(ilustração de Adão Cruz)
1
O sol e o azul formaram a terra,
o canto da flauta deu-lhe o som
que faltava, a sombra flutuante
descaindo à tarde sobre as ribeiras
do mar, dando corpo ao teu pulsar
ardente de mãe mediterrânea.
2
Foi assim que nasceste possuída
pelos ritos, da fecundidade e outros,
pelo culto da terra e da Natura
e logo assumiste os trabalhos e os dias,
a vida e a morte, a dança obsessiva,
a paixão espontânea, vazia de memória.
3
Porque à mãe terra tudo é congenial,
tudo é o início do mito fecundado,
de súbito aceso pelo sol e o azul.
Tu que resumes a grande metáfora,
O espaço do encontro em que um deus só
falou em muitas línguas, o domínio
anterior ou poder sobre o mar, os
mitos dominadores das etnias
agora desunidas: se o mar
não pode pacificar a terra, seja
a terra a escansão do diálogo,
lugar de trânsito, signo ilimitado.
4
Deusa marinha, mulher, esposa
e mãe, guia dos argonautas
a quem ensinaste a arte ainda
desconhecida da navegação.
De ti provém o canto de Orfeu contra
as sereias: a poesia contra a sedução.
(in Micromundos, pp. 16 a 18)

