Espuma dos dias — Contra a falsa simetria das tesouras: uma carta aberta enquanto o Irão resiste a uma guerra ilegal de agressão. Por Vijay Prashad

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 min de leitura

Contra a falsa simetria das tesouras: uma carta aberta enquanto o Irão resiste a uma guerra ilegal de agressão

Vijay Prashad, em resposta ao The Guardian

Publicado por  em 22 de Agosto de 2026 (original aqui)

 


Previamente à carta de Vijay Prashad, apresentamos uma introdução da autoria de Zoe Alexandra e Rania Khalek, publicada por  em 27 de Agosto de 2026 (original aqui)

 

Vijay Prashad critica a obscura carta ao Irão do The Guardian

O prisioneiro político norte-americano Mumia Abu Jamal nunca assinou a carta aberta “aos presos políticos iranianos” – e Vijay Prashad diz que o Guardian nos deve respostas.

O director executivo do Instituto Tricontinental de Investigação Social junta-se a Rania Khalek e Zoe Alexandra ao lado do jornalista Navid Zarrinnal, de Teerão, para dissecar o “obscuro” texto assinado por mais de vinte académicos e activistas ocidentais, incluindo Angela Davis, Judith Butler e Robin D. G. Kelley, e porque razão Prashad argumenta que fornece exactamente o tipo de cobertura ideológica que a máquina de guerra dos EUA precisa para continuar a bombardear [o Irão].

Ele explica por que a carta nunca foi dirigida aos iranianos, mas sim aos liberais ocidentais. Ele pergunta por que razão os mesmos signatários nunca colocaram os seus nomes por detrás dos ativistas da Ação Palestina presos pelo governo do Reino Unido, ou dos 1.400 prisioneiros palestinos em Ktzi’ot. Zarrinnal argumenta que a resistência do Irão, “a expressão mais material de anti-imperialismo e descolonização no mundo neste momento”, mostra quão “oca” é a sinalização académica da virtude.

Enquanto o governo Trump promete sanções mais severas ao Irão e seus parceiros, e a China já prometeu sancionar se Washington seguir adiante, Prashad observa que o presidente do Irão disse na segunda-feira que o seu país está a lutar para evitar tornar-se outra Venezuela – com o seu petróleo, a sua soberania e o seu presidente eleito mantido refém por Washington.

 

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A carta aberta de Vijay Prashad

 

Caros amigos e colegas,

Os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra de agressão contra o Irão em fevereiro deste ano. Durante seis meses, mísseis e bombas norte-americanas têm caído sobre alvos civis e militares no interior do país. Hospitais, escolas, instalações de energia e bairros foram atingidos. As 168 meninas estudantes mortas em Minab tornaram-se o terrível símbolo dessa guerra. Os iranianos foram forçados a viver sob a expectativa constante de outro ataque, enquanto as famílias iranianas fora do país suportam a agonia peculiar de assistir à destruição à distância. Isto vem na sequência de três anos de genocídio israelita em Gaza, que foi levado a cabo graças ao apoio militar implacável dos Estados Unidos.

O Irão não iniciou esta guerra. Foram os Estados Unidos e Israel. O Irão está a resistir a um ataque armado contra o seu território e o seu povo. Esse facto elementar deve determinar o momento, a linguagem e as responsabilidades políticas de qualquer pessoa que escreva sobre o Irão neste momento.

É nesse contexto que li a vossa carta aberta aos presos políticos do Irão.

Entre vocês estão ex-presos políticos (como Angela Davis) e um preso político atual [nos EUA] (Mumia Abu-Jamal). Tenho concordado com muitos de vocês na maioria das grandes questões do nosso tempo. É claro que há pontos na vossa carta com os quais concordo, mas sinto que essa carta, neste momento, desempenha um papel politicamente prejudicial. Justamente quando os Estados Unidos e Israel estão na defensiva, essa carta pode gerar o tipo de confusão política que obscurece a dinâmica política real no terreno: o Irão detém a vantagem estratégica, tendo transformado a questão dos EUA e de Israel (se o Irão deve ter permissão para possuir armas nucleares) numa questão iraniana (se o Irão deve permitir o comércio pelas suas águas territoriais sem impedimentos). Isso constitui o pano de fundo da clareza moral da esquerda: a guerra de agressão que fracassou e que colocou o Irão, bem como os seus vizinhos, numa discussão sobre segurança regional, em vez de segurança imperial.

Mas esta carta, proveniente do Norte Global, oferece o tipo de cobertura ideológica que os EUA adoram: se os EUA perderam, então que todos os lados percam e que todos os lados sejam culpados.

