O Fascismo existiu em Portugal: uma análise 50 anos depois da invasão policial do ISCEF — “1960-1972: Um olhar pessoal sobre a precariedade que se vivia no tempo do fascismo em Portugal”. Por Júlio Marques Mota

Nota de editor:

Publicámos anteontem o primeiro de três textos sobre o Portugal dos anos 1960-1970: um relato factual sobre a invasão e carga policial no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), hoje denominado Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade de Lisboa, ocorrida em 16 de Maio de 1972 (ver aqui). O segundo – que publicámos ontem (ver aqui) – e terceiro – que publicamos hoje – textos, da autoria de Júlio Marques Mota, mostram como era a violência organizada do fascismo em Portugal e bem assim a precariedade que se vivia no tempo do fascismo em Portugal.

Nesta pequena nota não podemos deixar de sublinhar a imagem que acompanha esta mini-série de textos: os cinco NÃOS que eram explicitamente afirmados e defendidos pelo fascismo em Portugal: Não discutimos Deus, Não discutimos a Pátria [colónias incluídas], Não discutimos a Família, Não discutimos o Trabalho, Não discutimos a Autoridade. Uma versão detalhada do “come [o que te derem…] e cala [senão sofrerás as consequências…]” dessa época. Uma sociedade opressora, sem liberdade.

Era uma época em que a polícia, para além de perseguir, prender, torturar, e até assassinar os opositores do regime, invadia o espaço universitário (Cidade Universitária em Lisboa, Universidade em Coimbra, Instituto Superior Técnico, Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras) onde espancava estudantes e professores, e também assassinou, dentro de um anfiteatro do ISCEF, o estudante José Ribeiro Santos, em Outubro de 1972, um preciso retrato do contexto de violência que enquadrava o dia-a-dia. Era uma época em Portugal pobreza extrema, de analfabetismo (em 1960 o analfabetismo atingia 33% da população – mais de 50% em 1940 – e em 1974 ainda atingia 1/4 dos portugueses), de emigração (entre 1960 e 1973, 1,5 milhões de portugueses tiveram de deixar o país em busca de trabalho e liberdade, ou seja, 17% da população).

No campo os dados referidos por Júlio Marques Mota no texto sobre a precariedade, são reveladores das extremas condições de pobreza que se vivia então. Note-se que os dados disponíveis sobre o salário mensal mínimo na agricultura se reportam a 1977 e era de 17,5 euros! (ver Pordata aqui). No início dos anos 1960, um operário indiferenciado (o próprio Júlio Mota) auferia 24 escudos/dia, o equivalente a 10 euros atualmente. Tão somente alguns dados, que não cabe aqui aprofundar, sobre a situação precária em que vivia a maioria da população portuguesa.

 

FT


24 m de leitura

1960-1972: Um olhar pessoal sobre a precariedade que se vivia no tempo do fascismo em Portugal

 Por Júlio Marques Mota

Em 19 de Outubro de 2022

 

Um texto dedicado ao filho dos Vilela de Fratel com quem me cruzei em Alpalhão e às gerações futuras para que saibam porque é que os seus avós vieram para as ruas gritar FASCISMO NUNCA MAIS.

Depois de ter escrito o artigo 1972-2022: um olhar pessoal sobre a violência organizada do fascismo em Portugal e por sugestão de vários amigos meus recuei um pouco no tempo e aqui vos deixo um olhar sobre a precariedade vivida nos anos sessenta em Portugal.  “É importante manter viva a memória” diz-me uma colega minha, a Lina Coelho, uma ideia com a qual concordo plenamente.

Um texto em forma de carta enviada ao Carlos Bastien.

JM

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Meu caro Carlos Bastien

O dia 12 de outubro acabou. Penso que por aí terá baixado o nível de tensão. Digo isto porque organizar qualquer coisa que implique várias pessoas é cada vez mais difícil pois cada vez mais as pessoas dispõem de cada vez menos tempo disponível. Dito de uma outra forma mais académica, os tempos de André Gorz esfumaram-se!

Pelo que vi devo felicitar os organizadores, exceto na qualidade da gravação da sessão com 15 minutos em branco.

Neste vídeo há uma passagem espantosa, uma frase proferida por Dulce Rocha. Filha da pequena média burguesia, chega a Direito e é no segundo ano com o movimento estudantil que percebe que guerra do Ultramar é a guerra Colonial. Eu falo do Portugal profundo, onde dominava a ideologia fascista e a ignorância. Ela fala da cultura citadina em geral, em que a cultura do que é Política estava ausente, estava quase a nível zero mas, se a cultura política estava ausente, isso significa que esse espaço não estava vazio, a natureza humana tem horror do vazio, estava ocupado pela ideologia fascista na sua versão dura, a da extrema-direita salazarenta, ou na sua versão mole, a da Primavera marcelista. O grande mérito do Movimento estudantil foi, no seu espaço próprio, o de rebentar com esse manto de ignorância urbana.

Deixa-me agradecer-te a oportunidade que me deste de me afinar com a História, propondo a muitos dos seus próprios atores ativos ou dos que nela participaram como figurantes, a minha visão do que foi essa sua e nossa história.

