Nota do editor:
A partir de um documento dos arquivos da polícia política (PIDE/DGS) do regime fascista de Salazar/Marcelo Caetano, a autora do presente texto relembra o contexto sinistro, de falta de liberdade e perseguição e tortura dos opositores (ou meros discordantes) ao regime, assim como os agentes recrutados por aquela polícia, normalmente simples pessoas comuns, e ainda os massacres cometidos por Portugal nas suas antigas colónias em África.
Cabe aqui recordar os textos que publicámos em outubro de 2022, a propósito do 50º aniversário da invasão policial do ISCEF (Maio de 1972) e do assassinato em outubro, no mesmo ISCEF, do estudante José Ribeiro Santos (ver aqui, aqui e aqui), assim como o testemunho de Irene Pimentel “Quando consultei o arquivo da PIDE para a minha tese, vi pessoas a chorar, chocadas com o que estavam a ler” (ver aqui).
Em nota prévia a esses textos, sublinhávamos a imagem que acompanhava a série, a mesma imagem que acompanha este texto: os cinco NÃOS que eram explicitamente afirmados e defendidos pelo fascismo em Portugal: Não discutimos Deus, Não discutimos a Pátria [colónias incluídas], Não discutimos a Família, Não discutimos o Trabalho, Não discutimos a Autoridade.
Os cinco NÃOS eram uma versão detalhada do “come [o que te derem…] e cala [senão sofrerás as consequências…]” dessa época. Uma sociedade opressora, sem liberdade.
Era uma época em Portugal de pobreza extrema, de analfabetismo (em 1960 o analfabetismo atingia 33% da população – mais de 50% em 1940 – e em 1974 ainda atingia 1/4 dos portugueses), de emigração (entre 1960 e 1973, 1,5 milhões de portugueses tiveram de deixar o país em busca de trabalho e liberdade, ou seja, 17% da população).
Decorreram mais de 50 anos (52 mais precisamente) sobre o 25 de Abril, mas nunca é demais lembrar o preço que muitos pagaram, por vezes com a própria vida, para que em Portugal hoje se possa viver com liberdade.
Parece que foi há muito tempo, muitos jovens de hoje não têm ideia do Portugal de então. E isso incentiva uma certa indiferença ou incapacidade de indignação, nos tempos que correm, perante as vozes que se levantam tentando que voltemos atrás – como diz Ana Sampaio Monteiro, há quem pretenda “ressuscitar, romantizar ou branquear” este negro período da História de Portugal -, refabricando a história e falando de uma ditadura supostamente pacífica, paternalista e de “brandos costumes”.
Obrigado a Ana Sampaio Monteiro por nos lembrar o que foi o Portugal da ditadura fascista.
“Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado” (Emília Viotti da Costa, historiadora brasileira).
Francisco Tavares, em 29/08/2026
Seleção de Francisco Tavares
8 min de leitura
PIDE/DGS: 170 PÁGINAS DE REPRESSÃO E 12 ROSTOS DE ALIJÓ NO PAÍS DOS “BRANDOS COSTUMES”
Em 25 de Agosto de 2026 (ver original aqui)
I – A POLÍCIA POLÍTICA
Há 93 anos, a 29 de Agosto de 1933, 4 meses após a entrada em vigor da Constituição fascista de 1933, António de Oliveira Salazar, fundava uma feroz polícia política, a PVDE, cujo nome foi mudando ao longo do tempo, mas cujos métodos repressivos se foram tornando cada vez mais duros, sofisticados e intimidatórios contra todos os críticos do regime.
PVDE (1933) – PIDE – (1945) -DGS (1969) a quem cabia a vigilância permanente de “suspeitos” e familiares, o assalto de residências privadas de madrugada, sem mandados judiciais, prisões arbitrárias sem direito de defesa e sem assistência de um defensor oficioso, interrogatórios intermináveis, violentos e desumanos, torturas e sevícias que conduziam à morte, à mutilação grave de órgãos ou à incapacidade vitalícia.
Para silenciar a oposição democrática, esmagar qualquer resistência e impor o MEDO através da violência e do terror, existia uma autorização legal e expressa para MATAR, sob a proteção da própria lei. Salazar e o regime eufemisticamente chamavam-lhe “dar uns safanões’.
Nas décadas de 30 e 40 do século XX, a PVDE recebeu formação e treino da Geheime Staatspolizei, a Gestapo -, a sua congénere nazi, de Adolf Hitler.
O que levaria um cidadão português comum a escolher integrar esta máquina brutal de repressão política?
A sua incapacidade de distinguir o bem do mal? O fascínio pelo poder de matar e de torturar? A obediência cega às ordens de superiores interpretada como prémio de lealdade ao regime?
E penso em Hannah Arendt e nas considerações que fez sobre o julgamento de Adolf Eichmann – o Obersturmbannführer SS nazi, o principal responsável pelo Holocausto -, em 1961, que presenciou. Para a revista The New Yorker, expressou, na “defesa” controversa do assassino nazi, o conceito “banalidade do mal”. Explicando que a sociedade se habitua à violência, à injustiça, à corrupção, deixando de se indignar.
