— Parte II : Texto 24 – Da iliteracia à literacia: mudanças comportamentais e cerebrais induzidas pela aquisição da leitura (1/3) . Por Stanislas Dehaene, Laurent Cohen, José Morais e Régine Kolinsky

 

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

 

Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.

Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes

Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium

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Nota de editor:

A ordem que se segue nesta Parte II respeita a progressão de dificuldade estabelecida pelo autor da série — N1, N2, N3 — com uma sequência interna a cada grupo pensada para maximizar a coerência de leitura: dos conceitos mais gerais para os mais específicos dentro de cada nível. O presente texto enquadra-se no Nível 3.

Em virtude da sua elevada extensão e complexidade, editamos o presente texto em 3 partes, hoje a primeira.

As notas do texto deverão ser consultadas no original.

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FT


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

13 min de leitura

Texto 24 – Da iliteracia à literacia: mudanças comportamentais e cerebrais induzidas pela aquisição da leitura (1/3)

Por Stanislas Dehaene, Laurent Cohen, José Morais e Régine Kolinsky

Publicado por www.nature.com, volume 16, Abril de 2015, 234-244, Macmillan Publishers (ver aqui)

 

Sumário

A aquisição da literacia transforma o cérebro humano. Ao rever estudos com indivíduos iletrados, propomos hipóteses específicas sobre como as funções de sistemas cerebrais fundamentais são parcialmente reorientadas ou “recicladas” durante a aprendizagem da leitura. A aquisição da literacia aperfeiçoa o processamento visual inicial e reorganiza a via occípito-temporal ventral: as respostas aos caracteres escritos aumentam no sulco occípito-temporal esquerdo, enquanto as respostas a rostos deslocam-se em direção ao hemisfério direito. A literacia também modifica a codificação fonológica e fortalece a ligação funcional e anatómica entre as representações fonémicas e grafémicas. Assim, a aquisição da literacia constitui um exemplo notável de como o cérebro se reorganiza para acomodar uma nova habilidade cultural.

 

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Abraham Lincoln chamou à escrita “a grande invenção do mundo” [1]. De facto, os estudiosos consideram que a invenção da escrita transformou profundamente a cultura, a economia, a ciência e o direito humanos [2]. Apenas recentemente, porém, a psicologia e a neurociência cognitiva começaram a reunir evidências objetivas dos importantes efeitos positivos da literacia sobre o cérebro.

Aqui, revemos o conhecimento existente sobre o impacto da literacia no cérebro. O nosso objetivo não é o de rever como é que os circuitos da leitura funcionam; de facto, isso ainda está longe de ser plenamente compreendido [3, 4]. Em vez disso, concentramos a nossa atenção nas pesquisas sobre o cérebro de pessoas não letradas e em como é que ele se modifica com a aquisição da leitura e da escrita. Damos ênfase principalmente a três grandes sistemas cerebrais nos quais essas mudanças são observadas: o sistema visual inicial, a via visual ventral e o sistema de codificação fonológica. Também discutimos as outras alterações anatómicas, de conectividade e comportamentais descritas na literatura como associadas à aprendizagem da leitura. Por fim, abordamos brevemente o impacto da literacia em competências cognitivas de nível mais elevado, como memória de trabalho, organização semântica, raciocínio e funções executivas, embora esses efeitos ainda estejam pouco estudados.

A literacia é um conceito multidimensional, cujas dimensões visual, fonológica, motora e cultural apenas começaram a ser distinguidas experimentalmente [5, 6] (CAIXA 1). A literacia implica o conhecimento tanto da leitura como da escrita numa série de níveis interligados, que vão desde letras individuais e unidades sonoras até palavras e textos. Esse conhecimento pode variar, em parte, de acordo com o sistema de escrita aprendido (CAIXA 2). A literacia é uma variável gradual, ou seja, apresenta diferentes níveis de desenvolvimento. Existem grandes diferenças no desempenho em leitura entre as pessoas que se estão a iniciar na leitura, que decifram as palavras hesitantemente, letra por letra, e leitores experientes, que leem mais de 100 palavras por minuto e apresentam tempos de reconhecimento praticamente constantes para palavras com três a oito letras [7].