Essa história foi sintetizada nos termos do espaço disponível (4 vezes mais!) onde quis dar a ideia do Portugal profundo daquele tempo e a discussão da minha mãe é altamente reveladora da mentalidade daquele tempo. Acresce-se aqui um pequeno detalhe omisso no texto: a minha prima Isabel era, do ponto de vista local, da pequena burguesia rural: não precisava de ir mondar, não precisava de ir para a apanha de azeitona por conta de outrem, e isto sempre com a remuneração de 8-10 escudos por dia [1]. Era mulher de um artesão, o ferreiro da terra, e dava “formação de bordados” às meninas da pequena burguesia rural. A minha mãe era o outro lado da realidade rural e o confronto naquela mercearia era também um confronto de classes: o filho da minha mãe era um comunista, é o que lhe foi dito, e ela era responsável pela criação desse desvio do bom caminho. Era um acusar de alto para baixo. Ao que soube a minha mãe deu-lhe uma resposta exemplar e não sei se ela sabia bem a dimensão do que estava a dizer. Terá dito mais ou menos isto: cuida do teu filho, Zabel (assim pronunciado) que eu, Maria, tenho de cuidar do meu. Isto é simples de escrever, de descrever, mas na alma daquelas duas mulheres deveria ter sido bem violento, especialmente para a minha mãe, e o nome Maria assume na nossa cultura um significado de proteção bem especial. A minha mãe não o saberia especificamente, mas senti-lo-ia porque faz parte da nossa cultura popular vivida, a dos pobres, pelo menos…

Páscoa 1960. Autoridades distribuem presentes a crianças pobres, Furnas, Monsanto Lisboa

 

Com o texto já na tua mão e na sua versão definitiva (não tiraste o n de Grundrissen) passou pela minha casa uma amiga minha de muito longa data que veio participar num conjunto de conferências na Faculdade de Letras. Jantou em minha casa e, naturalmente, falou-se do passado, dos tempos do calor da revolução e dos tempos do seu arrefecimento. No meio da conversa pergunta-me ela com um ar misto de saudade daqueles tempos e de ansiedade de uma resposta positiva da minha parte, como sinal de que eles estavam bem presentes na minha memória: lembras-te das broas de mel da tua mãe? Eram tão boas!

Esta pergunta e a minha resposta foram motivos para que um clarão iluminasse com toda a intensidade a história que se viveu naqueles tempos e que, de repente, ficou bem viva à nossa frente. Foram horas a fio em que eu, ela e a minha mulher, tecíamos os fios soltos da causalidade dos acontecimentos daquele tempo sob o olhar espantado da minha filha. Aliás, deixa-me dizer-te uma coisa banal mas para mim importante: a revisão do texto feita pela minha mulher deu-lhe anos de vida como se tenha mergulhado num banho de juventude. Não é poesia, digo-te.

Na sequência da conversa da noite a minha mulher deu a esta minha amiga o texto onde se escreve do que se tinha ali falado e das tão boas broas de mel. Em anexo mando-te o seu comentário e a minha resposta. São ambos os textos fotos sobre o objeto de análise que é aquele tempo de 50 anos atrás. Nota uma coisa: a história do Chico Cal é apenas contada até meio, o resto resume-se a “foi para o estrangeiro”. Mais uma vez, se o Chico Cal não tinha meios para se abrigar no país muito menos teria meios para fugir para o estrangeiro. Tive que ser eu a organizar tudo e a pagar tudo. E com que meios? Simples, para evitarmos confusões, com algum do dinheiro recebido pela morte do meu pai, dinheiro que era da minha mãe. Mas isso não importa aqui, salvo se for para tirar dúvidas da origem do dinheiro em jogo. Depois ninguém me ficou a dever nada mas foi preciso avançar primeiro com o dinheiro. A dita esquerda estudantil maoísta quanto a estruturas de defesa reduzia-se a NADA. Inacreditável. Mas falar disso seria toda uma outra história e então não seria agora assassinado pela PIDE, seria agora virtualmente assassinado por ti, dada a dimensão que o texto adquiriria!

De V.S.

Querido Júlio,

Li o teu magnífico texto na viagem de comboio do Porto para Lisboa. A Guida tinha-mo mandado na noite em que fui jantar a vossa casa. (…)

Li-o de seguida, de um fôlego. O relato dos acontecimentos e das situações impressiona imenso e os retratos das pessoas envolvidas (sobretudo o teu, o da Guida, o da tua mãe, mas também o do Pereira de Moura, de quem me lembro, do Chico Cal, da porteira) transformam esta história de um acontecimento no país numa história de pessoas de carne e osso, que sofreram, ficaram mal, ajudaram-se umas às outras, correram riscos, ouviram coisas que não mereciam ouvir. São pessoas de carne e osso que tu recortas no pano de fundo, mais amplo, da situação do país e da sociedade daquele tempo para depois focares a situação, a “fragmentação” e a “inquietação existencial” das massas estudantis. É também um relato “justo”, porque nomeia quem ousava dizer que não dentro do sistema, pessoas como Veiga Simão, Adriano Moreira, João Cravinho, e salienta a importância que o movimento estudantil teve na concretização do 25 de Abril e na sua posterior transformação em Revolução.

