha ajudado a manter a estabilidade, não alterou fundamentalmente a posição de dependência do país na economia global.
O verdadeiro “milagre” do crescimento viria no início do século XXI, depois de Fujimori ter renunciado em 2000, no meio de massivos protestos sobre um escândalo de corrupção e uma eleição amplamente considerada fraudulenta. Entre 2002 e 2013, o PIB do Peru cresceu em média 6%. A inflação manteve-se baixa e a moeda nacional valorizou-se devido às entradas de capital provenientes do boom das exportações do país. É importante ressaltar que o período também viu quedas notáveis nas taxas de desigualdade e pobreza — de 50% no final do governo de Fujimori para 20% em 2018 — devido a políticas sociais direcionadas, bem como aumento do emprego e acesso ao crédito [4].
Mas, acima de tudo, essas tendências positivas foram impulsionadas pelo boom dos produtos básicos dos anos 2000, que foi impulsionado pela procura em mercados emergentes (em particular, China) e ajudou as economias em toda a América Latina [5]. À medida que este superciclo terminou, a taxa de crescimento do Peru diminuiu com as taxas em todo o continente, passando da média de 6% dos anos 2000 para 3,5% em 2014, depois para escassos 1,8% nos anos após a Covid-19. Houve também uma profunda inversão das taxas de pobreza nos anos pós-pandemia: a Covid expôs a precariedade do progresso económico do Peru, dada a velocidade com que a segurança económica se evaporou para milhões de pessoas na economia informal. Embora a melhoria das condições de troca — superiores mesmo às do superciclo — resulte agora num crescimento previsto de 3,2 por cento, as consequências duradouras da guerra EUA–Israel contra o Irão, bem como a turbulência interna e a ameaça do pior El Niño este ano, ameaçam esta recuperação.
Os riscos do sucesso das exportações
As mesmas políticas macroeconómicas que geram crescimento no Peru também geram desigualdade e precariedade. Os economistas, nomeadamente Germán Alarco Tosoni e Félix Jiménez argumentam que o sucesso das exportações de bens primários provavelmente levou à doença holandesa – fluxos financeiros da indústria de mineração que provocam a apreciação da moeda, expulsam outras atividades de valor agregado e abrandam os motores internos para a procura agregada [6]. A valorização da moeda aumenta igualmente a procura de importações, uma vez que os substitutos nacionais são vítimas do processo de re-primarização, exercendo pressão sobre a balança comercial. Estes efeitos são mais evidentes na indústria transformadora. O crescimento experimentado durante a década de 1990 reverteu ativamente a industrialização incipiente das décadas anteriores, levando a uma mudança para a “desindustrialização prematura”, como argumentou Jiménez: a contribuição da manufatura para o crescimento económico caiu de 17,7% em 2003 para 6,4% em 2015.
Registaram-se também graves efeitos no sector agrícola tradicional. O regime de comércio aberto do país tornou os alimentos importados cada vez mais competitivos em relação aos produtos básicos produzidos internamente. Esta tendência é reforçada pela preferência dos sectores da restauração e da hotelaria por insumos padronizados e de menor custo, como as batatas importadas (apesar de o Peru ser o berço histórico da batata cultivada e ainda manter uma produção significativa de batata). Na ausência de uma intervenção activa das políticas públicas, a agricultura tradicional caminha para o declínio, ameaçando a segurança alimentar do país e o sustento de uma fracção significativa da população.
O crescimento económico do Peru fez do emprego informal uma característica essencial da economia do país. A mineração emprega poucos trabalhadores: o setor representa atualmente cerca de 9% do PIB e mais de 60% das exportações, mas dá emprego direto a menos de 2% da força de trabalho ativa. O sector dos serviços informais representa cerca de 70% da mão-de-obra activa, mas apenas 17% do PIB. Principalmente, a informalidade não se limita ao setor informal: aproximadamente um quinto dos trabalhadores informais está empregado em empresas formalmente registadas, revelando que mesmo o setor formal do país depende de mão-de-obra mais barata e não regulamentada. Este modelo preserva hierarquias regionais e desigualdades, gerando poucas ligações produtivas não extrativas entre as diferentes atividades económicas em todo o território [7].
Além disso, o superciclo dos produtos básicos que impulsionou a economia também fortaleceu os atores informais e ilegais que continuam a contestar o poder regulatório do Estado — desde aqueles que realizam a mineração informal até aos atores do tráfico de drogas que beneficiam do potencial de lavagem de dinheiro da extensa economia de serviços de Lima (a capital) [8]. Um estado fraco e limitado governa estes actores através da “não aplicação da lei”, da “tolerância” deliberada ou da cumplicidade total, tolerando-os devido à sua utilidade para a produção de emprego, como argumentaram estudiosos como Alisha Holland [9].
