De minha filha recebi esta informação:
Pai,
No meu Facebook onde faço a pesquisa para a minha tese, pertenço a grupo de desabafos (“Dear Diary) de meninas que também se entretêm a comprar, vender e trocar coisas pela net. Hoje, o desabafo de uma delas:
“Dear Diary,
Ofereceram-me trabalho numa loja e fizeram-me duas propostas:
1. Contrato de um ano, ordenado mínimo, sem subsídios, transporte, cerca de 9-10 horas por dia
2. 350 p/mes sem qualquer direito (ilegal), transporte, cerca de 9-10 horas por dia
Que me dizem a isto?”
O que aqui está faz-me lembrar uma prova oral que em tempos conduzi na Faculdade de Economia. O professor da disciplina foi duro para a aluna em questão, tentei parar com a tensão mas não deu tempo. A frase sibilina ouviu-se: a sua oral acabou minha senhora. A miúda só teve tempo de sair da sala pois ao abrir da porta da sala caiu nos braços de uma colega. Pessoalmente tinha-me levantado, chateado e para falar com a aluna em questão. Alguém, soube depois, vinda dos lados de Pinhel, filha de um merceeiro. Disse-lhe que queria falar com ela ainda naquela noite. Não a poderia convidar para minha casa. Seria absurdo.
Marcámos encontro no café Santa Cruz. Alguns minutos depois, uma disputa entre um proxeneta e a sua “puta” levou a que houvesse cadeiras pelo ar. Levei-a para minha casa. Conversámos longamente e soube então o que são as meninas do shopping de que fala Rui Veloso. Estudante, o dinheiro do pai não chegava. Arranjou um emprego a tempo parcial, de horário completamente variável, ao sabor do pintar das unhas ou do cabelo da sua patroa. Programar a ida às aulas impossível e, azar, aquela oral tinha incidido sobre a matéria de uma aula a que tinha faltado. Só sabia de véspera quando trabalhava, só sabia no dia quando o seu trabalho acabava, só então sabia em que aulas aprendia.
Pois bem, são propostas para meninas do shopping aquelas de que a minha filha me fala, hoje, mas eu afinal não as conheço de hoje, conheço-as de ontem, conheço-as de há anos. De um tsunami silencioso que invadiu o nosso país, as nossas cidades, as nossas escolas, as nossas empresas, as nossas vidas e que dá pelo nome de neoliberalismo selvagem.
Dois apontamentos deste país e deste tsunami que agora já não é silencioso..

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