Percebo muito bem que a Guida tivesse ficado emocionada com a leitura do teu texto. Viu-se naquele tempo, viu tudo o que contribuiu, o que sofreu, a coragem que teve. Reviveu todas aquelas emoções. É um relato tão vivo! Mesmo eu, só como leitora (com a particularidade de vos conhecer, ser vossa amiga e sentir convosco) estava dentro da história, envolvida no curso dos acontecimentos e nos momentos de reflexão. Os pormenores, as meias que não eram de puro algodão do Egipto, as broas da tua mãe, a conversa na mercearia, o bloco de notas para comunicar, a necessidade de descodificar a escrita, os sacos com comida, o autocarro vazio para a Costa da Caparica, o caminho pela mata até à casa, o almoço no fim de semana (para iludir a GNR e não desperdiçar a comida comprada), a porteira a falar no lixo, tornam-se simbólicos, carregados de significado sobre o lugar que era o nosso país naquele tempo.

Gostei muito e mando daqui um grande abraço para ti e para a Guida,

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Resposta minha

Obrigado pelo teu texto. Depois telefono-te.

Há no texto alguns momentos altos que referes, a minha mãe, a porteira, a frase do Cal, passou por aqui a GNR sem se aperceber do que aquilo poderia significar e, depois, há mais um: o das meninas de Apllied Magnetics Timex e outras que perderam as suas raízes e o emprego. Resumi isto à expressão o resto deduz-se. Três palavras! O Estado Providência ainda não existia- o tal período a que se refere Gramsci: o mundo velho está a morrer e o novo ainda não nasceu! Fui numa noite com um tipo da 5ª divisão visitar a zona dessa meninas -Artilharia 1, e passeámos por um enorme um pesadelo.

Mas para se ver o que era esse país e para reforçar o caso da minha mãe na mercearia conto-te um outro. A minha neta esteve agora em Paris 4 dias na casa de um amigo meu desde os bancos da Universidade. Foi antes do Chico Cal-um a dois anos antes, talvez. Estava nos Rangers em Lamego, nas tropas especiais, preparado para a guerra. Queria fugir, queria desertar. Organizou ele a fuga com um amigo comum, o tal do Técnico que me levou à casa da Caparica e os dois terão tratado a passagem com alguém a viver junto da fronteira (hoje pessoa falecida ao que me foi dito) e emprestei-lhe algum do dinheiro que recebi pela morte do meu pai e o que eu recebi foram 24 contos na época. E porquê eu a emprestar o dinheiro? Porque não podia pedi-lo ao pai. E porque é que o não podia fazer? Porque o pai não hesitaria em denunciá-lo à PIDE. Antes morto que traidor à Pátria. Simplesmente isso.

O meu pai, tal como a minha mãe, não sabia ler nem escrever. Dizia-se na terra que se soubesse ler e escrever chegaria a ministro. Foi isso que um major do exército escreveu no jornal local no elogio fúnebre da minha mãe. Esta já teve direito a elogio fúnebre. Isto tudo para dizer que, por exceção, o meu pai era de esquerda. Ora, havia uma camada da população portuguesa, os intermediários do sistema, sobretudo de pequenos e médios intermediários, (a porteira entrava nesse grupo) bem retratados no filme Z do Costa Gravas que fanaticamente serviam o sistema, o qual, segundo eles, lhes assegurava o modo de vida. O pai deste meu amigo, comerciante de Pombal e com algum dinheiro, entrava nesta categoria de gente. Note-se que se tratava de gente que assegurava a ligação entre campo e cidade e que constituía assim uma peça central no funcionamento da economia de então. O pai deste meu amigo não era pois diferente da minha prima que insultou a minha mãe. Isto diz-nos que o Portugal profundo tinha muito mais gente colada ao sistema fascista do que se poderia pensar. Esta última história não é rural, é citadina e não é menos violenta que a da minha mãe com a minha prima, antes pelo contrário.

Um abraço

JMota

PS. Curiosamente uma prima da minha mulher, professora universitária, telefonou-me a sugerir que desenvolvesse o texto em livro. Fora de questão, respondi-lhe. E diz-me que muito disto lhe passou na altura ao lado porque era uma das meninas da Avenida de Roma!

 

Na resposta à minha amiga falo de um amigo meu a viver em Paris, em casa de quem a minha neta esteve agora 4 dias. Era um militar dos Rangers em Lamego, pronto a ir para a guerra. Tínhamos quartos alugados na mesma casa, na zona de Santa Marta. Pede-me ajuda. Arranjei-lhe o dinheiro que acima referi e dei-lhe o meu passaporte! Correu tudo bem, o canal que ele abriu para lhe formatar o passaporte e para o colocar lá fora foi o canal de que nos servimos depois para colocar o Chico Cal, a namorada e mais um colega lá fora. Trata-se de gente que nunca vi, que nunca conheci e, à distância do tempo passado, é certo que é gente que a vida já deixou. Mas ambos os acontecimentos, situados muito perto um do outro, são acontecimentos que estão ligados, quer no plano dos factos, quer no plano dos sentimentos, dos afetos, diga-se, através dos fios invisíveis tecidos da solidariedade humana que, em períodos de crise, sustentam as sociedades e as pessoas que nelas estão em dificuldade. Houve riscos, muitos, como vês.

