Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O Desastre Italiano
Perry Anderson, The Italian Disaster*,
London Review of Books, Volume 36, Nº 10, 22 de Maio de 2014
Parte VIII
(CONTINUAÇÃO)
…
Para garantir o voto de confiança, Bersani teve que garantir um acordo – coligação ou tolerância – com Berlusconi ou com Grillo. O primeiro destes dois era um anátema para a base do PD de modo que Bersani tentou então o segundo. Mas Grillo não estava interessado. Para o M5S, o resultado ideal do impasse pós-eleitoral era um governo constituído à base do conjunto Berlusconi – Bersani, provando a sua afirmação de que o centro-direita e o centro-esquerda eram os dois lados da mesma moeda (uma vez que a sigla para o partido de Berlusconi é PDL, Grillo refere-se a Bersani como ‘PD menos L’) e contra os quais ele era a verdadeira oposição. Assim, Grillo deixou em aberto a formação de um governo de centro-esquerda com um apoio minoritário no Parlamento a depender portanto da tolerância face às medidas que iriam sendo tomadas. Napolitano, cujo convite para formar governo era necessário, rejeitou esta hipótese. Infelizmente o regime de Monti, que tinha tido o apoio das duas coligações, a de centro-esquerda e a de centro-direita, acabou por ter um fim bem prematuro quando, ao contrário, Monti esperava ser reeleito. Consistente com uma carreira em que se colou sempre ao que em cada momento eram os poderes fortes do momento, para Napolitano este poder era agora a UE cujas directivas constituíam a pedra de toque da responsabilização. Sendo assim, o imperativo seria o de formar um governo bipartidário que garantiria a estabilidade e a austeridade exigida por Frankfurt e Bruxelas contra a agitação popular. Nesta base, Bersani insistiu na sua posição. Não estava à vista nenhuma resolução sobre o impasse quando – após seis semanas de acusações pós-eleitorais – chegava ao fim o mandato de Napolitano como Presidente. Os media insistiram em que aceitasse um segundo mandato, como sendo ele o único dique que protegeria a Itália do caos, diziam em grandes caixas os jornais. Mas era uma regra não escrita de que nenhum presidente italiano se tinha servido no final de um mandato e Napolitano, categórica e repetidamente, desaprovou tal hipótese. Ele tinha feito o seu dever e estava a arrumar as suas malas.
Um último serviço ele assegurou, e fê-lo. Em 5 de Abril, concedeu o perdão presidencial ao coronel americano Joseph Romano, condenado à revelia a sete anos pela sua participação no rapto em Milão de um sacerdote egípcio, que foi então metido num um avião militar americano e enviado para o Cairo onde esteve sujeito a meses de tortura nas mãos da polícia de Mubarak. Constitucionalmente, um perdão presidencial só pode ser concedido por razões ‘humanitárias’, e nunca por razões políticas. Romano nem sequer tinha passado um dia na prisão, tendo fugido do país. Mas Obama tinha pessoalmente pedido que essa “ bagatela” fosse negligenciada e Napolitano não hesitou, como muitas vezes antes, em desrespeitar a Constituição, explicando que tinha perdoado a Romano ‘ para obviar a uma situação de evidente delicadeza para com um país amigo’. O suserano tinha mudado e daí também os crimes. A sua atitude para com um poder mais forte é que não.
Um presidente italiano é eleito numa sessão conjunta das duas Câmaras do Parlamento, além dos representantes das regiões, por escrutínio secreto. Uma maioria de dois terços é necessária para a eleição nas três primeiras rondas eleitorais, posteriormente apenas uma maioria simples. Porque os votos são secretos, a disciplina partidária é fraca, e muitas rondas eleitorais podem ser necessárias para eleger com sucesso um candidato. Em 2006, Napolitano passou ao quarto escrutínio. Em 2013, os eleitores votaram 1007 vezes, exigindo-se 672 votos no primeiro conjunto de rondas eleitorais e 504 posteriormente. O centro-esquerda tinha 493 destes eleitores, uma clara posição inicial de força sem precedentes. Mas desde que o Presidente é suposto ser super partes, a convenção mantém que um candidato deve ter um grau de consenso interpartidário. O PD procurou, portanto, o acordo de centro-direita para uma figura que ambos poderiam apoiar. Franco Marini, um veterano democrata-cristão e ex-presidente do Senado, foi o escolhido. Marini foi rapidamente desacreditado por Renzi, de cuja facção desertou no PD, e por este foi criticado como sendo um fóssil. Franco Marini obteve 521 votos, muito aquém dos dois-terços, mas os votos suficientes para uma maioria simples.
Enervado por este contratempo, ao invés de se manter firme no seu apoio para a quarta ronda, o PD abandonou Marini e na confusão criada votou em branco nas rondas seguintes, em que o jurista Stefano Rodotà, proposto pelo M5S, atingiu o máximo dos votos 230-250. Grillo, abandonou a sua recusa em não ter nada a ver com o PD e apelou para se unirem forças com o M5S e eleger Rodotà na próxima ronda eleitoral, insinuando que se isto fosse feito a cooperação entre os dois partidos, tendo em vista o acordo para formar um governo, era possível. Rodotà não era uma escolha sectária; amplamente respeitado, ele tinha sido mesmo um ex-presidente das eleições anteriores proposto pelo PD. Mas sendo um grande defensor da legalidade constitucional, Rodotà não era aceitável para o partido a que tinha pertencido, o qual temia que ele pudesse impedir as alterações institucionais que o PD tinha em mente, para não falar já da hipótese de recusar qualquer entendimento com Berlusconi, para quem era um anátema.
(continua)
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*Ver o original em:
http://www.lrb.co.uk/v36/n10/perry-anderson/the-italian-disaster
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