NOTA SOBRE A MORTE DE ANTÓNIO BORGES – PEQUENA CRÓNICA DE FARO – Nº 5 – (reedição). Por JÚLIO MARQUES MOTA

Morreu António Borges, um inimigo do povo, um homem que assumiu por fim a função de vender o património  produtivo de Portugal, segundo as decisões da potência dominante, a Troika. Detestava tanto o povo português na sua vida prática como intelectualmente detestava Keynes. Nada mais a dizer.

Morreu António Borges, um serventuário dos grandes capitais, um homem que , na linha do que escreveu Fabius Maximus numa crónica recente, seria considerado um criado ao serviço da Plutocracia, não da Democracia. Nada mais a dizer.

Morreu António Borges, um homem ao serviço do neoliberalismo puro e duro que está a ter como função o declínio do Ocidente a favor do domínio crescente do Oriente,  a favor de uma nova ordem internacional assente na multipolaridade onde os BRICS serão os novos centros do poder.  Esta é a tendência gerada pelo modelo de política de que tanto fez uso e que está  magistralmente descrita num trabalho escrito por Adam  Posen, Membro externo do Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra.  Nada mais a dizer.

Morreu António Borges, um homem que ganhava centenas de milhares de euros enquanto que queria que os outros ganhassem tostões. Nada mais a dizer.

Resta pois para se ser coerente com a sua prática que o seu funeral seja submetido a concurso público e que ganhe então quem propuser o  preço  mais baixo e que se a sua campa ocupar  um espaço público então  o seu sucessor que a privatize o mais rapidamente possível.

E é tudo o que posso dizer sobre este senhor a respeito de quem há um ano escrevi uma crónica que aqui se repete, hoje, por respeito a todas as vítimas da sua política.

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Pequena crónica de Faro – nº 5. Agosto de 2012

O caos ou a segurança: a hora da decisão aproxima-se

Estou cansado das notícias que leio, dos telejornais que não vejo mas que adivinho. Saio até à Rua de Santo António, pela fresca da manhã que se avizinha quente.

Penso, hoje que não vou à praia, vou escrever uma crónica. Tema? Não tenho. Penso nisto, vejo que não tenho tema mas imediatamente penso que é melhor não me preocupar e mais, penso ainda que é suficiente  dar um pontapé na realidade para o encontrar  uma vez que analisar a realidade seja naquilo que for faz com que a  sua análise  ultrapasse qualquer ficção que sobre esta mesma realidade se possa previamente conceber .

Lembro-me da Maria, a da Rússia, num encontro exactamente a um sábado e lembro-me da crónica sobre as Marias, onde se falava dos ladrões da Troika, do BCE, da Comissão Europeia, do FMI, dos assaltos que são feitos de forma organizada e legalizada aos direitos e aos bolsos de cada um dos portugueses que trabalham ou trabalharam. Veja-se o esforço espantoso que é feito para que os Governos por esta Europa fora estejam todos eles ao ataque dos direitos de quem tem emprego como se a saída da crise exija o alargamento da possibilidade dos despedimentos, como se a saída da crise exija a redução das condições salariais para aquelas que existiam no tempo dos nossos bisavós e como se não exija a responsabilização dos principais agentes que geraram a crise.

Desço a rua, passo por uma loja que teve quatro empregadas, passo por um patrão que tentou ao limite que estas mesmas empregadas se despedissem, para ficarem sem direitos a nada. Levado a Tribunal tentou tudo para nada pagar mas no limite, a pagar,  queria então pagar segundo a nova legislação que ainda nem sequer estava aprovada! Não conseguiu. Os factos remontavam à vigência da anterior legislação do trabalho. Nada a fazer, pagou. Aguarda agora reconstituir parcialmente os seus quadros com gente a menor preço  e com menores direitos.