Finalmente, a literacia é frequentemente confundida por outras variáveis sociais, como a escolaridade. Neste artigo de opinião, damos maior ênfase aos estudos de neuroimagem que procuraram isolar o impacto específico da literacia [8-13], embora isso raramente tenha sido plenamente alcançado. Com base na análise desses estudos, propomos a hipótese de que os principais sistemas cerebrais cuja função é parcialmente redirecionada ou “reciclada” durante a aprendizagem da leitura [14] são aqueles envolvidos na visão inicial, na análise das letras, na análise fonológica e nas conexões recíprocas entre esses sistemas.

 

Processamento visual precoce

A leitura, especialmente de textos com letras pequenas, exige fortemente as capacidades visuais e, por isso, pode contribuir para o seu aperfeiçoamento. De facto, quando comparados com indivíduos iletrados, os adultos letrados — quer tenham aprendido o alfabeto na infância ou já na idade adulta — apresentam um aumento da ativação funcional bilateral no córtex occipital, medida por ressonância magnética funcional (fMRI), em resposta a diversos estímulos visuais (nomeadamente letras, rostos e imagens) [8]. A literacia também aumenta os potenciais relacionados com eventos (ERPs) precoces no córtex occipital, que são evocados entre 140 e 180 milissegundos após a apresentação desses mesmos estímulos [9]. Além disso, a supressão por repetição (isto é, a redução da amplitude dos ERPs em resposta ao segundo de dois estímulos repetidos, em comparação com dois estímulos diferentes) numa janela temporal ainda mais precoce (100–150 milissegundos) é mais acentuada em indivíduos letrados do que em iletrados [9].

Como a supressão por repetição reflete a capacidade do cérebro para distinguir entre dois estímulos, estes resultados sugerem que a alfabetização facilita a rápida discriminação de estímulos visuais com aparência semelhante.

Todos estes efeitos ocorrem em resposta a diferentes tipos de estímulos visuais, e não apenas a sequências de letras. Nos leitores de sistemas de escrita alfabéticos, a alfabetização aumenta até mesmo as respostas retinotópicas medidas por fMRI a padrões de tabuleiro de xadrez (checkerboards) no córtex calcarino bilateral, onde se localiza a área visual primária (V1) [8]. Este efeito é seletivo para padrões horizontais em comparação com padrões verticais, indicando que o córtex visual se tornou especificamente sensível à localização da retina onde as palavras de sistemas de escrita alfabéticos normalmente são projetadas.

Estes efeitos sobre a visão podem surgir, pelo menos em parte, porque os leitores se tornam sensíveis às frequentes ocorrências de letras e combinações de letras em diferentes posições dentro das palavras, resultando em aprendizagem percetiva [15]; isto é, uma melhoria na identificação de estímulos bem aprendidos que é específica tanto para o estímulo quanto para a sua localização [16, 17]. De facto, um treino extensivo para detetar uma forma específica (como um “T” invertido) leva a um aumento da resposta na área V1 do cérebro humano ao visualizar essa forma [18], reproduzindo o efeito observado durante a aquisição da leitura [8]. O alfabeto romano constitui um excelente estímulo para a aprendizagem percetiva porque é composto por apenas 26 letras, todas visualizadas milhões de vezes em posições relativamente fixas na retina. Além disso, as palavras podem ser lidas em tamanhos de fonte muito pequenos (correspondentes a um ângulo visual de apenas 0,2° por letra) [19], uma resolução visual extremamente refinada que pode estar disponível apenas nos estágios iniciais da via de processamento visual. Em concordância com essa ideia, estímulos formados por palavras, tais como

              (1)

“evocam maior ativação detetada por fMRI do que controles embaralhados (scrambled) bem emparelhados tais como…

           (2)

nas áreas V1 e V2 de leitores especialistas em sistemas de escrita alfabéticos. Curiosamente, em leitores chineses igualmente experientes, ao comparar, por exemplo,

                     (3)

versus

                   (4)

este efeito não é observado nas áreas V1 e V2, mas sim em V3 e V4 [21]. Isso provavelmente ocorre porque os sistemas de escrita chineses, diferentemente dos alfabetos, não são compostos por um conjunto restrito de formas básicas (letras). A Caixa 2 discute ainda como diferentes sistemas de escrita podem levar a alterações cerebrais ligeiramente distintas.