O regime económico aberto do Peru também introduz vulnerabilidades externas, não apenas na balança comercial, mas em toda a balança de pagamentos. O país depende do IDE para evitar quaisquer crises na balança de pagamentos. No entanto, estas entradas vêm com saídas financeiras súbitas e sistemáticas, dado que as condições favoráveis para garantir elevados retornos ao Investimento Estrangeiro, tais como normas regulamentares mais baixas, condições de arbitragem internacional e compromissos para uma saída de capital fácil garantida por grandes reservas internacionais, facilitam a repatriação de lucros. Os fluxos financeiros de curto prazo, em particular, estão sujeitos a uma volatilidade súbita. Os fluxos de IDE a mais longo prazo e a dependência das exportações geram riscos para a conta corrente do país, que é atormentada por um défice estrutural nos serviços e nos rendimentos primários. As exportações de bens e os investimentos em IDE dependem de serviços profissionais estrangeiros, como o transporte de mercadorias, os conhecimentos científicos e a consultadoria jurídica e financeira. Os rendimentos do IDE financiam, assim, em última análise, o endividamento externo crescente, tanto privado como público.
Peru: superávit comercial e défice do rendimento primário
Componentes da conta corrente, em milhares de milhões de dólares
Esta circulação de capitais não seria um problema se os fluxos de investimento fossem orientados para impulsionar a mudança técnica e estrutural e aumentar a complexidade da produção e das exportações do Peru [10]. Em vez disso, estes fluxos estão a consolidar ainda mais a re-primarização. Como dizem os estudiosos Samuele Bibi e Sebastian Valdecantos em termos minskyanos, o perfil das contas externas do Peru, quando os ventos de exportação são fracos, tem a forma de um esquema Ponzi insustentável.
Esta fraqueza estrutural é contrabalançada pelos baixos gastos públicos do país, uma grande mão-de-obra informal e de baixos salários, grandes fluxos de remessas de peruanos emigrados e as condições de troca favoráveis da cesta de exportação do Peru. As crises da balança de pagamentos são evitadas através de aumentos das taxas de juro que atraem capital estrangeiro, requisitos macroprudenciais (reservas) para controlar os fluxos financeiros estrangeiros quentes e a acumulação e gestão de reservas estrangeiras para intervir no mercado de câmbio aberto e dissuadir — sinalizando a capacidade de novas intervenções — ataques especulativos à moeda do Peru [11].
Peru: reservas cambiais
Reservas líquidas internacionais do banco central: em quota do PIB (linha e coluna à esquerda) e em milhares de milhões de dólares (área e coluna à direita)
De facto, as grandes reservas cambiais do BCRP tornaram-se uma peça central da estabilidade macroeconómica do Peru. A acumulação de reservas externas funciona como um seguro contra um mercado financeiro volátil que pode punir excessivamente economias com moeda em níveis mais baixos na hierarquia monetária, e é uma estratégia que tem sido utilizada por numerosas economias periféricas desde as instabilidades da década de 1990. No entanto, mesmo em comparação com outros países da América Latina, a acumulação de reservas do Peru é particularmente grande. Não só lidera em reservas externas como percentagem do PIB na América Latina na última década, como também ostenta o dobro da quantidade média de reservas do continente.
As grandes reservas externas conferem ao Peru algum grau de autonomia na política monetária, apesar das contas de capital abertas, permitindo ao Banco Central reduzir a volatilidade da taxa de câmbio e sinalizar aos mercados a disponibilidade de moedas líquidas, o que apazigua os investidores nervosos. Os seus custos de oportunidade são muito menos discutidos [12]. Ao desviar o capital dos investimentos domésticos produtivos, a acumulação de reservas prende o país à subordinação financeira dominada pelo dólar. Em vez de serem canalizados para projectos de desenvolvimento local, estes fundos são normalmente reciclados para o núcleo financeiro global: as reservas externas são predominantemente detidas em activos altamente líquidos e considerados seguros, como os títulos do Tesouro dos EUA. Um “medo de perder reservas” não restringe apenas a autonomia política, mas também estimula uma expansão cíclica da acumulação de reservas, a fim de garantir continuamente a confiança do mercado.
Democracia oca
Num recuo da promessa democrática de transformação social que trouxe a queda de Alberto Fujimori no início do milénio, a economia política do Peru viu estreitar os laços entre elites governantes, investidores estrangeiros e interesses comerciais domésticos que são mutuamente investidos nos setores extrativos de mineração, serviços públicos e agronegócio. Em contraste com a narrativa generalizada de que a instabilidade política do Peru é o resultado da incompetência (da qual a sua política macroeconómica está protegida), estas ligações sugerem que, como argumentou o falecido sociólogo peruano Francisco Durand, o fracasso das instituições políticas do Peru está directamente relacionado com a sua captura pelas empresas [13].