Com a crise, as vendas baixam, os empregados ficam, nalguns casos,  excedentários e os patrões aproveitam descarregando sobre aqueles uma parte desses mesmos custos,  reduzindo os salários, reduzindo o valor das indemnizações enquanto votam no governo que a crise amplia. O adjectivo é único: são patrões que são assim transformados em ladrões. Um outro mecanismo que passa também ele não pela redução de efectivos  mas pelo desemprego, pela precariedade dos que trabalham  é a criação de situações de instabilidade que forcem os empregados a despedirem-se. Depois são substituídos por gente mais nova com menos direitos e com ordenados mais baixos. Não haverá assim nenhum custo de despedimento e os patrões podem fazer as substituições que entenderem e quase que aos salários que entenderem! Mais ainda,  a prática desonesta destes senhores leva a violar a própria concorrência, pois fica-se com estas práticas  perante outros agentes económicos mais sérios, e portanto no mesmo espaço e como concorrentes entre si, os empresários honestos e desonestos ficam em situações  concorrenciais diferentes, a favor destes últimos. A virtude, neste quadro, não compensa. Uma outra forma de violência se instala assim na realidade empresarial portuguesa.

A precariedade como prática é agora a realidade instalada nas vidas de homens e mulheres que outrora conhecerem empregos estáveis, exactamente os mesmos que têm agora, mas em que estes agora se transformaram num inferno por efeito da desregulação promovida pelo Governo de Passos Coelho e imposta pela Troika.  São noites e dias trágicos que cada  elemento trabalhador transporta para casa e muitas vezes carregando o lar de uma tensão que outrora não existia. Estabilidade familiar, estabilidade para as nossas crianças, foi coisa que houve, foi coisa que os ladrões governamentais e seus acólitos pela calada da noite aos trabalhadores  estão a roubar. Para estes patrões que assim procedem e são cada vez mais na rua de Santo António a que me refiro assim como nas ruas paralelas, para além das muitas lojas já fechadas com as pessoas para casa enviadas, para estes patrões nada há a dizer, com o comportamento destes não se preocupa o nosso Governo e logicamente assim porque é um governo ao serviço destas mesmas personagens. Segundo uma regra de ouro: o que interessa aos capitais, interessa ao governo porque segundo o governo isso é o que interessa à democracia. Simples, a regra que rege estes senhores. Entretanto cria-se toda uma sociedade á beira de um ataque de nervos, de um rastilho que tudo pode fazer saltar.

Saio da rua de Santo António. Dirijo-me à Igreja do Carmo. Passo pelo café que tem como nome O seu café. É sábado, pela manhã. Olho para a esplanada lateral, vejo um velho amigo meu, marceneiro de longa data, de braços musculados e bronzeados de a trabalhar de sol a sol tanto prego ter pregado na madeira e, quem sabe, se na vida também. Sento-me. Dou-lhe  uma ideia do que vinha a pensar   sobre os problemas do emprego em Faro, no País. Falo-lhe dos despedimentos forçados, com redução global de pessoal depois deste vir a ser renovado com gente mais nova, com menos direitos, com menos salários. Até quando, digo eu em voz alta?

Até quando? Interroga-se também ele. Até que uma bomba qualquena uer rebente?. Dou-te  um exemplo: uma loja foi fechada. Antes, o patrão despediu a empregada, sem nada, saiu de mãos a abanar. Digo-lhe espanta-me que não tenha acontecido nada ao patrão. O marido dela é bem fresco, é de origem cigana.

De origem cigana, pergunto eu?

Sim de origem cigana. Integrou-se. Conheço mais casos, continua ele. Neste caso não aconteceu nada, há filhos a sustentar, há medo das consequências. Mas um dia, pode não haver filhos a sustentar, um dia pode em qualquer dos casos perder-se o medo por se sentir que não há nada mais a perder. Tudo depende da capacidade de resistência de cada um. Há sempre alguém que verga, que pode desencadear a seguir um movimento em cadeia. Segundo li terá sido assim em Londres. Se assim acontece, em Portugal, não sei mais o que pode acontecer.

(continua)

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