Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise: Parte II — Texto 2 – O que é Consciência Fonológica? O que é Consciência Fonémica? Qual é a Diferença? Por SAVVAS

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

 

Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.

Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes

Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium

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Nota de editor:

A ordem que se segue nesta Parte II respeita a progressão de dificuldade estabelecida pelo autor da série — N1, N2, N3 — com uma sequência interna a cada grupo pensada para maximizar a coerência de leitura: dos conceitos mais gerais para os mais específicos dentro de cada nível. O presente texto enquadra-se no Nível 1.

FT


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

9 min de leitura

Texto 2 – O que é Consciência Fonológica? O que é Consciência Fonémica? Qual é a Diferença?

Parte 2 da série A Ciência da Leitura Simplificada

Por Savvas Insights Team

Publicado por em 28 de Janeiro de 2025 (original aqui)

 

Neste segundo volume da série de blogs A Ciência da Leitura Simplificada, criado pela Savvas Insights e pela Dra. Sharon Vaughn, respondemos a essas perguntas e mostramos como é o ensino dessas duas competências críticas de leitura na sala de aula. Além disso, forneceremos dicas para professores, os três principais elementos que os gestores escolares devem observar no ensino da consciência fonológica e fonémica, e muito mais.

 

 

Estudos mostram que 90% das crianças com sérias dificuldades de leitura apresentam um défice principal no processamento fonológico.

A investigação da ciência da leitura mostra-nos que a consciência fonológica e a consciência fonémica são competências críticas que os jovens alunos precisam de desenvolver para se tornarem leitores bem-sucedidos. No entanto, estes dois termos de som semelhante são frequentemente confundidos pelos educadores. Se a isso somarmos definições por vezes excessivamente complicadas, pode tornar-se difícil para os professores compreenderem plenamente os dois conceitos — e, consequentemente, ensiná-los de forma eficaz e envolvente.

Sharon Vaughn, autora e especialista em Literacia do Savvas, pensa que uma melhor compreensão de como estas competências desempenham um papel no desenvolvimento da leitura de um aluno não só ajuda os professores de leitura com a sua instrução, como conduzirá a uma menor dependência de fichas de exercício e a um maior prazer para professores e alunos. Ao trazer a diversão para a consciência fonológica, a aprendizagem torna-se mais apelativa e significativa.

“As atividades de consciência fonológica e consciência fonémica são algumas das atividades mais divertidas que se podem fazer na sala de aula”, disse Sharon. “Não se trata apenas de pegar numa folha de papel e desenhar caixas de som. Dê vida a isso!”

 

O que é Consciência Fonológica e como é que ela se diferencia da Consciência Fonémica?

Nos seus primeiros anos de vida, às vezes antes mesmo de entrarem numa sala de aula, as crianças começam a desenvolver a consciência fonológica, ou seja, tornam-se cada vez mais conscientes de como a linguagem falada funciona. Essa consciência fonológica é um trampolim fundamental para aprender como é que as palavras escritas funcionam e, finalmente, aprender a ler.

Existem cinco níveis de consciência fonológica. Esses níveis começam de forma simples e tornam-se mais complexos à medida que as crianças desenvolvem a capacidade de perceber, pensar e trabalhar com os sons individuais (ou fonemas) das palavras. Os cinco níveis de consciência fonológica são: consciência da palavra, consciência de rimas e aliterações [1], consciência silábica, consciência de grafema-fonema (princípio alfabético/início e rima) e consciência fonémica. A consciência fonémica é o último e mais sofisticado nível da consciência fonológica, sendo crucial para aprender a ler. A consciência fonémica ajuda os alunos a mapear os sons da linguagem para as letras e, consequentemente, para a leitura de palavras.

 

O que é Início e Rima (Onset and Rime)?

Onset e rime são duas partes de uma palavra. O início (onset) é o primeiro som de consoante, grupo de consoantes ou diagrama numa palavra monossilábica ou sílaba. A rima (rime) é o primeiro som de vogal seguido por todos os outros sons (como o “og” em dog, ou o “each” em teach).