Lembras-te da viagem de curso com ida a Angola em 73? Aproveitei a ocasião para solicitar a emissão de um passaporte porque tinha perdido o meu! Fui chamado à PIDE, mais de uma hora de interrogatório. Esperando já isso protegi-me, fiz antes uma exposição ao ministro da Educação de então, Veiga Simão, solicitando um apoio financeiro para uma deslocação minha a Paris pois ia aprofundar conhecimentos da minha licenciatura com professores franceses. Justificava assim a necessidade do passaporte. No interrogatório da PIDE, o que o inquisidor escreveu no final foi: “tendo solicitado a Sua Excelência o senhor Ministro da Educação, na qualidade de finalista, um subsídio para se deslocar a Paris”. Reagi e disse: “não é na qualidade de finalista mas sim de estudante. “Desculpe, reagiu o inquisidor, o senhor não é finalista? Sou”, retorqui. O inquisidor tira o papel da máquina de escrever e diz com voz ríspida: “então, assine.” Assinei. Cito de memória mas isto está-me gravado na alma.

Entretanto, nunca mais vinha o passaporte. A funcionária do Governo Civil já me conhecia e mal me via dá-me um sinal a dizer que não estava. Aqui invento um golpe, como alguém que aprendeu a sobreviver. Dirijo-me ao Ministério da Educação a pedir uma resposta. Chego ao Chefe de Gabinete do Veiga Simão, chamado Formosinho e não há aqui cunha nenhuma- o cunhado dele conheci-o bem mais tarde. Diz-me o chefe de gabinete o seguinte: arranje três cartas de professores seus que eu arranjo o resto. Assinaram as cartas Ramos Pereira, Alfredo de Sousa e creio que um tipo alto que dava economia portuguesa. Quanto a este terceiro não estou bem certo mas não devo estar errado. As cartas são entregues e o mesmo Chefe de Gabinete diz-me duas coisas espetaculares: 1) esteja descansado que tudo se vai arranjar; 2) arranje quem lhe empreste o dinheiro que eu a si garanto que lhe vou pagar. O país precisa de técnicos, para isso tem de pagar para os ter. Isto é dito no gabinete de um ministro do tempo de Marcelo Caetano! Três dias depois tinha o passaporte e, depois de vir de Paris, recebo um postal para me dirigir ao Ministério. Fui pago pelo saco azul! A exposição enviada ao Ministro da Educação era apenas para proteger o pedido de emissão do passaporte, pois em termos de fascismo não era de esperar que o pedido fosse aceite. No entanto, o pedido foi aceite e acabo por receber 6.100 escudos. Não fiquei a ganhar nada. Garantidamente terei gasto mais que isso mas significa que assim gastei do meu bolso muito menos.

Como vês, tudo isto está ligado direta ou indiretamente ao caso Chico Cal, tudo isto são sinais da ferocidade daquele tempo e dos fios invisíveis que a essa ferocidade se opunham e contra ela faziam muros de resistência.

Emigração portuguesa anos 1960

 

O texto teve três revisores, um revisor literário do teu ano de curso, o Chico Tavares, um outro sobre a precisão dos factos, era amigo do Victor Nogueira e do Chico Cal e meu amigo pessoal, vivendo nós na mesma casa, em frente à Judiciária e participante ativo em todo o processo de apoio ao Chico Cal, corrigiu o nome da Praia do Paraíso para Praia da Riviera e o nome da Rua Padre Francisco Mascarenhas de Melo para Dr. Mascarenhas de Melo, e, por fim, a minha mulher que corrigiu Casão Militar substituindo por supermercado militar. Isto são detalhes mas dado o cariz político que quis assumir no texto não queria que o mesmo fosse manchado com erros de puro detalhe, de forma. Evidentemente não beneficiei apenas de revisão formal e a todos fico muito agradecido.

Telefonei agora à pessoa que tinha um falso tradutor em casa e que estranhamente passou a ter muito lixo em casa, agora também ela na casa dos oitenta. Cinquenta anos depois já não se lembrava de nada mas foi impressionante o evoluir da conversa: avancei na conversa devagar, devagarinho, de detalhe a detalhe, com intervalos pelo meio para a conversa ganhar lastro e dar tempo ao reavivar da memória e foi um espanto quando descobre quem falava e sobre o que falava. A manifestação de alegria foi enorme como nunca lhe ouvi em décadas de convivência com ela.

Tudo isto me diz que valeu o trabalho de escrita que foi feito.

Sobre a vida na clandestinidade do Chico Cal diz-me ela agora:

O Chico mereceu a minha admiração pela contenção nos seus hábitos e respeito para comigo. Creio que tenho um poema sobre esse período muito tenso e muito difícil sobretudo para ele que estoicamente aguentou as restrições à sua liberdade, nunca tendo saído nem de dia nem de noite e tendo-me apenas a mim com quem conversar. Se achar esses papéis digo-te.