A expansão da mineração, dos serviços públicos e do agronegócio desencadeou a resistência popular e fortaleceu a capacidade repressiva do Estado. Em 2009, o governo do Peru emitiu decretos permitindo que empresas privadas explorassem recursos naturais em terras indígenas na Amazónia. Depois de os indígenas Awajun e Wampis terem bloqueado as auto-estradas na cidade de Bagua em protesto, o governo enviou a polícia, resultando na morte de pelo menos dez indígenas e vinte e três polícias, e mais de 150 feridos (testemunhas alegam que o número de mortes de civis foi subestimado). A força excessiva do governo e a consolidação do poder político e económico correm o risco de deteriorar ainda mais a infra-estrutura para o envolvimento político popular.
Esmagadoramente, a natureza extrativista da macroeconomia do Peru gerou o que Roger Merino chamou de um Estado cínico – um que pretensamente visa responder às preocupações sociais e ambientais da população, enquanto dilui as regulamentações em busca de IDE. Um excelente exemplo disso é a presidência de Ollanta Humala. Humala chegou ao poder em 2011 com uma agenda progressista, prometendo responder às queixas indígenas, mas sob pressão constante nos círculos da elite e nos media, ele nomeou figuras conservadoras para dirigir o Ministério das Finanças e o Banco central. Depois de seis meses, a maioria dos ministros de esquerda estava fora do gabinete, e o governo traiu as suas promessas de não impor indústrias extractivas às comunidades, reprimindo violentamente os protestos contra uma enorme mina de ouro em Cajamarca (protestos que acabaram por ser bem sucedidos).
Também se tornou cada vez mais evidente que o banco central tem menos autonomia tecnocrática do que é comumente retratado. Em 2021, a eleição de Castillo, um professor rural de esquerda, levou a uma saída massiva de capital de curto prazo que prejudicou a taxa de câmbio, atingindo o nível de quatro solas em relação ao dólar – o mais alto desde que a moeda foi introduzida em 1990. Como os observadores críticos argumentaram na época, o banco central tinha a capacidade de estabilizar a taxa de câmbio usando as suas grandes reservas, mas absteve-se de fazê-lo. Isso revelou – como alguns da esquerda argumentaram – uma tentativa de pressionar o novo governo a mudar o rumo político, ou limites à autonomia política criada com reservas acumuladas devido ao medo generalizado de perdê-las. De qualquer forma, a turbulência desestabilizou a já frágil coligação de esquerda em torno de Castillo.
Geralmente, os líderes de esquerda lutam para fazer incursões contra a proteção da elite pelas políticas do Banco Central. Quando, este ano, o candidato presidencial e ex-diretor do Banco Central, Alfonso Lopez Chau, propôs a criação de um fundo soberano, a ideia foi rejeitada como uma violação sacrílega das reservas externas suadas do Banco Central [14]. A reação que se seguiu obrigou Lopez Chau a comprometer-se a restabelecer Velarde se fosse eleito Presidente e a procurar a aprovação de Velarde para a sua política económica.
O novo governo de Fujimori está pronto para aprofundar as forças por trás do chamado paradoxo do Peru – o seu modelo de crescimento extrativista, liderado pelo IDE, e o enfraquecimento democrático que ele gera. No entanto, o seu forte controlo sobre as alavancas do poder estatal trará mudanças significativas. O seu partido tem defendido o aumento dos poderes repressivos do estado sob o pretexto de combater a insegurança e a criminalidade. Os seus seguidores aprovaram leis que concedem impunidade à polícia e às forças armadas que reprimem a dissidência, o que abre caminho para novos projetos extrativos. O sistema internacional de direitos humanos, que antes funcionava como um controle no passado, está agora comprometido, dada a mudança de extrema-direita do hemisfério liderada pelos EUA.
Rejeitar a separação entre política e política económica é essencial para desfazer o padrão. Só abrindo o espaço da deliberação económica é que se pode forjar uma nova agenda democrática de desenvolvimento.
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Notas
[1] Pedro Castillo anunciou uma dissolução inconstitucional do Congresso que levou à sua destituição e à sua prisão imediata, mas o Congresso e os actores de elite montaram uma campanha contra o seu governo mesmo antes de assumir o poder, que incluiu tentativas de derrubar a eleição, um bloqueio geral às reformas, ameaças constantes e um processo de destituição. Em 2026, o braço direito de Fujimori e o vice-presidente eleito, Miguel Torres, admitiram que o seu objetivo era (irregularmente) acabar com o governo de Castillo exercendo pressão constante.
[2] Ver Carlos Aguirre e Paulo Drinot, eds., A Revolução Peculiar: Repensando a Experiência Peruan sob o Regime Militar (Austin: University of Texas Press, 2017).
