Seleção de Francisco Tavares
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A Europa está a preparar a guerra que diz querer evitar
Em 20 de Setembro de 2026 (original aqui)
A título de introdução, e para tranquilizar os zelosos inimigos da liberdade de expressão — uns, dóceis à propaganda; outros, talvez remunerados para desempenhar o ofício de sentinelas —, convém esclarecer que, para mim, o valor de um artigo de opinião não se mede pela quantidade de aplausos que recolhe. Mede-se também pela quantidade de indivíduos que, incapazes de o refutar de frente, recorrem à cómoda clandestinidade de um perfil falso no Facebook. Quanto às razões dessa singular coragem, deixo-as à consideração do leitor.
Há qualquer coisa de profundamente inquietante na forma como alguns governos europeus passaram, nos últimos anos, de uma política de contenção do conflito para uma política de confronto permanente com a Rússia. Já não parece suficiente apoiar a Ucrânia, fornecer armamento, impor sanções ou reforçar as fronteiras orientais da NATO. Discute-se agora abertamente a possibilidade de abater aviões russos, fala-se em responder militarmente a incursões aéreas e transforma-se cada drone que surge no horizonte num potencial casus belli. É como se a Europa estivesse, progressivamente, a habituar os seus cidadãos à ideia de que uma guerra directa com a Rússia não é apenas possível, mas inevitável.
O Governo britânico acaba de recomendar aos seus cidadãos que façam reservas de água e alimentos, sob o argumento de que uma guerra com a Rússia poderá estar iminente. Isto, apesar de a Rússia não ter declarado guerra ao Reino Unido. A recomendação deixa, no mínimo, uma inquietante interrogação: estará o Governo britânico apenas a preparar a população para um eventual conflito ou estará, também, a criar condições para escoar os grandes stocks de produtos acumulados nas prateleiras, em benefício dos interesses económicos dos seus oligarcas?
E isso merece uma pergunta elementar: a quem interessa esta escalada?
- O curioso caso do «espaço aéreo da NATO»
A antiga primeira-ministra finlandesa Sanna Marin defende que a NATO deveria abater qualquer caça russo que viole o espaço aéreo da Aliança. A afirmação parece simples, mas as palavras, sobretudo quando pronunciadas por antigos governantes, exigem rigor.
Onde começa e onde termina o chamado «espaço aéreo da NATO»?
A NATO não é um Estado, mas uma aliança político-militar constituída por Estados soberanos. O espaço aéreo sobre Portugal pertence a Portugal; o da Finlândia, à Finlândia; o da Alemanha, à Alemanha. A própria documentação da Aliança define o conceito de «NATO airspace» a partir do espaço aéreo dos seus Estados-membros.
Assim, quando se afirma que um avião russo «violou o espaço aéreo da NATO», convém perguntar: violou o espaço aéreo de que Estado? Da Finlândia? Da Polónia? Da Estónia? Da Letónia? Se foi assim, o problema tem nome, território e soberania perfeitamente identificáveis. O resto é linguagem política.
E a linguagem política, quando aplicada a assuntos militares, pode deixar de ser apenas linguagem: pode transformar-se num mecanismo de escalada.
- Da provocação ao incidente; do incidente à guerra
A NATO dispõe de mecanismos de vigilância e policiamento aéreo e mantém forças preparadas para interceptar aeronaves em situações consideradas suspeitas ou de violação do espaço aéreo dos seus membros. Isso é compreensível. O que merece reflexão é a facilidade com que determinados dirigentes europeus parecem querer transformar cada incidente num teste à credibilidade da Aliança.
Há uma diferença colossal entre interceptar uma aeronave e decidir abatê-la. A primeira pode ser uma operação de defesa aérea; a segunda pode matar pessoas e desencadear uma sequência de decisões cujas consequências ninguém consegue controlar.
O artigo 5.º do Tratado de Washington estabelece que um ataque armado contra um membro é considerado um ataque contra todos. Mas a própria NATO esclarece que a sua aplicação depende da avaliação concreta de que ocorreu um «armed attack» e que a assistência a prestar não implica automaticamente uma determinada resposta militar.
Isto é particularmente importante: entre um drone perdido, uma violação acidental do espaço aéreo, uma provocação deliberada, um ataque militar e uma guerra existe uma enorme diferença. Apagar essas distinções no discurso político é uma forma perigosa de simplificação.
A Europa está a adoptar a lógica de Washington?
A questão mais profunda, porém, não é Sanna Marin. É a Europa.
