Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Soberanistas de todos os partidos … Uma conversa com dois euro-realistas do PS e de UMP
David Desgouilles, Souverainistes de tous les partis…Entretien avec deux «euroréalistes» du PS et de l’UMP
Revista Causeur, 13 de Novembro de 2014
(conclusão)
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TM: É Arnaud Montebourg que, quando ainda era ministro da economia, se considerou a si-mesmo como um «euro-crítico», num duelo contra Marine Le Pen. Ele quis defender ardentemente a desvalorização do euro. Sublinhe-se que se isso se tivesse produzido, à margem, não foi graças a ele mas ao pânico do Banco Central Europeu. Penso que ele sabe, agora, que a supranacionalidade da moeda não permite que se possa agir sobre a política monetária de toda a Europa, especialmente devido à teimosia da Alemanha em querer uma moeda forte.
À direita, a reacção da UMP face à posição de Henri Guaino e Laurent Wauquiez durante a campanha europeia levou-me a lançar na nossa associação. Sobre a questão do Euro, Guaino também se manifestou sobre o assunto, dizendo ainda que “o euro foi um erro”. Se ele o admite, então ele tem medo do “salto no vazio” que seria a saída do euro. Assim, na sua convicção profunda, ele admite que esta moeda é um veneno.
Nas nossas fileiras, alguns defendem uma saída do euro, outros a passagem para uma moeda única, para uma moeda comum, outros ainda permanecem febris na ideia de sairmos do euro, pura e simplesmente isso. Entre estes últimos estou inclusive eu. Tudo isto é claro, o desagrado perante o euro é pois consensual, a solução é que ainda o não é, devemos, portanto, discutir e avançar argumentos sobre argumentos para mostrar as vantagens e desvantagens desta saída, a fim de concluir o que poderá ser melhor para o nosso país. Esta questão será, portanto, um ponto essencial do nosso debate. Mas em todos os casos, não podemos permanecer nesta situação insustentável na qual nos coloca a moeda única que hoje só interessa à economia alemã. No que se refere a estas duas políticas, esperamos que eles como muitos outros aceitarão vir, em breve, discutir inteligentemente esta questão, a convite da juventude que representamos.
Os signatários do vosso manifesto são ambos dos dois principais partidos do poder, no seio dos quais os vossos argumentos dificilmente se fazem ouvir e de movimentos mais modestos (Debout la France, de Nicolas Dupont – Aignan que aí está sobre-representado) de que as vossas ideias são a espinha dorsal. Isto não é prova de que nenhuma dessas duas estratégias – tentar ter peso num grande partido, defender as mesmas ideias numa pequena formação soberanista – se tem revelado eficaz até agora?
GL: DLF foi sobre-representado entre os signatários mas o manifesto publicado em Marianne permitiu-nos termos notícias de novas assinaturas que reequilibram, em parte, os efectivos, nomeadamente à esquerda. A minha experiência num grande partido mostrou-me o impasse de uma acção no plano interno tanto o próprio partido é irreformável a partir do interior. A título de exemplo, veja-se Martine Aubry – filha biológica e política de Jacques Delors, este grande representante e defensor do projecto comunitário – ser a chefe de fila dos contestários (frondeurs) tem o seu quê de cómico e ilustra as posturas vazias e desprovidas de visão política que se produzem numa esquerda que está claramente paralisada. O combate cultural deve por conseguinte impor-se aos partidos de esquerda pelo corpo de cidadãos não militantes e ameaçá-los de Pasokização. Acredito no declic popular que há-de vir.
Por outro lado, DLF (Debout la France) é um partido ainda jovem. Não será ainda demasiado cedo para julgar os seus resultados, enquanto que uma dinâmica positiva parece estar a jogar a seu favor? Certamente, a lógica da 5ª República não dá nenhuma vantagem ao partido de Nicolas Dupond-Aignan mas será que não vêem a direita que está em vias de se transformar? Porque acreditam que a Direita popular escolheu tornar-se mais independente nestes últimos dias constituindo-se como tal? As linhas de clivagem estão a mudar.
TM: Sim, a presença dos euro-realistas no seio de todos os partidos foi-nos de uma grande motivação na criação da nossa associação. Mas hoje estes militantes são, seja marginalizados no interior dos grandes partidos como a UMP ou o PS, seja em partidos mais pequenos, mais jovens e menos mediatizados como o MRC, o UPR ou DLF por exemplo. A nossa associação tem, por conseguinte, a vocação de nos reforçar mutuamente e isto independentemente do caminho que cada um tiver escolhido, o importante sendo informar os Franceses e debater o mais largamente possível as numerosas questões ligadas à estagnação da França na União Europeia. Certamente, DLF foi representado de maneira importante mas hoje o equilíbrio retorna nos novos signatários que acabam de se juntarem aos 100 primeiros e que saíram de todos os partidos: PG, MRC, Nouvelle Donne, UPR, UMP… e de numerosos não-encartados que se querem empenhar e debater, o que francamente testemunha uma verdadeira expectativa de mudança.