Estas mudanças no processamento visual inicial beneficiam diversas tarefas comportamentais, inclusive fora do domínio da leitura. Adultos letrados e ex iletrados (isto é, pessoas que aprenderam a ler na idade adulta) apresentam desempenho superior ao de adultos iletrados ao decidir se as metades inferiores de rostos ou de casas são iguais ou diferentes, sem se deixarem distrair pela parte superior das imagens [22], sugerindo que a literacia aprimora uma estratégia analítica de atenção aos estímulos visuais. Indivíduos letrados também superam os analfabetos na capacidade de detetar uma transposição numa sequência de letras ou de símbolos não alfabéticos [23], o que sugere um senso mais refinado da posição relativa das letras. Além disso, indivíduos iletrados podem também apresentar vantagem na integração visual de estímulos; por exemplo, demonstram maior capacidade de conectar segmentos de linhas para formar uma figura completa [12], competências que estudos em animais associaram ao funcionamento da área V1 [17].

 

A via visual ventral

Em todos os primatas, é necessário um processamento adicional ao longo da via visual ventral, para além do córtex visual inicial, a fim de alcançar o reconhecimento visual de forma invariável perante alterações na iluminação retiniana, no tamanho da imagem e na sua orientação. Como as palavras escritas constituem uma categoria visual especial, com as suas próprias invariâncias relativamente a mudanças de maiúsculas/minúsculas ou de tipo de letra (fonte), não é surpreendente que a aquisição da literacia resulte em mudanças importantes na via visual ventral.

A área da forma visual das palavras

Sempre que crianças ou adultos alfabetizados são expostos a uma palavra ou pseudopalavra legível num sistema de escrita que aprenderam, observa-se uma resposta funcional consistente e seletiva numa região específica [5, 6] do córtex occipitotemporal ventral esquerdo (VOT esquerdo), localizada praticamente na mesma posição em leitores de inglês, francês, hebraico e chinês [21, 24, 25]. Essa região foi denominada área da forma visual das palavras (Visual Word Form Area – VWFA) para refletir a resposta localizada e reprodutível a palavras escritas e pseudopalavras nesse local [26, 27]. Contudo, importa salientar que, mesmo após a aquisição da leitura, essa região continua a responder, embora em menor grau, a outros estímulos visuais para além da escrita.

 

Caixa 1 – Considerações metodológicas na pesquisa sobre literacia

Compreender como a aquisição da literacia transforma o cérebro é, em termos conceptuais, relativamente simples: consiste em utilizar métodos de neuroimagem, como a ressonância magnética funcional (fMRI), a magnetoencefalografia (MEG) ou a eletroencefalografia (EEG), para examinar adultos ou crianças que aprenderam ou não a ler, mantendo constantes todos os demais fatores. No entanto, na prática, esse tipo de pesquisa enfrenta importantes desafios metodológicos. Comparar adultos iletrados sem escolarização com adultos alfabetizados que frequentaram a escola [93] mistura os efeitos da literacia e da escolarização. Acompanhar crianças longitudinalmente, examinando-as em diferentes fases da aquisição da leitura, confunde os efeitos da literacia com os da escolarização e da idade [57, 59]. Podem ser utilizados estudos transversais para comparar grupos de crianças da mesma idade, alfabetizadas e pré-alfabetizadas [95] — por exemplo, aproveitando a variação social na idade em que as crianças ingressam na escola —, mas essa comparação também é influenciada pela escolarização e, possivelmente, por outras variáveis sociais, como o nível socioeconómico.