II – DE ALIJÓ
Há dias, consultei um documento sinistro: “A RELAÇÃO DOS AGENTES, PESSOAL ADMINISTRATIVO E AUXILIAR DA EX- PIDE/DGS” (arquivos da polícia política).
Diante de mim, em 170 páginas dactilografadas, encontrava-se uma extensa lista – centenas e centenas de nomes -, em letra miudinha, dispostos por ordem alfabética, dos funcionários da PIDE/DGS.
Minuciosamente, para além do nome, eram indicados a filiação, a naturalidade, a data de nascimento, o sexo, a categoria e o território de serviço do funcionário – a 25 de Abril de 1974.
Mediante aquela lista de funcionários de uma máquina de violência e de morte, apoderou-se de mim um sentimento misto de horror e de repugnância.
Horror, não por desconhecer essa realidade histórica, mas por constatar que há hoje quem pretenda ressuscitar, romantizar ou branquear o período mais negro da História de Portugal.
Horror, por ter diante de mim os nomes daqueles que colaboraram com um regime que não admitia o contraditório; um regime que punia violentamente quem ousasse discordar e que transformava a liberdade de expressão num perigo para quem exercia autoritária e ilegitimamente o poder.
A punição podia apenas advir do “delito de opinião”, a expressão de uma ideia contrária, a denúncia das atrocidades do regime ou o questionamento dos seus abusos. Comportamentos que transformavam um cidadão no alvo perfeito de uma feroz repressão política.
Métodos de coerção apoiados numa censura que calava, numa propaganda que fabricava uma realidade conveniente, no culto do chefe – Salazar -, no enquadramento e na arregimentação das massas, mantidas propositadamente analfabetas, miseráveis e rurais.
Gerações de portugueses acreditavam que Portugal era um país de “brandos costumes”.
As elites mandavam. Eram reverenciadas. O povo, pobre e desprovido de direitos políticos, obedecia.
Dizia-me, há dias, um senhor de Alijó que trabalhou num café da vila:
“Nós tínhamos de aguentar até às duas ou três da manhã a trabalhar, sem protestar, porque os Doutores da vila estavam sempre a pedir-nos mais um prego, enquanto se entretinham nos seus ‘afazeres’ e não se iam embora.”
Era esta a realidade que a propaganda escondia.
Aparentemente, um país perfeito, alicerçado num Império Colonial pluricontinental que a todos deveria encher de orgulho, assente num nacionalismo exacerbado e na gratidão eterna ao Chefe supremo.
Dispus-me, com algum calafrio, a consultar o documento, na expectativa, quase milagrosa, de não existência de nenhum agente da tenebrosa PIDE natural do concelho de Alijó.
Mas encontrei 12 agentes, com categorias significativas:
* de Alijó (maior número)
* de Sanfins do Douro
* de Santa Eugénia (maior número)
* de Pegarinhos
* de Carlão
* de Vilar de Maçada
* de Vale de Mendiz
* de Vila Verde.
Não mencionarei os seus nomes. Não por eles, evidentemente, mas por respeito aos seus descendentes, que não podem ser responsabilizados pelas suas escolhas.
Entre eles encontrei, agentes de 1.ª classe, agentes de 2.ª classe, guardas, guardas prisionais e chefes de brigada.
Gente que integrou, de uma forma ou de outra, uma estrutura cujo propósito não era proteger a liberdade dos cidadãos, mas precisamente o contrário: PROTEGER O REGIME CONTRA OS CIDADÃOS QUE OUSASSEM CONTESTÁ-LO.
Entre a violência perpetrada, ficam alguns exemplos esclarecedores dos mais novos ou das pessoas cuja memória teima em falhar:
A TORTURA DO SONO: o detido era impedido de dormir durante dias consecutivos, através de turnos sucessivos de agentes, provocando alucinações, colapsos físicos e profunda destruição psicológica.
A ESTÁTUA: o preso era obrigado a permanecer de pé, imóvel e virado para uma parede durante dezenas de horas. A tentativa de se sentar, descansar ou simplesmente ceder ao cansaço resultava em agressões.

OS ESPANCAMENTOS COLECTIVOS: interrogatórios violentos conduzidos por vários agentes em simultâneo, destinados a intimidar e a quebrar psicologicamente a vítima, recorrendo a espancamentos sistemáticos, socos, pontapés e bastões.
O ISOLAMENTO TOTAL: em celas minúsculas, muitas vezes subterrâneas, escuras, insalubres e sem condições de higiene, destinado a destruir a resistência física e psicológica do preso.

A PRIVAÇÃO: de alimentos, de água, de medicamentos, assistência médica e de contactos com a família.
OS ABUSOS CONTRA AS MULHERES: sujeitas a formas graves de violência de género, abusos psicológicos e humilhações de cariz sexual.
O médico Esmeraldo Pais Prata, em serviço no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, afirmava peremptoriamente: “NÃO ESTOU AQUI PARA CURAR, MAS PARA ASSINAR CERTIDÕES DE ÓBITO.”