Nos últimos dias, dirigentes europeus têm defendido novas estruturas de segurança, maior cooperação militar e mecanismos de resposta a alegadas ameaças híbridas russas. Ursula von der Leyen propôs, inclusive, um Conselho Europeu de Segurança e um protocolo de emergência para coordenar respostas a ameaças deste tipo. Ao mesmo tempo, a União Europeia continua a reforçar o apoio militar à Ucrânia, enquanto os Estados europeus mantêm ou ampliam a pressão económica sobre Moscovo.
Tudo isto pode ser apresentado como política de dissuasão — e é exactamente assim que é apresentado. Mas há uma pergunta que não pode ser proibida pelo vocabulário oficial: quando é que a dissuasão deixa de ser dissuasão e passa a ser preparação psicológica para a guerra?
Durante décadas, a estratégia norte-americana para a Europa assentou numa realidade geopolítica simples: impedir que uma potência continental rival dominasse o espaço europeu e preservar a ligação estratégica entre a América do Norte e a Europa. É uma lógica compreensível do ponto de vista dos interesses dos Estados Unidos.
Mas há uma diferença entre os interesses estratégicos de Washington e os interesses existenciais de Paris, Berlim, Roma, Varsóvia ou Helsínquia. Se houver uma guerra directa entre a NATO e a Rússia, a guerra não ocorrerá no território norte-americano. Ocorrerá na Europa. É a Europa que está geograficamente diante da Rússia; são as suas cidades que estarão dentro do raio de alcance das armas russas, as suas economias que suportarão os custos imediatos de uma guerra continental e, no limite, os seus jovens que poderão ser chamados a combater.
É legítimo, portanto, perguntar se a Europa está a construir uma política própria de segurança ou se está simplesmente a adaptar-se a uma estratégia geopolítica concebida noutra capital.
- «Defesa» não pode significar automatismo
A NATO afirma oficialmente que é uma aliança defensiva e que o seu propósito é a dissuasão e a defesa colectiva. Muito bem. Mas uma aliança defensiva não deixa de exigir prudência.
Defender-se não significa necessariamente responder a cada provocação com a máxima força possível, tal como dissuadir não significa aproximar-se cada vez mais do ponto em que um erro de cálculo pode produzir uma guerra.
A História está cheia de guerras que ninguém declarou desejar. Muitas começaram precisamente porque os dirigentes acreditaram que conseguiriam controlar a escalada. A guerra tem, porém, uma característica particularmente desagradável: depois de começar, deixa de obedecer aos seus autores.
Se os governos europeus entendem que a Rússia constitui uma ameaça, têm todo o direito de reforçar as suas capacidades militares. Mas soberania estratégica significa também poder dizer não, discordar de Washington e avaliar uma ameaça segundo os interesses europeus, e não apenas segundo a arquitectura estratégica norte-americana.
Significa, sobretudo, compreender que a Europa não pode transformar-se num gigantesco campo avançado de uma confrontação entre grandes potências e depois surpreender-se por estar no centro do incêndio.
Há, por isso, um paradoxo que parece escapar a muitos dos actuais dirigentes europeus: quanto mais a Europa proclama que precisa de se preparar para uma guerra com a Rússia, mais importante se torna perguntar quem está, efectivamente, a definir os termos dessa guerra.
E há uma segunda pergunta, ainda mais perturbadora: se a guerra começar, quem estará a contar os mortos europeus?
Certamente não será o conceito geopolítico. Não será a NATO. Não será Washington. Serão famílias europeias.
É por isso que, antes de falar em abater aviões russos, enviar mais armas, instalar mais tropas ou transformar cada incidente aéreo numa questão existencial, talvez fosse conveniente fazer aquilo que a política moderna parece ter esquecido: pensar nas consequências antes de celebrar a coragem das palavras.
Porque uma coisa é defender a Europa. Outra, bastante diferente, é preparar a Europa para uma guerra que talvez ainda pudesse ser evitada.
Tenho dito.
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Adriano Pires, militar de Cabo Verde, coronel na reforma. Foi militar de carreira de março de 1975 a setembro de 1998, tendo frequentado cursos de Infantaria, Segurança Pessoal e Estado-Maior em Cuba. Como chefe da segurança do regime (1975-1991, regime de partido único, o PAICV), a sua principal função de relevo histórico foi garantir a proteção das figuras da oposição política sob ordens superiores. O seu papel é amplamente elogiado na história cabo-verdiana porque, em muitos regimes de partido único, o Diretor de Segurança prenderia a oposição; em Cabo Verde, por ordens institucionais e brio profissional, Adriano Pires garantiu que os opositores ficassem seguros, permitindo uma transição pacífica e exemplar para a democracia. Fez parte dos voluntários que seguiram para Cuba, antes da independência de Cabo Verde, para uma preparação militar com vista à criação das forças armadas a serem presentes em Cabo Verde. (fonte: robô de conversação Gemini).