Em adultos, um delineamento mais adequado consiste em investigar o efeito específico da literacia identificando duas populações comparáveis, ambas igualmente privadas de escolarização precoce, mas em que uma delas é composta por indivíduos que posteriormente aprenderam a ler (ex-iletrados), enquanto a outra permaneceu iletrada [5-10]. Esse tipo de estudo, contudo, concentra-se exclusivamente em indivíduos que aprenderam a ler tardiamente, os quais podem não alcançar o mesmo nível de fluência leitora nem apresentar as mesmas alterações cerebrais observadas em pessoas alfabetizadas precocemente [155]. Além disso, em todos os estudos publicados até ao momento, os participantes não foram distribuídos aleatoriamente entre esses grupos, o que mantém aberta a possibilidade de que existam variáveis de confusão relacionadas com a motivação ou com a condição socioeconómica. Após a alfabetização, adultos anteriormente analfabetos também podem diferir dos adultos analfabetos por exercerem profissões mais exigentes, desenvolverem estratégias de processamento mais eficientes, adquirirem maior familiaridade com situações de avaliação, conquistarem mais autoconfiança, melhorarem sua condição socioeconómica, entre outros fatores.

Outra fonte de dificuldade é que as populações pré-alfabetizadas e pós-alfabetizadas são heterogéneas em diversos aspetos. Alguns adultos analfabetos ou crianças em fase pré-alfabetização conhecem muitas letras, enquanto outros conhecem poucas ou nenhuma [104, 156]. Além disso, alguns adultos analfabetos frequentaram a escola por alguns anos durante a infância, mas, ainda assim, não conseguiram aprender a ler, o que levanta a suspeita de dislexia.

Uma forma de lidar com esses fatores de confusão é realizar uma regressão múltipla, utilizando as pontuações dos participantes em diversos testes de leitura, juntamente com sua idade, nível socioeconómico e outras variáveis de confusão [6, 8]. Para reduzir a correlação entre essas variáveis, é necessário contar com um grande número de participantes. Em última análise, a área necessita de estudos longitudinais de grande escala que acompanhem sistematicamente as melhorias comportamentais e as alterações cerebrais em adultos ou crianças à medida que aprendem a ler [57, 59]. Idealmente, os participantes deveriam ser distribuídos aleatoriamente entre um grupo de treino em alfabetização e um grupo de controle, sendo ambos submetidos a treinos igualmente exigentes e com a mesma duração. No entanto, ao impor um atraso na aquisição da literacia, esse desenho experimental levanta importantes questões éticas. Por essa razão, ele foi aplicado apenas por períodos muito curtos. Um estudo com crianças de 6 anos na educação infantil demonstrou que oito semanas de treino foram suficientes para que surgisse a seletividade da área da forma visual das palavras (VWFA) para palavras escritas [33].

Fim da Caixa 1

 

A responsividade da VWFA (Visual Word Form Area – Área da Forma Visual das Palavras) à escrita é claramente um resultado da aquisição da alfabetização: a VWFA responde mais intensamente a um determinado sistema de escrita do que a rostos, objetos ou lugares apenas em indivíduos que aprenderam a ler esse sistema de escrita [21, 28]. De facto, em indivíduos iletrados, sequências de letras provocam uma resposta da VWFA muito menor do que em indivíduos alfabetizados [8] e, normalmente, essa resposta não ultrapassa a ativação observada diante de imagens de rostos, ferramentas ou padrões em tabuleiro de xadrez (FIG. 1). Num grupo de participantes cuja competência de leitura variava desde completamente iletrados até altamente letrados, a velocidade de leitura apresentou uma relação monotónica com a ativação da VWFA: aproximadamente metade da variabilidade na fluência de leitura pôde ser prevista pela resposta obtida na ressonância magnética funcional (fMRI) às palavras escritas [8]. Dados relacionados com eventos (ERP) revelaram o momento em que esse efeito ocorre: o componente negativo N170, lateralizado à esquerda, que se origina na região ventral occipitotemporal esquerda (VOT) cerca de 170 ms após a apresentação de uma sequência visual de letras, é significativamente mais acentuado em indivíduos letrados e em ex-iletrados quando comparados aos iletrados [9]. Um efeito semelhante também é observado em crianças que estão a aprender um novo sistema de escrita [29, 30]. Assim, a VWFA e seu componente N170 associado parecem constituir importantes correlações neurais da alfabetização.