“O objetivo final é ler para compreender. Mas se não reservarmos um tempo para construir a consciência fonológica e a consciência fonémica, demorará mais para se conseguir esse objetivo”, disse Sharon. “Construir uma casa sem fundação não é muito estável e não dura. Por isso, queremos garantir que essa base esteja bem estabelecida.”

 

Como é que é o Ensino da Consciência Fonémica?

A consciência fonémica é a etapa mais desafiadora e valiosa no desenvolvimento da consciência fonológica do aluno, e contribui para a aquisição de uma competência de leitura crítica: a fonética (método fónico). Por isso, é importante que os educadores dediquem tempo para garantir que os alunos desenvolvam essa competência através de um ensino explícito.

Existem seis elementos fundamentais da consciência fonémica que, uma vez dominados pelos alunos, construirão a base sólida para aprender a ler. Esses elementos incluem:

  • Isolamento de fonemas
  • Segmentação
  • Agrupamento (ou síntese fonémica)
  • Manipulação
  • Exclusão e substituição
  • Adição

A seguir, veja como esses seis elementos podem se parecer na sala de aula. (O texto em itálico representa o professor a falar aos  alunos.):

  • Isolamento de fonemas: Digam a palavra “road” (estrada). Qual é o primeiro som na palavra “road”? Os alunos respondem: /r/. Qual é o último som na palavra “road”? Os alunos respondem: /d/.
  • Segmentação: Digam a palavra “man” (homem). Agora, decomponham, ou segmentem, os sons nessa palavra e o que obtêm? Os alunos respondem: /m/ /a/ /n/.
  • Agrupamento (ou síntese fonémica): Digam os seguintes sons /c/ /a/ /t/. Juntem esses sons, ou agrupem-nos, e o que se obtém? Os alunos respondem dizendo a palavra cat (gato).
  • Manipulação: Digam a palavra “dog” (cão). Agora, retirem o som /o/ e substituam pelo som /i/. O que se obtém? Os alunos respondem dizendo a palavra “dig” (cavar).
  • Exclusão e Substituição: Digam a palavra “came” (veio). Agora, tirem o som /c/ e o que sobra? Sobra ame. Agora, coloquem o som /t/ na frente de ame e o que vocês obtêm? Os alunos respondem dizendo a palavra “tame” (domesticou).
  • Adição: Digam a palavra pot (panela). Agora, vamos colocar o som /s/ na frente dela. O que se obtém? Os alunos respondem dizendo a palavra spot (lugar/local).

Comece com palavras fáceis e aumente a dificuldade gradualmente. Por exemplo, comece com palavras de três ou quatro letras, como dog (cão) ou came (veio) mas depois passe para palavras mais complexas, como berry (amora). Torne o processo envolvente usando palavras engraçadas e brincando com os sons. Aumente a dificuldade até que as crianças comecem a reconhecer a relação entre os sons das palavras faladas e as palavras que veem escritas.

“Deve-se  avançar do fácil para o mais difícil. Depois, passa para o texto escrito. Em seguida, vai direto para a fonética — e tudo é tão bonito”, disse Sharon. “E as crianças ficam tão felizes porque é muito divertido brincar com a linguagem.”

Agora que aprendemos tudo sobre consciência fonológica e consciência fonémica e porque são uma parte tão importante da aprendizagem da leitura, aqui estão algumas atividades, lembretes e sugestões para os educadores considerarem ao planear as suas aulas.

 

Torne a Consciência Fonémica Divertida!

Sharon acredita que é possível divertir-se muito na sala de aula com a consciência fonémica. Aqui estão algumas ideias que ela sugere e que se  pode começar a usar com os vossos alunos imediatamente.

Esconda os Sons

Pegue uma palavra como cat (gato) e diga-a aos seus alunos. Diga-lhes que vai pegar no som /c/ e colocá-lo atrás da sua orelha. Pergunte: O que sobrou? Os alunos respondem: at. Coloque a mão no bolso e saque o som /m/. Peça aos alunos que coloquem o som /m/ antes de at e pergunte: O que temos? Os alunos respondem: mat (tapete)! A esta prática de consciência fonémica chama-se exclusão e substituição.

