A DESIGUALDADE, A QUESTÃO QUE CARACTERIZA O NOSSO TEMPO, por BARACK OBAMA

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A desigualdade, a questão que caracteriza o nosso tempo

Barack Obama

Parte I

Obrigado. Obrigado a todos. Por favor, sentem-se. Obrigado, muito obrigado.

Bem, agradeço a Neera pela introdução maravilhosa e a partilha de uma história que me toca e comove. Observei muitos detalhes paralelos à  minha vida e provavelmente à de muitos de vocês.

Nos últimos 10 anos, o Center for American Progress (CAP) tem feito um trabalho notável na organização do debate sobre a expansão de oportunidades para todos os americanos. Não poderia estar o mais grato possível ao CAP, não só pelas inúmeras ideias que me deram sobre “a boa política”, mas também, por me terem proporcionado uma mão cheia de funcionários de alta qualidade. O meu amigo, John Podesta, percorreu comigo a minha transição; o chefe da minha equipa de gabinete, Denis McDonough, trabalhou uma temporada aqui no CAP. Assim, parece-me óbvio que o CAP tem estado a fazer um ótimo trabalho na formação.

Também quero agradecer a todos os presentes membros do Congresso e da minha Administração pelo espantoso trabalho que têm feito.  Quero agradecer ao Presidente Gray e a todos aqui no THEARC por me terem recebido.

A criação deste centro, relativamente recente e de que tive a oportunidade  de ver um pouco do grande trabalho que aqui se tem feito, a todos os organismos sem fins lucrativos  que recorrem a esta casa, THEARC,   é-lhes permitido o  acesso a tudo o que esta contém, desde a educação, à saúde, um abrigo seguro para os sem-abrigo vindos das ruas,  o que significa que neste Centro se está a aproveitar o poder da Comunidade para se expandirem oportunidades para as pessoas da região de Washington. O vosso trabalho reflecte uma tradição que atravessa a nossa história — a crença de que juntos somos bem mais fortes do que quando nos encontramos sós. É esta a razão que me trouxe aqui hoje e que da qual vou falar.

Durante os últimos dois meses, Washington foi dominada por alguns debates consideravelmente controversos — penso que é justo dizê-lo. Entre uma programada e imprudente paragem do governo feita pelos  republicanos do congresso num  esforço para revogar a Affordable Care Act, sobre os cuidados de saúde, e a execução evidentemente pobre pela parte  da minha Administração em por em prática a última fase da nova lei, julgo que ninguém se saiu bem nestes últimos meses. Sendo assim não me surpreende que a medida de frustração e descontentamento dos cidadãos  americanos  com a classe política de Washington se encontre num  nível elevado.

Mas sabemos que as frustrações das pessoas encontram-se ainda num buraco mais profundo do que estas batalhas políticas mais recentes.  A sua  frustração está  enraizada nas  suas  próprias batalhas diárias — que passam por conterem oxigénio suficiente que lhes proporcione chegar sem grandes dificuldades ao fim do mês, com as propinas da  faculdade pagas, manter viva a ambição de compra da casa, assim como o amealhar um montante suficiente para a reforma.  Essa vincada frustração persiste de tal forma que  não importa sequer o quão duro eles trabalham, os ventos não sopram a favor.  Esse descontentamento estende-se ao ponto que os leva a viver num constante sentimento opressivo e frustrante de que os seus filhos não venham a ter, nunca mais, uma posição, uma situação  melhor do que a deles.

A população não pode acompanhar constantemente de perto o que se passa no dia-a-dia  em  Washington ou a política em todos os detalhes, mas eles sentem nos  ombros o peso da implacável  tendência, de décadas,  e  sobre a qual  eu vos quero falar aqui, tendo que para isso vos roubar algum tempo. Essa tendência  representa uma perigosa e crescente  desigualdade assim como  uma ausência de mobilidade ascendente a qual  compromete a base da mobilidade da classe média na  América — assente na ideia de que se cada um  trabalhar  duramente, tem então uma possibilidade de subir um degrau na vida.