Nunca lhe perguntei porque andava fugido nem a que partido pertencia. Para mim era um resistente e isso chegava.

Não sei se foste prudente em sinalizar a rua. Voltámos a tempos difíceis e embora os habitantes desse tempo terem na sua maioria desaparecido desta rua, entre os antigos locatários creio que estou apenas eu e outra senhora” Fim de citação.

 

Disse-te acima que tudo isto só é compreensível pelos fios invisíveis tecidos de solidariedade humana que em períodos de crise sustentam as sociedades e as pessoas que nelas estão em dificuldade.

É exatamente isto que explica todo o texto que escrevi e que tu publicaste. Mas dou-te dois curtos exemplos dos ditos fios invisíveis:

  1. Fios invisíveis entre iguais

Há uns quatro anos, eu, a minha mulher e um casal amigo fomos à minha terra comprar azeite. Como a mulher desse casal, algarvia de gema, não conhecia o Alentejo fomos ao norte do Alentejo. Almoçámos em Alpalhão. Já na parte do final do almoço, vejo alguém a dirigir-se para a nossa mesa, aproxima-se de mim e teremos tido mais ou menos o seguinte diálogo:

 é o Dr. Júlio, não é? Sou, respondo. Conhece-me?, pergunta-me ele. Sim, és filho do Vilelas das Casas do Meio, estou enganado? Não está, disse ele. E continuou: olhe, desculpe vir ter consigo. Mas sinto que é meu dever. Dever, o quê, perguntei eu, interrompendo-o. E ele continuou: não sei se sabe, mas os seus pais mataram-nos muitas vezes a fome. Nunca lhes agradeci, talvez porque era pequeno. Agradeço-lhe a si, agora.

Ficámos todos mudos de comoção. Ali, de repente, cai-nos na mesa a realidade vivida e sofrida de tanta gente noutros tempos, os tempos do fascismo. Fiquei sem palavras e mudei de assunto, falando sobre o que é que ele profissionalmente fazia. Sublinho aqui um pormenor. Os meus pais eram camponeses pobres, muito pobres, camponeses sem um palmo de terra que se diga de jeito. Por paixão, o meu pai tinha uma espingarda de alta qualidade, uma Sauer & Sohn comprada ao médico da aldeia para quem ele trabalhou no campo e que, por acidente, deixou de poder caçar. Naquela época havia muita caça e não havia frigorífico em casa. O me pai era reputado como um dos melhores caçadores da região. Nunca ele vendeu uma peça de caça, comia-se em casa ou dava-se a quem nas suas relações ele achava conveniente ou ainda a alguém que estivesse doente e não pudesse ter acesso a uma peça de caça. E a maioria dos camponeses não tinha.

Escola algarvia, 1940

 

Pessoa muito pobre que fosse parar à cama, era certo e sabido, que ia parar à sua casa uma perdiz para uma canja. Fosse época de caça ou de defeso, sublinhe-se. Era eu, pequeno, que a ia entregar e normalmente recebia uma gratificação, dois escudos e cinquenta centavos. Dava-os à minha mãe e recebia em troca um escudo para comprar rebuçados. Se tivermos em conta que era gasto, pelo menos, um cartuxo por peça de caça, que esse cartuxo custava 2$20 e que o salário do meu pai era de 16-18 escudos/dia [2] quando tinha trabalho- nessa época eu fiz as contas para ter o sentido do que o meu pai estava a fazer- percebe-se o quão importantes eram esses fios da fraternidade no mundo rural em que eu fui criado e de que eu próprio ao longo de décadas e de contextos citadinos diferentes sou também um produto, um produto também daqueles que fizeram o mesmo comigo.

 

  1. Fios invisíveis entre desiguais

Anos de 1958-60, tinha eu de 15 a 17 anos. Era eu um marçano na rua Afonso Lopes Vieira numa mercearia quase junto à Avenida do Brasil. Ordenado: 100 escudos por mês, cama, mesa e roupa lavada. Não passava fome, poderia, por vezes, não gostar da comida que me era posta na mesa. Exemplo: de tanto peixe-espada comer, enjoei tal peixe! A 40 metros da loja havia uma praceta, dita Praceta Afonso Lopes Vieira, habitada por muitos estudantes líderes da crise de 61-62 e seguintes, entre os quais um líder fantástico, Eurico de Figueiredo.

