CONTOS – Por José Fernando Magalhães

 

 

O Chuço da carreira 502

 

Ninguém reparou nele quando o autocarro arrancou junto ao mercado de Matosinhos. Estava ali, na parte da frente, encostado ao canto entre dois bancos, ainda a pingar discretamente, como se chorasse por ter sido deixado para trás. Via a rua, de soslaio, junto à janela. A chuva batia forte no tejadilho, e o autocarro ia cheio de gente com sacos de compras, mochilas molhadas, casacos escuros colados ao corpo. Sentiu-se invisível, ninguém parecia vê-lo.

Chuço, era assim que sempre lhe chamaram, outrora orgulhoso de proteger alguém, agora observava o mundo a partir do chão vibrante da carreira 502. Cada curva era um pequeno balanço, cada travagem um soluço. Cada abrir e fechar das portas uma réstia de esperança.

– Será que me esqueceram, ou abandonaram? Deixei de ser útil?

À medida que o autocarro avançava pelas ruas e avenidas de Matosinhos, Chuço começou a imaginar histórias para justificar o seu abandono.

Não se lembrava de há quanto tempo ali estava, sem que uma única mão o tocasse. Teria sido já há muito? Ele, que andava sempre acompanhado por alguém quando saía à rua, sentia o peso insólito do desamparo. Sozinho! Talvez o seu amigo e companheiro tivesse corrido para apanhar o peixe fresco no mercado e o tivesse esquecido na pressa. Ou tivesse sido deixado de propósito, como quem se livra de um objecto que já não quer carregar, largado a um canto com a mesma indiferença com que se abandona um fardo inútil. E por certo, fosse esta a hipótese que mais lhe doía, nem sequer tivesse reparado na sua falta e se tivesse esquecido que ele ali estava. Era pior não saber.

Quando o autocarro entrou no Porto, sentiu uma estranha sensação de aventura. Lembrou-se de que ainda há pouco tempo ali passara, abrigando alguém. Lembrou-se da chuva batida pelo vento forte, do cheiro do mar e das mãos fortes e molhadas que o seguravam firmemente.

Passou pela rotunda da Anémona, viu o mar desaparecer atrás dos prédios, ouviu conversas sobre trabalho, futebol, e os preços da gasolina e das sardinhas, que estavam pela hora da morte. Perto de si, uma criança ria, ria, ria. E ele sorriu. Mais ao lado, alguém discutia ao telemóvel, em voz baixa, e uma senhora queixava-se: – Ai que chuva, meu Deus!

Ninguém se interessou por ele. Ninguém o recolheu. Ninguém o empurrou. Ninguém o reclamou. Por ele roçavam bainhas encharcadas, e foi pisado por sapatos distraídos e apressados, sem que quem quer que fosse baixasse os olhos para o olhar.

Ao chegar à rua do Bolhão, o autocarro parou com um suspiro cansado. As portas abriram-se e a multidão que ainda restava da que fora entrando e saindo ao longo do percurso, saiu por fim, deixando-o para trás. Nem o motorista deu pela sua presença.

Passaram minutos e o Chuço despertou do torpor. Após o primeiro impacto, de medo e sentimento de abandono, sentiu um certo alívio. Havia gente à porta do autocarro. Talvez o seu amigo voltasse. Talvez alguém o adoptasse. Ou talvez continuasse a viajar, silencioso e fiel, pelas carreiras do Porto, até encontrar um novo destino.

De repente, uma voz carinhosa.

– É aquele, o vermelho-escuro. Gosto tanto dele. Obrigado.

E em surdina, quase colada ao seu pano ainda húmido:

– Chove tanto. Ainda bem que te encontrei.

Não reconheceu a voz, nem o cheiro, nem o toque. Não era o seu amigo. Era outra pessoa. Mas não fazia mal. Afinal, ele pertenceria a quem precisasse dele.

– Nunca ninguém percebe que a chuva acaba sempre por encontrar quem sai sem companhia, pensou.

Lá fora, a chuva continuava a cair.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Comment

  1. Chuço é uma palavra esquecida, mas antigamente muito em uso. Era o nome que se dava ao guarda-chuva talvez por ser mais pequena e ter o mesmo significado para os portuenses. Eu chamo chuço ao guarda-chuva. Está sempre visível devido às actuais alterações climáticas. Na Foz do Douro choveu ontem (dia 5). Felizmente foi por pouco tempo, mas deu para regar as culturas, plantas…

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