A imagem central, duas lâminas de uma tesoura, é evocativa, mas errónea. Ela sugere que uma das lâminas é a República Islâmica e a outra são os Estados Unidos e Israel, com o povo iraniano sendo cortado por ambas. O erro da tesoura não é meramente que as suas lâminas sejam desiguais. É que a imagem faz com que o agressor e o atacado pareçam fontes paralelas do mesmo perigo, ignorando a história e a hierarquia que os conectam. O imperialismo norte-americano não é simplesmente uma opressão ao lado de outra. É a força que cercou o Irão, devastou a região, armou Israel, impôs sanções a toda uma população e agora levou a guerra ao território iraniano. A vossa carta coloca a agressão e o seu alvo no mesmo plano moral.

Os Estados Unidos mantêm mais de 900 instalações militares fora das suas fronteiras, impõem sanções a populações inteiras, financiam e armam o genocídio de Israel em Gaza e têm destruído ou desestabilizado um país após o outro. O Irão, independentemente das críticas que se possam fazer ao seu sistema político, nunca lançou guerras de agressão. O Estado nascido da Revolução de 1979 não lançou guerras de conquista, mas, em vez disso, sofreu a invasão do Iraque a mando do Ocidente, cerco, sanções, sabotagem, assassinatos e, agora, um ataque direto. As duas lâminas não são equivalentes. Uma é a lâmina da guerra imperialista. A outra, quaisquer que sejam as suas contradições internas, é o Estado e a sociedade que estão a ser cortados.

 

Vazio

A carta aberta argumenta que existe uma “falsa dicotomia entre imperialismo e anti-imperialismo vazio”. Fiquei interessado no uso do adjetivo “vazio”.

Primeiro, a defesa efetiva do Irão. O assassinato do comandante Qasem Soleimani em Bagdade, no Iraque, em 2020, marcou uma etapa decisiva na escalada que culminou no ataque ilegal ao Irão em fevereiro de 2026. Soleimani foi o arquiteto da estratégia de avanço do Irão, ou seja, construir um escudo defensivo por meio de grupos armados pró-iranianos que atacariam Israel e posições militares dos EUA a partir do Líbano, da Síria, do Iraque, do Iémen, da Palestina e de outros países. A partir de 2020, os EUA e Israel passaram a perseguir sistematicamente essa rede, tentando destruir o Hamas, o Hezbollah e o Ansar Allah, além de pôr fim ao uso de Damasco como base para muitos desses grupos, bem como da Síria e do Iraque como linha de abastecimento logística proveniente do Irão. Tendo enfraquecido esse escudo, os EUA e Israel sentiram-se encorajados a atacar o Irão. Mas não levaram em conta que o Irão havia construído um mecanismo para atingir as bases dos EUA nos Estados árabes do Golfo e que restringiria o acesso ao Estreito de Ormuz.

O uso desses mecanismos pelo Irão colocou o país em vantagem estratégica sobre os Estados Unidos e Israel (este último, que posteriormente recuou do primeiro plano dessa guerra). O anti-imperialismo do Irão não tem sido de forma alguma “vazio”, mas, na verdade, permitiu ao povo iraniano proteger o seu país de uma tomada de controle imperialista. Trata-se de um feito significativo que está a ser comemorado em todo o mundo anteriormente colonizado como uma das reviravoltas estratégicas mais importantes sofridas pelos Estados Unidos desde a sua derrota no Vietname em 1975 (as retiradas do Afeganistão e do Iraque têm um carácter diferente dessa vantagem estratégica do Irão).

Em segundo lugar, em 1979, os revolucionários iranianos entoavam: “Hoje o Irão, amanhã a Palestina”. De facto, apesar da repressão à esquerda no Irão logo após a revolução e com a formação da República Islâmica, o compromisso com a Palestina permaneceu firme. O Irão nunca sequer deu a entender que haveria normalização com Israel e, de facto, tem sido enfático na sua defesa da causa palestiniana. Nenhum outro país da região se tem mostrado tão comprometido com o movimento de libertação palestino, e nenhum pagou um preço tão alto por esse compromisso.

Porque razão os Estados Unidos e Israel estão obcecados com o Irão desde 1979? Não por causa de qualquer questão de democracia (o Irão possui um sistema político eleitoral, embora moldado pelo Conselho dos Guardiães e por limitações à participação política – assim como as alegações de democracia dos Estados Unidos são restringidas pelo poder oligárquico, pela exclusão racial e pelo domínio do dinheiro que existem nos EUA). Nem mesmo por causa de qualquer ameaça nuclear (a Agência Internacional de Energia Atómica não comprovou que o Irão possua um programa ativo de armas nucleares, enquanto a liderança iraniana declarou repetidamente que as armas nucleares são proibidas pela religião).

A razão pela qual odeiam o Irão é porque ele é desafiador, e o seu desafio inclui a sua posição em favor da causa palestiniana.

É claro que cada um pode ter a opinião que quiser sobre o Irão, mas chamar ao seu anti-imperialismo de “vazio” neste momento é inexacto.

