UTOPIA E DISTOPIA NO UNIVERSO POÉTICO DO NEO-REALISMO (NOTÍCIAS DO BLOQUEIO, DE EGITO GONÇALVES E A INVENÇÃO DO AMOR, DE DANIEL FILIPE) – 1 – por Carlos Loures

(Publicado na revista NOVA SÍNTESE número 5 de 2010)

Tendo como referência poemas de Egito Gonçalves e de Daniel Filipe e inscrevendo-os no universo poético do neo-realismo, coloca-se ab initio a questão – seriam neo-realistas os autores de Notícias do Bloqueio e de A Invenção do Amor? Para não entrar numa polémica que ultrapassa os objectivos deste texto, direi apenas que em 1953, ano da primeira publicação de Notícias do Bloqueio , e em 1961, quando saiu A Invenção do Amor, Egito Gonçalves e Daniel Filipe estruturavam os seus poemas dentro de uma lógica conceptual que tem a ver com os fundamentos do movimento neo-realista. Por outro lado, há críticos e historiadores da literatura que consideram que o neo-realismo em Portugal se caracteriza essencialmente pelo discurso ficcional. São questões de perspectiva. Caso se fale de uma forma especificamente neo-realista de escrever poesia, talvez essa forma não exista. Porém, pergunto se na ficção existe essa forma específica, esse padrão estilístico – e creio que não – Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, por exemplo, usaram formas pessoais e muito diferenciadas entre si.

Penso que o fulcro vital do neo-realismo reside na denúncia da injustiça social e da repressão política, típicas dos regimes autoritários de direita que governavam uma parte substancial da Europa no final da década de 30, quando o movimento se começou a afirmar em Portugal. Vinte anos depois, embora em Portugal a repressão continuasse, a situação tinha mudado substancialmente para lá dos Pirenéus. Os neo-realistas não podiam permanecer imunes às tendências literárias que entretanto se vinham afirmando e impregnando o tecido cultural europeu. O surrealismo, partindo de pressupostos diferentes, mais assentes no onirismo do que na chamada realidade objectiva, invadia com o seu lirismo, construído com uma grande riqueza vocabular e com uma ilimitada liberdade imagética, os territórios de outras correntes literárias. Por exemplo, os belos versos de Paul Éluard (1895-1952), ponte privilegiada entre a lírica surrealista e o marxismo, estavam na mente dos poetas do final dos anos 50. A linguagem mais crua das obras fundacionais do neo-realismo, começou a ser posta de parte – uma análise às obras dos próceres do movimento confirmará esta evolução – o Alves Redol de Gaibéus (1939) evolui para a forma mais enriquecida de Barranco de Cegos (1962). O que se mantém inalterável nos escritores neo-realistas é a matriz revolucionária, a denúncia das injustiças sociais e da repressão cultural. E é precisamente esse aspecto que me parece relevante na caracterização das obras neo-realistas – aspecto omnipresente, quer em Notícias do Bloqueio, quer em A Invenção do Amor.

A depressão económica, a Guerra Civil de Espanha, preanunciando a II Guerra Mundial, a dicotomia fascismo-marxismo e, sobretudo, a realidade vivida em Portugal, foram os factores histórico-sociais que desencadearam o movimento, determinando o seu molde estilístico. Mas se em Portugal, nessas duas décadas, a situação sociopolítica não registou mudanças assinaláveis, na Europa em geral – no continente, usando a expressão que Egito Gonçalves utiliza logo nos primeiros versos de Notícias do Bloqueio, a vitória dos Aliados, a recuperação das principais economias, o advento da União Soviética como superpotência, configuravam uma realidade diferente. O confronto capitalismo-marxismo e a Guerra Fria, condicionavam agora não só a economia, como a vida cultural.

E, apesar da censura e das restrições às influências do exterior, jornais, revistas, livros, filmes, emissões radiofónicas, traziam-nos os ecos dessa profunda transformação que se produzia no continente. A literatura e a arte neo-realistas transformaram-se e evoluíram, adoptando as formas novas que nos chegavam, sem perder contudo de vista os elementos indissociáveis da génese de um movimento que, definido sinteticamente, foi a transposição para a arte em geral e para a literatura em particular de uma dinâmica subsidiária do materialismo-dialéctico. No plano histórico representou, como salientou Óscar Lopes, um fenómeno análogo ao da Geração de 70. Porque as épocas de grandes clivagens políticas e sociais desencadeiam geralmente novas formas literárias e artísticas. E forjam utopias.

(Continua)

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