Muitos agentes da lista estavam em funções em Moçambique, Angola, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e, muito poucos, em Timor.
A guerra colonial, iniciada em 1961, fez deslocar grandes contingentes da PIDE para África. A sua acção dirigia-se ao combate aos movimentos de libertação das colónias.
A violência da repressão colonial e os massacres de populações africanas estão hoje amplamente documentados:
– Massacre do Cais do Pidjiguiti, 1959, Guiné-Bissau;
– Massacre de Mueda, 1960, Moçambique;
– Massacre da Baixa do Cassange, 1961, Angola;
– Massacre de Wiriamu, 1972, Moçambique;
– Massacre de Inhaminga, 1973/74, Moçambique, considerado o maior e o último massacre da PIDE/DGS.
Constituem uma parte incontornável da História sombria do colonialismo português. Traduziram-se no assassínio em massa de milhares de civis, incluindo mulheres e crianças, enterrados em valas comuns e escondidos das populações brancas.
Comum, também em África, era o incêndio de aldeamentos habitados.
Os agentes da PIDE eram coadjuvados pelas Forças Armadas.
Cinquenta anos depois, interrogados por mim, há três anos, em Alijó, 50 combatentes da Guerra Colonial ainda verteram lágrimas de arrependimento e de horror perante aquilo que foram OBRIGADOS a fazer ou a presenciar.
O suplício de crianças é uma memória que jamais os abandonará.
III – OUTRAS INFORMAÇÕES DO DOCUMENTO
– Uma forte concentração de agentes da PIDE em Moçambique – entre 75 a 80% – quando comparada com Angola ou com a Guiné-Bissau.
Permitindo concluir que a guerra estava perdida tanto na Guiné-Bissau como em Angola, mas a FRELIMO não dava tréguas em Moçambique.
– Apesar de encontrarmos agentes da PIDE naturais de praticamente todo o país, é a região de Trás-os-Montes que apresenta um contingente particularmente mais expressivo: Bragança, Vila Real, Chaves, Valpaços, Montalegre, Vinhais, Mirandela, Vila Flor, Torre de Moncorvo, Mesão Frio e Miranda do Douro. (Sabrosa e Murça registam apenas 2.) E a zona do Douro: Tabuaço, Lamego e Mêda.
– O Alentejo e o Algarve registam percentagens de integração bastante menos significativas.
– O recrutamento nas grandes cidades, pelo contrário, é relativamente insignificante, com a curiosa excepção da freguesia de São Sebastião da Pedreira, em Lisboa. (Desconheço se os investigadores já se debruçaram sobre este facto.)
– Agentes nascidos em Espanha. A ajuda de Franco a Salazar?
– Mulheres na estrutura da polícia política, num mundo predominantemente masculino. Encontramos mulheres na PIDE, sobretudo em África, desempenhando funções de escriturárias, dactilógrafas, agentes femininas de 2.ª classe e guardas prisionais – refinavam métodos de tortura contra outras mulheres.
– Uma não despicienda percentagem de filhos de pai incógnito e dois casos de ambos os progenitores.
Mas os números levantam perguntas que não devem ser ignoradas.
Porque é que determinadas regiões forneceram tantos agentes a uma polícia política?
Que condições sociais, económicas e culturais favoreceram esse recrutamento?
A lista permite, assim, perceber a dimensão e a complexidade de uma estrutura que estava longe de ser um pequeno grupo de polícias isolados.
A PIDE era uma organização hierarquizada, disciplinada, coesa e profundamente integrada no aparelho repressivo do Estado Novo, com uma rede que se estendia pelo território português e pelas colónias, chegando até Timor, muito eficaz naquilo que lhe era exigido: vigiar, intimidar, perseguir, silenciar e matar.
Esta máquina bem montada de prender, torturar e matar contava ainda com uma vasta rede de informadores – delatores – os “BUFOS” – voluntários civis recrutados e espalhados no país e nas colónias. (A sua identificação não ficou registada.)
E é precisamente por isso que estes documentos são tão valiosos.
Ajudam a desconstruir a memória conveniente de uma ditadura supostamente pacífica, paternalista e de “brandos costumes”.
Esta lista – a que eu tenho em mãos – é imensa.
Mas existia uma muito mais extensa. A que estava na posse da PIDE: a lista de homens e mulheres que, com coragem e determinação, enfrentaram o regime fascista. Homens e mulheres que arriscaram a vida, a juventude, o emprego e tudo o que tinham para que HOJE POSSAMOS VIVER EM LIBERDADE.
A elas e a eles, o nosso eterno obrigada!
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A autora: Ana Sampaio Monteiro é professora do ensino secundário, historiadora e co-autora do projecto “Enttre Tempos” (manuais escolares da Porto Editora). Nasceu em Moçambique, cresceu em Alijó, viveu e trabalhou no Porto e regressou em 2020 a Alijó. Foi candidata pelo partido da Terra nas eleições autárquicas de 2025.