[3] Ver S. Gruber e J. C. Orihuela, “Deeply Rooted Grievance, Varying Meaning: The Institution of the Mining Canon,” in Resource Booms and Institutional Pathways: The Case of the Extractive Industry in Peru, ed. E. Dargent et al. (London: Palgrave Macmillan, 2017), 41–67.
[4] O emprego não era necessariamente de alta qualidade, e as altas taxas de juros limitavam os benefícios acumulados aos pequenos mutuários, o que significa que, embora muitos tenham saído da pobreza extrema, não obtiveram necessariamente padrões de vida razoáveis.
[5] Para uma comparação Latino Americana, ver José Antonio Ocampo e Luis Bértola, The Economic Development of Latin America since Independence (Oxford: Oxford University Press, 2013).
[6] Uma versão deste argumento que sublinha a ligação entre a política monetária e o desenvolvimento industrial foi recentemente reafirmada em Germán Alarco, Patricia del Hierro e Luis Rodrigo Díaz, Banca Central y Política Monetaria en Latinoamérica (Lima: Otra Mirada, 2026).
[7] Efrain Gonzalez de Olarte apresentou pontos de vista sobre a articulação setorial e espacial da economia do Peru em diversas obras. Um documento recente mede os diferenciais de produtividade no sector formal e informal com a ajuda de um quadro de input-output: “Informalidad, productividades e ingresos en el Perú: análisis sectorial”, documento de trabalho 546, Departamento de Economía, Pontificia Universidad Católica del Perú (PUCP), 2025.
[8] Ver Juan Pablo Luna, Andreas E. Feldmann e Eduardo Dargent, “Greater State Capacity, Lesser Stateness: Lessons from the Peruvian Commodity Boom,”, Politics & Society 45, no. 1 (2017): 3-34; e Zaraí Toledo Orozco, “Informal Gold Miners, State Fragmentation, and Resource Governance in Bolivia and Peru”, Latin American Politics and Society 64, No. 2 (2022): 45-66.
[9] Ver Alisha C. Holland, Forbearance as Redistribution: The Politics of Informal Welfare in Latin America (New York: Cambridge University Press, 2017); e Matías Dewey, Cornelia Woll e Lucas Ronconi, “The Political Economy of Law Enforcement”, documento de discussão MaxPo no. 21/1, Centro Max Planck Sciences Po sobre como lidar com a instabilidade nas sociedades de mercado, Paris, 2021.
[10] Para mais informações sobre a importância da mudança estrutural nas economias em desenvolvimento, ver Gabriel Porcile e Giuliano Toshiro Yajima, “New Structuralism and the Balance-of-Payments Constraint”, Review of Keynesian Economics 7, no. 4 (2019): 517-36.
[11] Ver Renzo Rossini, “La política monetaria del Banco Central de Reserva del Perú,” In Política y estabilidad monetaria en el Perú, ed. Gustavo Yamada e Diego Winkelried (Lima: Universidad del Pac, 2016).
[12] Por exemplo, a acumulação de reservas implica intervenções esterilizadas do banco central para reduzir a oferta monetária e manter a inflação sob controle. Há um debate aberto, mesmo na economia heterodoxa, sobre as vantagens ou desvantagens de tais operações. Para uma visão crítica, Eduardo Torijo-Zane argumentou que essas compras de câmbio esterilizadas (não raras nos países periféricos, mas marcadas no caso do Peru), carregam os balanços bancários com papéis de banco central sem risco e de alto rendimento. Os bancos negociantes primários enfrentam um incentivo persistente para manter os instrumentos BCRP sobre a extensão do crédito privado produtivo, comprimindo o apetite ao risco precisamente das instituições com a mais profunda capacidade de intermediação. Ver “Bancos Centrales ‘Periféricos’: El Caso de América Latina”, in Estructura produtiva y Política Macroeconómica. Enfoques Heterodoxos Desde América Latina. (CEPAL, 2015).
[13] Ver Francisco Durand, “El problema del fortalecimiento institucional empresarial”, In Construir instituciones: Democracia, desarrollo y desigualdad en el Perú, ed. John Crabtree (Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 2006); e John Crabtree e Francisco Durand, Élites del poder y captura política (Lima: Red para el Desarrollo de las Ciências Sociales en el Por (2017).
[14] Ironicamente, uma proposta muito semelhante foi articulada em 2025 por Jorge Baca-Campodonico, ex-ministro Alberto Fujimori e atual conselheiro de Keiko Fujimori.
O autor: Stephan Gruber é doutorado com a dissertação “Discipline and Promise: The Rise of Neoliberalism in Peru (1945–2000),” na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Duisburg-Essen e investigador sénior de Economia e Sociologia no Instituto Max Planck para o Estudo das Sociedades, Colónia, Alemanha. É licenciado em Economia pela Pontificia Universidad Católica del Perú, mestre em Filosofia pela mesma universidade