Era uma praceta ocupada por gente da pequena e média burguesia lisboeta. Tratava-se maioritariamente de gente culturalmente já diferenciada, com casas de renda condicionada, a 1.110 escudos por mês. Aqui acabei por viver dois papéis:

  1. a repressão do sistema: o ordenado, as condições de trabalho, passava o dia a carregar cabazes de mercearia e a entregar as encomendas aos clientes pelas escadas de serviço. Não havia elevadores, eram prédios de três andares, no máximo havia elevadores em dois prédios à entrada da praceta, um de cada lado. As entregas das mercearias eram feitas pela escada de serviço.
  2. viver relativamente abrigado do sistema pelos fios invisíveis com que a Humanidade é vestida e que ali eram intensos. Nesta praceta passei a gozar de um privilégio único naquela profissão, naquele local. De entre quatro a cinco clientes, sempre que não gostasse da comida que os patrões me davam, tinha autorização para tocar à campainha e entrar pela porta da frente. E porta da frente era uma expressão que me era reafirmada sucessivamente. Quando tal acontecia, a porta de casa era-me aberta e a mesa era-me posta, como se da casa fosse. Simplesmente assim. Só mais tarde percebi o que queria dizer a expressão pela porta da frente. Significava o tratamento de igual para igual, o de respeito pela necessidade do outro. Peço o favor de aceitar, foi o que me foi dito. Isto só se entende não por esmola a ser dada mas pela existência dos fios invisíveis da fraternidade com que a Humanidade é, na verdade, tecida, pelo sentido de dignidade humana com que esta também é vestida, quando assim é assumida.

Foi assim que fui criado, foi desta forma que fui moldado, que aprendi a ser gente. E tanto assim que, já depois de ter deixado de ser marçano, de passar a operário fabril na Rua Centro Cultural na zona de Alvalade em Lisboa, continuei a visitar uma das casas onde ia com mais frequência comer, e levava todos os anos ao casal uma lembrança de duas perdizes! Isto fi-lo enquanto o meu pai estava vivo e me dava as peças de caça. Numa outra casa, casa de familiares do pintor Armando Lucena, tive “direito” a explicações de francês dadas pelo seu neto que andava no Charles Lepierre. Em contrapartida, no final do ano, eu ajudava-o nas dúvidas em matemática. Dessas explicações de francês ainda guardo os livros de capa azul que aí eram então utilizados.

Quando, já operário, ia estudar para os cafés Nova Iorque, ao fundo da Avenida Estados Unidos da América, ou no Tatu, ao fundo da Avenida da Igreja. Aí me cruzei com os estudantes da Praceta Afonso Lopes Vieira, com eles teci muitas amizades e a eles devo muito da minha própria formação. Verdadeiramente começou aí. E a todos eles em geral estou muito reconhecido, em particular à Ana Dinis, à saudosa Guida Areias, ao Eurico de Figueiredo e à Berta, sua namorada e depois mulher, e ao Furtado entre muitos outros; deste último ainda me lembro das suas explicações sobre Hegel, Marx e a dialética a passearmos no jardim do Campo Grande. Direi mesmo que, culturalmente, sou também filho da geração de estudantes que dinamizou as crises académicas de 61-62 e 64-65 em Lisboa. De novo encontramos aqui os fios invisíveis da fraternidade humana.

Não entender isto leva-nos à posição de corte de relações que um amigo meu da década de 60, Jorge G., em certo dia tomou. Tratava-se de um amigo que, no verão, foi comigo para a minha terra onde estudámos Matemáticas Gerais à sombra dos eucaliptos. Em dada altura disse-me mais ou menos o seguinte: um tipo como tu, com o teu trajeto de vida, com a tua firmeza nas decisões que tomas e com a capacidade de utilizar a lógica na análise política que tens, só podes ser uma de duas coisas: ou um alto quadro do regime fascista ou um alto quadro do PC. Em qualquer dos dois casos eu tenho muito medo de situações em que me possa ver envolvido sem querer. Não quero falar mais contigo. Não sou nada do que tu dizes, respondi-lhe mas aceito a tua decisão. Desapareço, então, disse-lhe, está descansado quanto a isso e saí da sua casa. Nem ele alguma vez imaginaria o quanto isso me magoou.

Hoje, à distância de mais de cinquenta anos, revejo este acontecimento como sendo uma diferença de perceção do mundo: trata-se do ponto de vista de um jovem de 18-19 anos entrado na Universidade e que fora criado numa zona de bom conforto e protegido dos maus ventos da vida contra um jovem mais adulto criado numa zona de extraordinário desconforto e atirado para o centro dos furacões da vida e com muita literatura lida e sentida. Adicionalmente tinha mais 5 anos de idade. Para estas faixas etárias era grande a diferença de idades, só por si justificativa das diferenças de comportamento assinaladas por ele. Mas, se adicionarmos a isto a diferença de aprendizagens a que vida obrigou cada um de nós dois temos o quadro explicativo daquilo a que Jorge G. se referia, condições mais que suficientes para explicar a diferença de comportamentos entre nós e que ele não entendia.