 

Os EUA devem retirar-se

A carta aberta encerra com duas exigências: primeiro, que o Estado iraniano “cesse agora a sua prática desumana de morte e encarceramento”. A oposição comum à pena de morte, que eu compartilho, não coloca os Estados Unidos e o Irão na mesma posição histórica ou política, nem justifica subordinar a exigência imediata de que o agressor ponha fim à sua guerra a uma acusação geral contra o país atacado. Durante esse período da guerra ilegal dos EUA contra o Irão, os Estados Unidos executaram dezenove pessoas por injeção letal, mas a carta não diz nada sobre isso (nem sobre o tratamento genocida dos prisioneiros palestinianos nas versões israelitas de Guantánamo – como Sde Teiman, sobre a qual Wesam Afifa escreveu de forma tão comovente; a única afirmação é dizer que o Irão usa “a mesma lógica de dominação” que Israel, o que é uma formulação muito estranha). É possível opor-se à pena de morte. É possível exigir o devido processo legal e tratamento humano para os presos. É possível ouvir atentamente os trabalhadores, as mulheres, as minorias e os ativistas políticos iranianos. Mas a crítica interna não pode ser dissociada das condições concretas em que é feita.

A segunda exigência da carta aberta é que os EUA e Israel “devem pôr fim às suas guerras bárbaras e às sanções brutais que, conscientemente, devastam as nossas comunidades”. Concordamos plenamente com isso. Mas a carta não é dirigida aos Estados Unidos, e sim aos presos iranianos. Essa é outra curiosidade da sua formulação. Os signatários são, na sua maioria, cidadãos norte-americanos. Porque não escrever ao próprio governo? A carta dedica a maior parte da sua energia analítica à construção de uma lógica carcerária comum, enquanto a exigência dirigida contra os agressores imperialistas é comprimida na sua frase final. A condenação formal da guerra não desfaz a arquitetura política da carta, que confere status paralelo à guerra de agressão dos EUA e de Israel e ao sistema prisional iraniano.

Frantz Fanon ensinou-nos que as lutas anticoloniais não se desenrolam sob condições da sua própria escolha. Estados submetidos à ameaça permanente de invasão, sabotagem e mudança de regime desenvolvem profundas contradições internas, nomeadamente instituições de segurança que podem voltar a coerção contra o seu próprio povo. Vocês pedem à “sociedade civil global e aos ativistas e organizações anti-imperialistas” que “exerçam pressão sobre a República Islâmica, contestando a sua narrativa”. Isso significa, em resumo, pedir aos povos do mundo que assumam uma posição que enfraqueceria o Irão agora, quando ele se mantém firme contra a guerra de agressão. Há um momento para fazer uma exigência e há um momento para agir em solidariedade. Este é o momento de solidariedade com o Irão, e não o momento de fazer uma reivindicação que beneficie os imperialistas agressores.

Caros amigos, a neutralidade ou um “terceiro espaço” não existem no meio de uma guerra de agressão. Escreveríamos uma carta como esta ao governo vietnamita em Hanói durante a guerra de agressão dos EUA, ou ao governo cubano, que agora enfrenta um terrível estrangulamento por parte dos Estados Unidos? Por que dirigir esta intervenção contra o Irão neste momento? Porque desafiar o Irão justamente quando ele tem os Estados Unidos e Israel na defensiva? É preciso pedir que o Irão se torne perfeito antes de defender o seu direito à sobrevivência?

 

Neste momento, a solidariedade começa com uma exigência clara: os Estados Unidos e Israel devem pôr fim à sua guerra ilegal e devem-se retirar.

 

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Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano, é o diretor executivo do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. É autor de 40 livros, incluindo As balas de Washington, Uma estrela vermelha sobre o terceiro mundo; Uma história popular do terceiro mundo; Nações pobres: uma história possível para o Sul Global; A Possible History of the Global South, e The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan, and the Fragility of U.S. Power, escrito com Noam Chomsky. É também correspondente chefe da Globetrotter e editor chefe da LeftWord Books (Nova Déli). Participou em dois filmes: Shadow World (2016) e Two Meetings (2017).

 

1 Comment

  1. Não gosto do regime iraniano pela forma como trata as mulheres e pelas prisões de políticos que se opõem ao governo do Irão, mas dei por mim, perante a agressão dos EUA e de Israel (confesso que não sei se aqui o subserviente não é o governo dos EUA), a comentar com pessoas amigas que, perante a criminosa agressão que o Irão estava a sofrer, passei a estar do lado do governo do Irão, embora não deixando de continuar a condenar os procedimentos internos que referi.

    A carta dos intelectuais ocidentais diz muito do que penso, mas o texto que agora vos envio de Vijay Prashad, em resposta àquela carta, está muito mais de acordo com o que realmente penso.

    Não vou tecer mais considerações, os leitores são pessoas que pensam pela própria cabeça e, naturalmente, terão as suas próprias opiniões sobre o que aqui está em discussão. Fico já satisfeito se os textos divulgados neste blogue vos levaram a pensar sobre tão importante acontecimento que a todos envolve e de que, quem sabe, talvez o nosso futuro esteja dependente.

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