Acredito que esta questão  é, por definição, o grande  desafio do nosso tempo:  o de podermos  estar seguros de que a  nossa economia brinde cada americano que trabalhe. Foi esta a razão basilar da minha candidatura ao lugar que ocupo hoje. Esteve sempre  no centro da minha campanha do ano  passado. Está por detrás de tudo o que faço na Presidência .

Sei que no passado já  levantei esta questão e que alguns poder-me-ão perguntar  porque o volto a fazer  agora. Simples, faço-o, porque os resultados dos recentes debates — seja sobre  cuidados de saúde, seja sobre o  orçamento  ou sobre a  reforma do sistema financeiro e do nosso sistema habitacional — todas estas questões traduzir-se-ão em implicações reais, práticas em cada um dos americanos.  Por isso, estou convencido de que as decisões que tomarmos relativamente a estas questões, terão impacto e serão determinantes nos próximos anos quanto às oportunidades que as nossas crianças iram ter de crescer numa América de oportunidades reais.

Agora, a premissa de que todos são criados com direitos iguais foi a linha mestra de abertura na história americana. E enquanto nós não nos convencermos e prometermos a nos próprios que tudo faremos para retomar essa linha e assim proporcionar a igualdade de oportunidades, tenho-me esforçado por esse propósito, devemos batermo-nos pela ideia de que o sucesso não depende do facto de se ter nascido num berço de ouro  mas sim que deve depender do esforço e do mérito de cada um de nós. E com cada capítulo que nós adicionarmos a essa história, nós  teremos trabalhado  duro para colocar essas palavras em prática

Foi Abraham Lincoln,  o homem que se descrevia a si-mesmo como “o filho de um pobre homem” que iniciou um sistema de concessão de terras  para a construção de Faculdades  por todo o lado neste país  de tal modo que todo o filho de  um homem  pobre pudesse sempre aprender algo de  novo.

Quando os campos   deram lugar às fábricas, o filho de um homem rico chamado Teddy Roosevelt lutou para que houvesse uma jornada de trabalho de oito horas, para que houvesse protecção  para os trabalhadores e quebrou a força dos monopólios que mantinham os preços altos  e os salários baixos.

Quando milhões viviam na pobreza, FDR lutou pela Segurança Social e pelo subsídio de desemprego assim como pela existência de um salário mínimo.  Quando milhões morreram sem seguro de saúde, LBJ lutou para que houvesse Medicare e Medicaid. Juntos, contruimos um novo contrato, o New Deal, juntos declarámos  guerra à  pobreza  a caminho de uma  grande sociedade. Construímos uma escada de oportunidades, e desenvolvemos uma rede de segurança social de tal forma que se tivéssemos uma queda na vida não cairíamos muito fundo, pois teríamos uma rede e um apoio certo que nos proporcionaria força para reagir e regressar à situação anterior.

As consequências destas lutas, destas medidas tomadas, permitiram  à América  criar a maior classe média que o mundo alguma vez conheceu. E durante três décadas após a II Guerra Mundial, foi ela o motor da nossa prosperidade. Agora, não podemos olhar para o passado através de óculos cor-de-rosa. A economia nem sempre funciona para todos.

A discriminação racial acorrenta milhões de pessoas na situação de pobreza, ou sem oportunidades.  As mulheres muitas vezes estão confinadas a um punhado de profissões que na generalidade são mal remunerados.  E foi só através de uma  luta meticulosa que muitas mais mulheres, as minorias e os americanos com  problemas de deficiência começaram a participar na economia de  forma mais justa.

No entanto, durante os anos da pós- II Guerra Mundial, a base da economia estava estável e segura para a maioria dos americanos e antevia-se um futuro  mais animador do que na pré – II Grande Guerra. Para alguns, isso significava  seguir os passos dos seus pais  na fábrica  local, pois acreditavam que um trabalho fabril  os levaria a conseguir ter um   poder de compra para adquirir uma casa e um carro, talvez até ter umas férias de vez em quando, cuidados de saúde, uma pensão confortável, etc. Para outros, significou a Faculdade — nalguns casos, talvez o primeiro da família a ir para a Faculdade, formando-se sem assumir avultadas dívidas e esperando  antecipadamente por  oportunidades de trabalho num mercado de trabalho pujante.

(continua)

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