Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A desigualdade, a questão que caracteriza o nosso tempo
Barack Obama
PARTE II
(continuação)
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Agora, é verdade que aqueles que estão no topo, mesmo durante esses anos, reivindicaram uma parcela muito maior do que os restantes. Note-se que, 10% dos salários mais elevados levavam para casa cerca de 1/3 do nosso rendimento nacional. Mas esse tipo de desigualdade passou a existir numa economia de mercado dinâmica onde até aí todos os salários e os rendimentos estiveram a crescer. Porém, devido à mobilidade ascendente, o operário fabril poderia mesmo imaginar que o seu filho um dia poderia vir a dirigir a empresa.
Mas a partir do final dos anos setenta este compacto social começou a reconfigurar-se. As novas tecnologias permitiram às empresas de forma acessível produzirem mais com menos, eliminando-se assim uma parte considerável de profissões e empregos.
Um mundo mais competitivo permitiu que as empresas deslocalizassem os empregos e as produções para os 4 cantos do mundo. E tal como a indústria transformadora se automatizou ou se deslocalizou para regiões offshore, os trabalhadores perderam a sua robustez, os trabalhos tornaram-se mais precários a nível salarial e as condições laborais mais precárias.
Como os valores da comunidade ficaram sujeitos a uma forte erosão e com uma concorrência cada vez mais intensa, as empresas recorreram aos lobies sobre Washington, incitando o governo a enfraquecer os sindicatos e o valor do salário mínimo. Como a ideologia do trickle-down[1] se tornou, mesmo, mais poderosa e dominante, os impostos foram reduzidos para os mais ricos, enquanto os investimentos naquilo que nos tornam a todos mais ricos, como a construção de escolas e de infra-estruturas, foram sendo abandonados, reduzidos.
Durante um certo período de tempo, até foi possível ignorarmos este enfraquecimento basilar da economia, em parte porque havia mais famílias em que os dois membros do casal auferiam um rendimento, dado que as mulheres também passaram a fazer parte da força de trabalho. Nós, por outro lado, assumimos demasiado endividamento que nos era financiado por um mercado imobiliário profundamente desregulado, intoxicado. Mas quando a música parou e a crise nos atacou fortemente, então, milhões de famílias sentiram-se sem mecanismos de segurança, sem as almofadas amortecedoras, que entretanto tinham sido abandonadas.
O resultado é então, o de uma economia que se tornou profundamente desigual e em que as famílias se encontram cada vez mais inseguras. Para o efeito, apresento apenas algumas estatísticas. Desde 1979, quando terminei o ensino secundário a nossa produtividade cresceu mais de 90%, mas o rendimento da família média americana aumentou em menos de oito por cento. Desde esse mesmo ano, a nossa economia mais do que duplicou em tamanho, em valor da produção de bens e serviços, mas a maioria desse crescimento fluiu para uns poucos afortunados. Cerca de 10% dos maiores rendimentos nos levavam outrora um terço do nosso rendimento— agora levam-nos metade. Enquanto que no passado um director executivo, em média, ganhava cerca de 20 a 30 vezes o rendimento do trabalhador médio, hoje, o mesmo executivo ganha 273 vezes mais.
Saliente-se, uma família do clube dos 1% mais ricos do país, tem um património de 288 vezes maior do que o de uma família típica americana, o que é um recorde para este país.
Assim, o princípio de base que está no centro da nossa economia tem-se desgastado. De facto, esta tendência para o crescimento da desigualdade não é comum só ao solo americano. Por todas as regiões desenvolvidas, a desigualdade aumentou. Alguns de nós, recordamo-nos que na semana passada o próprio Papa falou sobre isso de uma forma intensa e eloquente. Dizia-nos “como é possível,” escreveu ele, “não passar uma informação nos media quando uma pessoa idosa ou um sem-abrigo morre de exposição ao frio, mas, quando o mercado das acções perde 2 p.p., isto já é notícia?”
Todavia, essa crescente desigualdade é mais pronunciada no nosso país, e desafia a própria essência do que nós somos como povo. Entenda-se que nunca lamentámos o sucesso na América. Antes pelo contrário, aspiramos a ele. Admiramos as pessoas que iniciam novas actividades, criam empregos e inventam os produtos que enriquecem as nossas vidas. E esperamos que eles sejam recompensados por isso. Na verdade, aceitamos muitas vezes, mais desigualdade de rendimento do que em muitas outras nações por uma grande razão – porque estávamos convencidos de que a América é um lugar onde até mesmo se alguém tivesse nascido sem nada, com um pouco de trabalho exercido de forma empenhada poderíamos sempre melhorar a nossa situação ao longo do tempo e construir algo melhor para deixar aos nossos filhos.
Como Lincoln disse uma vez: “Apesar de não propormos nenhuma guerra contra o capital, nós desejamos que o homem mais humilde tenha a mesma possibilidade de ficar rico como todos os outros.”
O problema é que, conjuntamente com o aumento da desigualdade temos visto que os níveis de mobilidade ascendente têm estado a diminuir nos últimos anos. Numa criança nascida no seio da classe dos 20% mais ricos, a probabilidade de permanecer nesta é de cerca de 67%. Já um criança oriunda do grupo dos 20% mais pobres tem uma probabilidade de alcançar a classe do topo, à volta de 5%. Não obstante, esta mesma criança tem uma probabilidade 10 vezes superior de se manter no mesmo patamar. De facto, as estatísticas além de evidenciarem que os nossos níveis de desigualdade de rendimento são próximos dos de países como a Jamaica e a Argentina, também nos mostram que o grau de dificuldade, para uma criança nascida aqui na América poder usufruír de um patamar superior de condições vida melhores, é mais elevado do que o é para um caso similar na maior parte dos nossos países ricos aliados, como no caso do Canadá, da Alemanha ou da França. Repare-se que eles têm um grau de mobilidade superior ao nosso.
(continua)
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[1] Nota de tradução. Trickle-down, representa a ideia de que mais vale ajudar os ricos do que os pobres, mais vale reduzir nos impostos dos ricos do que aumentar nas despesas públicas para ajudar os pobres, razões que se prendem pelo facto de de os gastos dos ricos tem um impacto superior no desenvolvimento da economia e os seus efeitos positivos irão transbordar e beneficiar os pobres, inevitavelmente, e bem mais do que com as políticas inversas. O neoliberalismo puro e duro, portanto.
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Ver a Parte I deste discurso de Obama, com tradução de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas em:
A DESIGUALDADE, A QUESTÃO QUE CARACTERIZA O NOSSO TEMPO, por BARACK OBAMA

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