Os Estados Unidos vão perder a sua notação AAA?
Na batalha política e verdadeiramente suicida que domina Washington. sobre o limite de dívida do Estado Federal americano, um outro braço de ferro se iniciou agora .
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Pareceria que a sanção da baixa da notação AAA dos Estados Unidos poderá até acontecer mesmo antes do voto sobre o tecto de dívida. Ontem à noite, certos comentadores iam até ao ponto de considerar esta nova nota como coisa virtualmente adquirida.
Que as finanças públicas dos Estados Unidos não estejam numa situação digna de um país que tem ao mesmo tempo esta riqueza e esta capacidade não há nenhuma dúvida. Desde há anos, que os principais mutuantes de fundos dos Estados Unidos são os bancos centrais do mundo inteiro e, muito especialmente o Peoples’ Bank of China , que detém quase 1.000 mil milhões de dólares em títulos do Tesouro americano.
O facto mais importante é que os Estados Unidos já não têm os meios para apoiar o resto do mundo. Cada vez mais, Barack Obama tem um discurso novo e perfeitamente lógico: não contem mais com os Estados Unidos para ser o fornecedor de fundos de todos os conflitos ou de todas as situações económicas difíceis. Já não temos mais esses meios.
Este limite da capacidade financeira (e por conseguinte política) dos Estados Unidos não é disputado pelos partidos políticos que estão de acordo para se dar uma baixa substancial do défice orçamental e reconhecem que a dívida pública é demasiado elevada. Com mais de 14.000 mil milhões de dólares, representa cerca de 100% do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos.
O debate está ao mesmo tempo sobre os meios e sobre o método. Onde os republicanos quereriam cortes sombrios imediatos nos programas sociais, os democratas consideram que é necessário igualmente aumentar as taxas sobre os rendimentos mais elevados e suprimir certas formas desavergonhadas de subsídios aos quais várias indústrias (entre as quais a muito rica e potente indústria petrolífera) consideram ter direito (“entitlements “).
Como sempre, por detrás do debate sobre as finanças públicas, são as prioridades políticas, económicas e sociais que estão em causa.
Qual seria a justificação de uma baixa da notação dos Estados Unidos?
Os factos são conhecidos e não evoluíram fundamentalmente nos últimos meses. Pelo contrário, a Casa Branca iniciou negociações ásperas com os partidos políticos para se diminuir mais de 2.500 mil milhões de dólares a dívida federal durante dez anos.
A única justificação da baixa de notação é, uma vez além disso , mais próxima da política do que da economia. As agências de notação tornaram-se uma mistura de acompanhamento à maneira dos carneiros de Panurge dos mercados e dos julgamentos políticos de que são fortemente críticos . Elas terão dificuldade em apresentarem argumentos precisos sobre a deterioração da capacidade de endividamento dos Estados Unidos. Mas terão inegavelmente um impacto.
O efeito perverso das suas intervenções diminui tanto mais a sua legitimidade quanto as últimas correcções da Grécia assemelharam-se mais a um narcisismo desenfreado do que a uma verdadeira deterioração da situação grega. As intervenções da cimeira europeia não resolvem os problemas, mas é absurdo estar aí a reduzir a nota grega excepto se tem a audácia de decretar um incumprimento de pagamento selectivo.
O outro efeito perverso vem dos meios de comunicação social que parecem viver com prazer este braço de ferro e aceitam cegamente o julgamento das agências de notação como se este julgamento das agencias constitua em si-mesmo um elemento da saúde financeira dos países. Da paranóia colectiva já não se está longe.
Quais seriam as consequências de uma baixa da notação dos Estados Unidos?
É difícil predizê-lo.
Para já o prémio de risco dos Estados Unidos aumentou através do do mercado dos CDS, mas ainda que em percentagem e mesmo que seja uma duplicação deste prémio num ano, trata-se de um aumento de 0,25%. Já o mercado dos Cupões do Tesouro integrou este prémio. Poderia aumentar-se de 0,25% que isto não alteraria a face do mundo, e mais ainda não alteraria o custo do financiamento do governo federal de maneira catastrófica.
O impacto seria mais psicológico e mais político que portanto financeiro. Isto colocaria mais combustível sobre o fogo dos conflitos políticos nos Estados Unidos. A Casa Branca acusará os republicanos que farão do mesmo modo para a Casa Branca.
O que está em causa é muito mais subtil e mais importante: seria mais um elemento na tendência pesada da perda de prestígio dos Estados Unidos. Já a supremacia financeira de Wall Street, a capacidade das suas forças armadas enfiadas em conflitos sempre-eternos e a moralidade das suas intervenções (tortura…) diminuíram a estima que o mundo tinha sobre os Estados Unidos. Uma perda de notação AAA acrescentar-se-ia a este lento e relativo declínio.
Em contrapartida, os cupões do Tesouro não estando maciçamente nas carteiras de títulos dos bancos, estas carteiras não deveriam vulnerabilizadas por esta mudança de notação. É isto que as diferencia dos bancos europeus.
Não nos congratulemos com a desgraça dos Estados Unidos
Ouço já os gritos roucos dos políticos europeus e dos meios de comunicação social que influenciam fortemente a opinião pública. É próprio de uma boa guerra.
Mas o conjunto das economias mundiais sentir-se-á.
Esta baixa de notação abre o debate sobre a França (que o FMI já avisou ) e a Grã-Bretanha. A sua nota AAA está pois ameaçada. Não devem demorar a seguirem-se aos Estados Unidos, não deve demorar a serem os próximos países a serem atingidos.