A atividade específica para o sistema de escrita na Área da Forma Visual das Palavras (VWFA) desenvolve-se rapidamente durante a aquisição da leitura: uma forte seletividade para palavras já é observada em crianças de 9 anos que estão a aprender a ler há 2–3 anos [31]. Mesmo os leitores de 6 anos de idade já mostram uma maior activação do VWFA às palavras do que a outros estímulos visuais, ao passo que os não Leitores de 6 anos de idade não [32].

Um estudo com crianças de 6 anos na educação infantil indicou que apenas algumas semanas de treino computadorizado em correspondências entre letras e sons são suficientes para estabelecer uma resposta mais intensa da VWFA às palavras do que a fontes falsas (false fonts), ou seja, símbolos com o mesmo nível de complexidade gráfica das letras, mas sem significado linguístico [33]. Em adultos, até mesmo alguns dias de treino associando sons da fala a uma nova escrita ou a um novo alfabeto são suficientes para aumentar a ativação em resposta a esses símbolos na VWFA ou em regiões muito próximas dela [34-37]. Assim, a plasticidade cerebral dos adultos é suficiente para permitir o surgimento dessa resposta funcional, mesmo quando a literacia ocorre apenas na idade adulta [8]. No entanto, podem existir limites para essa plasticidade em adultos (ver adiante Caixa 3).

A VWFA (Visual Word Form Area, ou Área da Forma Visual das Palavras) é geralmente considerada responsável por intervir na identificação eficiente de estímulos ortográficos [38] e por possibilitar a rápida associação desses estímulos com informações fonológicas e lexicais [34]. No entanto, a um nível mais detalhado, as teorias divergem quanto ao grau de especialização da VWFA para a leitura e quanto aos papéis relativos dos processos bottom-up (ascendentes, guiados pelos estímulos sensoriais) e top-down (descendentes, guiados pelo conhecimento prévio e pelas expectativas) na sua ativação [3, 4, 39]. Uma das teorias [3] propõe que a VWFA contém circuitos neuronais especializados para a codificação ortográfica. Com a aquisição da proficiência em sistemas de escrita alfabética, a VWFA, de forma semelhante ao sistema de reconhecimento de rostos [40], desenvolve uma hierarquia eficiente de processamento bottom-up, composta por neurónios seletivamente ajustados para reconhecer letras, bigramas (também chamados de pares de letras, como “th”, “re” e “in”), morfemas (incluindo radicais e sufixos, como “-tion” e “-ing”) e palavras curtas [41]. De facto, em leitores experientes de alfabetos, a VWFA apresenta uma organização hierárquica que se estende da região posterior para a anterior [42-44]. As regiões posteriores respondem a letras individuais [43] (independentemente de serem maiúsculas ou minúsculas [44]), enquanto as regiões anteriores respondem a combinações de letras, como os bigramas [42, 45]. Um estudo utilizando ressonância magnética funcional (fMRI) e o paradigma de supressão por repetição (repetition suppression) sugere ainda que alguns neurónios da VWFA podem apresentar uma seletividade bastante específica para palavras já conhecidas: o VWFA reduz a sua activação na segunda vez que uma palavra escrita é apresentada (supressão de repetição para ‘barco-barco’- boat-boat), mas uma mudança numa única letra (como ‘barco–casaco’ – coat-boat) tem o mesmo efeito que mudar a palavra inteira (‘barco-peixe’) e é suficiente para erradicar o efeito de supressão da repetição [46].

 

(continua)

 

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