Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
O neoliberalismo como máquina de destruição
O coveiro das identidades e do viver em conjunto
Chems Eddine Chitour*
«Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas. Mateus 10:16»
Parte III
(CONCLUSÂO)
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O neoliberalismo: destruição do colectivo e atomização do humano
A palavra-chave é: desviar a atenção e avançar disfarçado, deixando as vítimas desta peste bubónica que é o mercado, a interrogarem-se sobre o sexo dos anjos, enquanto que os negócios se fazem e desfazem, “business as usual” poderíamos dizer. Acontece que a linha de acção neoliberal é clara: destruir tudo o que é ser conjunto. «O mundo económico, interrogava-se Pierre Bourdieu, é-ele, como o quer o discurso dominante, uma ordem pura e perfeita, desenrolando implacavelmente a lógica das suas consequências previsíveis e pronto para reprimir todas as violações através de sanções que ele próprio inflige , seja de forma automática, seja – mais especialmente – através do seu braço armado, o FMI e a OCDE e as condições que eles impõem: diminuiu o custo de mão de obra, redução das despesas públicas e a flexibilização do trabalho? (…) Assim, se instala o reinado absoluto da flexibilidade, com recrutamentos no regime de contratos a prazo ou temporário, sazonal, agindo nomeações e com os planos sociais sucessivos e dentro da própria empresa. (…) O objectivo, diz Bourdieu, é um exército de reserva de trabalho exdtramamente fragilizado e ultra-dócil pela precariedade e pela permanente ameaça de desemprego. Para Pierre Bourdieu, o liberalismo deve ser encarado como um programa de «destruição de estruturas colectivas» e a promoção de uma nova ordem fundada no culto do “indivíduo sozinho mas livre “[1]
Em Le Divin Marché, a revolução cultural Liberal, Dany Robert Dufour tenta mostrar que, longe de ter saído da religião, nós caímos sob a influência de uma nova religião conquistadora, o mercado ou a moeda-teísmo Ele tenta tornar explícito os dez implícitos mandamentos da nova religião, a interditar muito menos do que a estimular – que produz efeitos poderosos de des-simbolização, como é evidenciado pelo terceiro mandamento: ‘ não pensar, gastar! ‘ Vivemos num universo feito de egoísmo, do interesse pessoal do self – love, o seu primeiro princípio.[2] ‘ (Dany Robert Dufour: L’Art de réduire les têtes, Editions Denoël, Paris. 2003)
“Destruidor do ser-em conjunto e do ser-em si, escreveu Dany Robert Dufour, o neoliberalismo leva-nos a viver numa cidade perversa. (…) Agora celebra a aliança do Marquês de Sade e de Adam Smith. O valor simbólico, escreve o filósofo Dany – Robert Dufour, é assim desmantelado, a favor do simples e neutro valor monetário das mercadorias de modo que nada mais, sem outras considerações (moral, tradicional, transcendente…), pode obstruir a sua livre circulação. Sob os golpes brutais da pós-modernidade, a civilização tal como nós a conhecemos pode desaparecer rapidamente. Nunca devemos esquecer que as civilizações milenárias podem-se extinguir no espaço de alguns lustres [3].
Não é proibido de acreditar nestes tempos de grandes dificuldades materiais que o facto religioso volte a aparecer e em grande plano, os necessitados não tendo onde se apoiarem materialmente se entregam de uma forma irracional à sua esperança religiosa agora que a sua passagem na terra é um fracasso assumido
As interrogações da Argélia
Como todos os países em processo de maturação do Estado-nação, a Argélia está mais vulnerável do que nunca. Deve, por exemplo, estar muito vigilante. Acontecimentos como os de Ghardaia que é atribuída erroneamente a uma zaragata de crianças, como foi o caso, em outubro de 1988 deve levar toda a gente a meditar. Não haverá paz enquanto o viver em conjunto não estiver escrito para sempre na nossa interioridade como povo. Para fazer isso, é necessário passar por uma reconciliação da Argélia com a sua história enquanto que a velha moral, que só aparentemente pode acalmar e mesmo assim muito precariamente, tem cada vez menos futuro no século XXI de todos os perigos.
Chems Eddine Chitour, Le Néolibéralisme Laminoir: Le fossoyeur des identités et des spiritualités, Fevereiro de 2014.
Texto disponível em Agora Vox : http://www.agoravox.fr/tribune-libre/article/le-neoliberalisme-laminoir-le-147634
* Professeur à l’Ecole Polytechnique enp-edu.dz
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[1] Pierre Bourdieu : L’essence du néolibéralisme. Le Monde diplomatique Março, 1998.
[2] 8. Dany Robert Dufour : L’Art de réduire les têtes, Editions Denoël, Paris. 2003.
[3] Chems Eddine Chitour http://www.mondialisation.ca/le-n-olib-ralisme-destruction-du-collectif-et-atomisation-de-l-humain/19532 3 juin 2010
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Ver a Parte II deste trabalho de Chems Eddine Chitour, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:
O NEOLIBERALISMO COMO MÁQUINA DE DESTRUIÇÃO, de CHEMS EDDINE CHITOUR