Ponham-se em Fila!

Peça aos seus alunos para se organizarem em fila de acordo com os sons. Por exemplo, quando for hora de formar a fila na sala de aula, você diz: Se o seu nome começa com o som /a/, pode entrar na fila. Então, esses alunos tomam os seus lugares na fila. Depois, você pode dizer: Se o seu nome começa com o som /p/, você pode entrar na fila. E assim por diante. Essa competência de consciência fonológica é chamada de isolamento de fonemas.

Transformar Alunos em Sons

Atribua um som a cada aluno e monte palavras a partir desses sons. Em seguida, chame-os pelos seus sons para formar uma palavra. Por exemplo, chame o aluno com o som /t/, depois o aluno com o som /i/ e, em seguida, o aluno com o som /p/. Peça para que fiquem juntos para formar a palavra tip (gorjeta/dica). Essa competência de consciência fonémica é chamada de síntese fonémica (ou blending).

Dica: Você pode fingir que está a “engolir” palavras ou a “atirar ” sons para o teto e, num piscar de olhos, os seus alunos saberão tudo sobre consciência fonológica e fonémica.

 

Lembretes Rápidos!

Quando estiver a ensinar a consciência fonológica, certifique-se de que pode responder “sim” a estas perguntas:

  • Tornei o meu ensino multissensorial?
  • Estou a verificar a compreensão?
  • Estou a oferecer aos alunos oportunidades adicionais de prática?

 

Atividades Divertidas de Consciência Fonológica para Famílias

Aqui estão algumas atividades que os professores do infantário ao 2º ano podem partilhar com as famílias dos alunos, ajudando a prolongar a aprendizagem além da sala de aula de forma divertida.

  • Cantem ou oiçam rimas infantis. Desafie a criança a identificar as palavras que rimam.
  • Jogue ao “Eu Vejo” utilizando a pista: “Eu vejo uma coisa que começa com o som… “
  • Joguem à macaca. Peça à criança para dizer uma frase e dar um salto por cada palavra dita.
  • Criem frases engraçadas ou “parvas” onde a maioria das palavras comece com o mesmo som (recurso à aliteração).
  • À hora de jantar, peça às crianças para nomearem os alimentos no prato e usarem os talheres para bater o número de sílabas de cada um.

Explique aos pais e encarregados de educação que, com a ajuda deles em casa, as crianças terão o apoio necessário para se tornarem boas leitoras, confiantes e de sucesso.

 

Os 3 Principais Elementos a Observar

Ao pesquisar recursos eficazes para o ensino da leitura na primeira infância, os gestores escolares devem certificar-se de que o material possua os três elementos-chave a seguir para garantir o sucesso dos seus jovens alunos:

  • A instrução deve ser explícita. Ela deve incluir rotinas diretas e focadas que dividam ideias mais amplas em unidades menores e mais fáceis de utilizar , que os alunos possam usar para construir uma base sólida para conceitos mais complexos.
  • A instrução deve ser multissensorial. Ela deve envolver todos os sentidos dos alunos. Deve oferecer oportunidades para que eles escrevam letras, falem os sons e vejam ou até mesmo toquem em letras e palavras.
  • A instrução deve ser sistemática. Busque um objetivo  e sequência sistemáticos e certifique-se de que as competências  se desenvolvam de forma progressiva (uma servindo de base para a outra).

 

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[1] N.T. Aliteração é uma figura de linguagem que consiste na repetição de sons consonantais ou sílabas parecidas em palavras próximas, criando um efeito sonoro, ritmo ou musicalidade.

 

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Sobre a autora,  Professora Doutora Sharon Vaughn: é a presidente da cadeira Manuel J. Justiz em Educação e a diretora executiva do Centro Meadows de Prevenção de Riscos Educacionais da universidade do Texas em Austin. Atualmente é investigadora ou co-investigadora em várias iniciativas de investigação (Institute for Education Sciences, National Institute for Child Health and Human Development E U. S. Department of Education) sobre intervenções eficazes para estudantes com dificuldades de leitura e estudantes que aprendem inglês.

 

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