Bastava ter em conta estas condições em vez de se remeter para uma tipologia de comportamentos que me eram completamente estranhos para perceber que nada do que dizia tinha qualquer sentido. Um homem é, cito de memória Malraux da Condição Humana, a soma dos seus atos, um homem é, diria eu, a interseção ou o produto das especificidades de cada um, a sua individualidade, com as respetivas circunstâncias em que esses atos são praticados. Esses atos podem ainda ser lidos como sendo um texto, o texto da vida, mas apenas no quadro do contexto em que esse texto é escrito. No caso presente Jorge G só teria que olhar para o meu texto, isto é para os atos a que se refere Malraux, e para o seu contexto, as condições em que a minha vida tinha sido vivida, para perceber que não poderia dizer nada do que disse. Curiosamente, 50 a 60 anos depois e já com contextos completamente diferentes e sem medos, dois amigos meus, Soares da Fonseca e Mário Loureiro olhando para esse mesmo texto e para o seu contexto, à Malraux, tiram conclusões opostas às de Jorge G., muito amáveis mas claramente exageradas. Para Soares da Fonseca, “um tipo com as tuas características só podia ser uma das coisas: ou rico ou pobre. Felizmente escolheste ser pobre e ficaste connosco na Faculdade de Economia. Ainda bem”. O meu amigo Mário Loureiro diz a mesma coisa de uma outra maneira. Disse à minha neta: “olha se o teu avô fosse de direita em vez de esquerda vocês estariam todos bem melhor”. A minha neta veio ter comigo e pergunta: avô, o que queria ele dizer? Deixei-me rir e disse: as pessoas de direita dão geralmente mais prioridade à carteira que ao coração, acontecendo o inverso com as pessoas de esquerda e por coração entenda-se aqui tanto o respeito pela condição de necessidade dos outros como a vontade de criar um mundo em que a desigualdade de hoje se transforme apenas em peça de museu.

O homem é também o produto das circunstâncias dizia Marx, e Jorge G. em vez de procurar nas circunstâncias a explicação das diferenças humanas por ele sentidas, coloca-se fora delas e com uma justificação estranha: só um alto funcionário do fascismo ou do PC poderia ser assim, agir assim, pensar assim, ter assim a resiliência que eu tinha face às adversidades da vida, como ele sentia que eu me comportava. A sua explicação para o texto da vida, da minha, era exatamente simétrica da que estou a dar, a de ser também um produto moldado pelo meio, criado e abrigado nos fios invisíveis da fraternidade humana.

Para estes dois tipos de políticos, e em regra geral, os fins tendem a justificar os meios ao ponto que os meios se confundem depois com os próprios fins, e o resultado historicamente está bem à vista – ditaduras. Os tempos eram turbulentos e o sistema vivia, também ele a procurar esmagar esses fios invisíveis, a anular a ideia de sociedade, a querer impor a ideia de que não há sociedade, há apenas indivíduos. Na sua visão de muito jovem adulto, Jorge G. estava aqui a ser vítima dessa mesma lógica imposta pelo fascismo. Eu não podia então ser considerado um produto de mim mesmo e desses fios invisíveis, que tecem a humanidade e, porque ignorados no seu quadro de análise, restava-lhe então como única explicação possível para me ver como uma exceção, como sujeito fora da caixa, o ser um alto quadro do fascismo ou do PC!. Bastava-lhe usar as lentes que lhe eram habituais, as da lucidez, bastava-lhe ler cuidadosamente as palavras do texto da minha vida, os seus factos vividos e conhecidos, a expressão de uma vida de precariedade absoluta, bastava-lhe ler os contextos de cada um desses factos relatados no “tal” livro, para perceber que o tipo que ali estava à sua frente era a interseção das suas potencialidades como cidadão com as ajudas do tecido social que sempre me acarinhou. Isso chegaria para eliminar a hipótese absurda que levantou para explicar a minha trajetória existencial.

No plano da formação política de Jorge G. faltava-lhe entender que quando se destrói os fios invisíveis da fraternidade na sociedade, o húmus da Humanidade, o que resta então é a carcaça do que foi sociedade, é a secura de vida imposta pelas ditaduras. Em todo o mundo tem sido assim.

Trata-se de uma história que não poderei jamais esquecer mas contra quem depois não me moveu nenhuma animosidade. Era o resultado do clima de medo em que se vivia, em que se tinha medo de conviver com alguém que fugisse à norma, que saísse da caixa, mas era, mesmo assim, uma atitude menos grave do que a havida com a minha mãe na mercearia da minha terra. Jorge G. simplesmente tinha medo, a minha prima simplesmente tinha raiva. A cultura é o que é, até nestas duas cenas.

Parece patético o que estou a contar mas, ao minimizar-se a existência dos fios invisíveis de fraternidade na sociedade, isso leva a que muitas situações ou se tornem incompreensíveis ou nos levem a explicações profundamente erradas ou irracionais. Aconteceu-me há dois dias comentar o meu texto 1972-2022: um olhar pessoal sobre a violência organizada do fascismo em Portugal com um amigo de longa data e cuja seriedade boa-fé nunca porei em questão. Na sequência da amena conversa diz-me: ao saber de alguns dos acontecimentos da tua vida fui sempre levado a pensar que farias parte de alguma sociedade secreta ou mesmo de uma estrutura militar secreta, de gente de esquerda. Mas acrescentou: sei que não me mentes e pelo que dizes isto não é verdade eu acredito piamente. Não precisas de me dizer mais nada, concluiu.