Um de entre vocês foi muito activo na Manifestação Para Todos. Os debates sobre questões puramente sociais não suplantam eles desde há alguns meses os debates europeus, económicos, monetários? À prazo, não se arriscam a fazer nascer divisões insuperáveis no vosso colectivo que é ainda recém-nascido?
TM: No seio da associação existe uma grande liberdade e aceitamos o percurso de cada um desde que não seja contrário aos valores da nossa associação. No que me diz respeito, o meu envolvimento na Manifestação para todos mostrou-me que há hoje outras maneiras de fazer política, que não é obrigatoriamente necessário estar nos partidos políticos para debater ideias, muito longe disso. A Manifestação para todos, para além das suas posições e do fundo que lhe estava subjacente, demonstra sobre as formas que se pode, fora dos partidos, influenciar o debate político e aqueles que o representam. Pode-se constatar hoje que os partidos parecem às vezes ultrapassados sobre certos pontos e que é necessário reinventar o compromisso político no sentido nobre do termo. Há esta vocação meta-política que está na essência da nossa associação. No seio dos jovens euro-realistas, cada um mantém as suas ideias mas não põe à frente o seu partido a fim de guardar o que é essencial: um verdadeiro debate e longe dos aparelhos políticos. Pusemos em primeiro plano o que nos aproxima – a nossa real vontade de debate – para relegar para segundo plano o que nos poderia dividir. Além do mais, a nossa organização transpartidária e com um Conselho de administração dotado de uma grande diversidade e de 4 Co-presidentes, garantes das diferentes sensibilidades dos nossos membros que são Guillaume, Charles Roehrich, Corentin Balaine e eu próprio a fim de evitar toda a personificação da nossa associação que neste caso teria podido ter como único efeito o de prejudicar à nossa vontade de diversidade de opinião.
GL: A motivação de base desta associação é fazer com que os debates sobre os temas de sociedade não suplantem precisamente os debates europeus e económicos sem, no entanto, se estar a cair na armadilha do “économismo”. Como não temos vocação para nos tornarmos partidos políticos, podemos permitir-nos restringir os nossos trabalhos aos campos temáticos precisos da questão europeia, aí pois o que já aqui representa muito trabalho! Quando se constrói uma casa, ocupamo-nos primeiramente das funções antes de colocar o papel de parede.
A cor do papel de parede? Thomas Ménagé responder-vos-á sem dúvida que a família, a filiação, tem mais a ver com as fundações!
GL: Do ponto de vista antropológico, não posso considerar isso como errado se é o que vêm dizer. Christine Taubira, ela própria disse que se trata de uma “reforma da civilização”.
Do ponto de vista político, como parte da decisão de fazer um projecto de sociedade, não será sobretudo a escala de soberania escolhida para o exercício da democracia que é mais importante e que constitui uma base fundamental para que o poder seja reconhecido como legítimo? Ora, nós estamos numa associação política.
TM: Considero as questões em torno da família e da filiação como uma fundação da casa, para retomar a metáfora de Guillaume. Esta fundação também está a ser atingida pelas instituições supranacionais europeias. Viu-se isso muito bem com a recente decisão do Tribunal Europeu dos direitos humanos – embora seja uma instituição europeia mas não relacionada com a UE – relativamente à GPA ( gestação para outrem) ou ainda com várias directivas vindas da Comissão e do Parlamento Europeu. Pode-se ver ainda com este governo que, sob o pretexto de reduzir os défices, sob a liderança da Comissão, é toda uma política familiar afectada quando esta é uma importante conquista e de grande sucesso em França.
Contudo, se a família é uma fundação, ela afirma-se e mostra-se como sendo frágil e pouco viável se esta é atingida pelo desemprego, pela pobreza, e pelos fins de mês a contar e a querer esticar os últimos cêntimos. As consequências da União Europeia sobre a nossa economia e sobre o nosso modo de vida estão a matar a nossa soberania e a nossa coesão nacional. E nisto estamos todos de acordo, juntamo-nos todos. Por último, pouco importam as opiniões de cada um, esta lei sobre o casamento para todos é um tema de tal modo importante que esta merece um referendo, o que já foi reclamado muita vez. Um referendo, isso é um regresso à soberania nacional, e a associação foi sobretudo constituída para defender os temas da soberania!
David Desgouilles, Souverainistes de tous les partis…Entretien avec deux «euroréalistes» du PS et de l’UMP, Revista Causeur, 13 de Novembro de 2014.
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Para ler a Parte I desta entrevista de David Desgouilles, a Guillaume Lelong e a Thomas Menagé, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
http://aviagemdosargonautas.net/2014/12/06/soberanistas-de-todos-os-partidos-uma-conversa-com-dois-euro-realistas-do-ps-e-da-ump-por-david-desgouilles-i/
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Texto original disponível em :
http://www.causeur.fr/souverainistes-de-tous-les-partis%E2%80%A6-30181.html


