Mãe Mediterrânea – por Manuel Simões

(ilustração de Adão Cruz)

            1

 

O sol e o azul formaram a terra,

o canto da flauta deu-lhe o som

 

que faltava, a sombra flutuante

descaindo à tarde sobre as ribeiras

 

do mar, dando corpo ao teu pulsar

ardente de mãe mediterrânea.

 

                       2

 

Foi assim que nasceste possuída

pelos ritos, da fecundidade e outros,

 

pelo culto da terra e da Natura

e logo assumiste os trabalhos e os dias,

 

a vida e a morte, a dança obsessiva,

a paixão espontânea, vazia de memória.

 

                       3

Porque à mãe terra tudo é congenial,

tudo é o início do mito fecundado,

 

de súbito aceso pelo sol e o azul.

Tu que resumes a grande metáfora,

 

O espaço do encontro em que um deus só

falou em muitas línguas, o domínio

 

anterior ou poder sobre o mar, os

mitos dominadores das etnias

 

agora desunidas: se o mar

não pode pacificar a terra, seja

 

a terra a escansão do diálogo,

 lugar de trânsito, signo ilimitado.

 

                        4

 

Deusa marinha, mulher, esposa

e mãe, guia dos argonautas

 

a quem ensinaste a arte ainda

desconhecida da navegação.

 

De ti provém o canto de Orfeu contra

as  sereias: a poesia contra a sedução.

 

 

(in Micromundos, pp. 16 a 18)

 

 

 

 

 

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