Uma posição de partida não muito diferente de Jorge G. de há cinquenta anos, mas de chegada completamente diferente. Bastava eu dizer que sim ou que não, ele aceitava o que eu dissesse como resposta. Não há aqui nenhum maquiavelismo e se queres falar em ismos falemos então, isso sim, de humanismo, disse-lhe eu. Expliquei-lhe então longamente o que para mim e através do que vivi foram e são os fios invisíveis da solidariedade que suportam as sociedades e as pessoas em situações de dificuldade, o que são os fios invisíveis que me movem na minha relação de hoje com os outros e de que ele próprio fazia parte, o que são os fios invisíveis de todos aqueles que nas suas relações comigo me ajudam naquilo que preciso e em que eles podem. Só assim se pode perceber aquilo que foi feito e escrito relativamente a 1972. Assim percebo tudo, foi a resposta.

Mas o que eu a esse meu amigo de longa data não disse, porque chegou um outro amigo comum e a conversa foi interrompida, foi de que a esquerda na sua busca de objetividade tende a esquecer os fios invisíveis a que me refiro, porque são expressão sobretudo da subjetividade humana. Porém ignorar esses fios é aceitar a lógica neoliberal de que não há sociedade ou que tudo deve ser feito para desconstruir essa ideia porque esta não tem suporte na realidade.

Não é por acaso que em momentos de tensão social o que os Estados neoliberais fazem, utilizando todos os meios coercivos possíveis, é dividir para reinar, é fragmentar os elos sociais, é desfazer os ditos fios invisíveis, é aniquilar a ideia de sociedade, é defender o modo atual de vida coletiva, neoliberal, uberizada, atomizada. Por obra e graça dos que ainda hoje defendem as teses de Margareth Thatcher ou por obra daqueles que dizem ser seus opositores (mas não são!), representados pela esquerda oficial, estamos a atingir o estádio supremo do modo de vida descrito pela Dama de Ferro que espero esteja agora a enferrujar em paz…

Relembremos Thatcher:

“Penso que nós atravessamos um período em que muitas crianças e pessoas me deram a entender “Eu tenho um problema, cabe ao governo procurar resolvê-lo.” ou de forma ligeiramente diferente “Eu tenho um problema, eu irei obter uma subvenção para o poder suportar!” ou “Sou um sem abrigo, o governo deve alojar-me!”, ou seja, projetam sobre a sociedade a resolução dos seus problemas, mas então o que é a sociedade? Não existe tal coisa! Há indivíduos, homens e mulheres, há famílias e nenhum governo pode fazer seja o que for, que não seja através das pessoas mas as pessoas olham primeiramente para elas próprias.”

Não querer a esquerda reconhecer a força política destes fios invisíveis é simplesmente colocar-se no campo oposto, no campo que diz combater e daí o espetáculo degradante da simbiose direita-esquerda a que desde há décadas temos vindo a assistir.

E a nossa conversa deveria ser rematada aqui e desta maneira.

 


Notas

[1] Segundo a base de dados Pordata, esta remuneração, do final dos anos 1950/inícios de 1960, significa em poder de compra de então o equivalente hoje ao poder de compra de 3,60-4.50 euros por dia. Chamei a isto Troca Desigual interna. Refira-se ainda que esta era a remuneração auferida  pelas mulheres por dia de trabalho e quando havia trabalho.

Percebe-se a história dos Vilela contada mais abaixo- eram cinco bocas em casa.

[2] Segundo a base de dados Pordata, esta remuneração – finais de 1950/inícios de 1960 – significa em poder de compra de então o equivalente hoje ao poder de compra de 7.20-8.10 euros por dia, hoje. Chamei a isto Troca Desigual interna. Refira-se ainda que esta era a remuneração auferida  por dia de trabalho e quando havia trabalho.

Resta uma pergunta: se a vida era  assim tão difícil como é que o meu pai se comportava da  maneira como relato, como é que ele podia ajudar alguém se estava ao mesmo nível de pobreza que os outros? A resposta é simples: o meu pai teve uma infância-adolescência bem pior que a minha . Ficou órfão de mãe à nascença. Não teve ninguém que o levasse à escola. Ficou analfabeto, cresceu no “mato” da vida, foi homem dos sete ofícios, e dizem-me que em todos foi exímio, como  moleiro, a fazer enxertias em arvores de fruto, a abrir poços, a podar olivais ou vinhedos e trabalhos de campo em geral, como caçador e pescador. Encontro agora mesmo, ao escrever esta nota de pé de página,  a explicação para tal comportamento: ele, ainda  mais do que eu, terá um verdadeiro produto dos  fios invisíveis tecidos de solidariedade humana que em períodos de crise sustentam as sociedades e as pessoas que nelas estão em dificuldade. Sem que alguma vez tenha ouvido falar de Kant era fiel ao imperativo  kantiano.

Desde pequeno e nas margens do Tejo, quando aí era moleiro- nesse tempo não havia nenhuma ideia do que era trabalho infantil- aprendeu a pescar e a caçar como um verdadeiro perito. Quando precisava ia caçar, quando precisava ia pescar. Legal ou ilegalmente, em época autorizada ou em época proibida. E acrescente-se- isto fazia-se de dia ou de noite. Desculpem-me, parece que estou a ler a Ideologia Alemã  de Karl Marx  mas obviamente  isto não tem nada a ver com Marx.

 

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