A democracia ameaçada pelas agências de rating, ameaçada também pelos nossos silêncios. Parte II-B. Georges Ugeux, PDG de Galileo Global Advisors, em Nova Iork, publicado por Le Monde. Tradução de Júlio Marques Mota.

 

Os Estados Unidos vão perder a sua notação  AAA?

 

Na batalha política e verdadeiramente  suicida que domina Washington. sobre o limite de dívida do Estado Federal americano, um outro braço de ferro se iniciou agora .

.

Pareceria que a sanção da baixa da notação AAA dos Estados Unidos poderá  até acontecer  mesmo antes do voto sobre o tecto de dívida. Ontem à noite, certos comentadores  iam até ao ponto de  considerar esta nova nota como  coisa virtualmente adquirida.

 

Que as finanças públicas dos Estados Unidos não estejam numa situação digna de um país que tem ao mesmo tempo esta riqueza e esta capacidade não há nenhuma dúvida. Desde há anos, que os principais mutuantes de fundos dos Estados Unidos são  os bancos centrais do mundo inteiro e, muito especialmente  o Peoples’ Bank of China , que detém quase 1.000 mil milhões de dólares em  títulos  do Tesouro  americano.

 

O facto mais importante é que os Estados Unidos já  não têm os meios para apoiar o resto do mundo. Cada vez mais, Barack Obama tem um discurso novo e perfeitamente lógico: não contem  mais com os Estados Unidos para ser  o fornecedor  de fundos de todos os conflitos ou de todas as situações económicas difíceis. Já não temos mais esses meios.


Este limite da capacidade  financeira (e por conseguinte política) dos Estados Unidos não é disputado pelos partidos políticos que estão de acordo para se dar  uma baixa substancial do défice orçamental e reconhecem que a dívida pública é demasiado elevada. Com mais de 14.000 mil milhões de dólares, representa cerca de 100% do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos.

 

O debate está ao mesmo tempo sobre os meios e sobre o método. Onde os republicanos quereriam cortes sombrios imediatos nos programas sociais, os democratas consideram que é necessário igualmente aumentar as taxas sobre os rendimentos mais elevados e suprimir certas formas desavergonhadas  de subsídios aos quais várias indústrias (entre as quais a muito rica e potente indústria petrolífera) consideram ter direito (“entitlements “).

 

Como sempre, por detrás  do debate sobre as finanças públicas,  são as prioridades políticas, económicas e sociais que estão em causa.

 

Qual seria a justificação de uma baixa da notação dos Estados Unidos?


Os factos são conhecidos e não evoluíram fundamentalmente nos últimos meses. Pelo contrário, a Casa Branca iniciou negociações ásperas com os partidos políticos para se diminuir mais  de 2.500 mil milhões de dólares a dívida federal durante dez anos.

 

 

A única justificação da baixa de notação é, uma vez além disso , mais próxima  da política do que da economia. As agências de notação tornaram-se uma mistura de acompanhamento à maneira  dos carneiros de Panurge  dos mercados e  dos julgamentos políticos de que são fortemente críticos . Elas terão dificuldade em apresentarem argumentos precisos sobre a deterioração da capacidade de endividamento dos Estados Unidos. Mas terão inegavelmente um impacto.

 

O efeito perverso das suas intervenções diminui tanto mais a sua legitimidade quanto  as últimas correcções da Grécia assemelharam-se mais  a um narcisismo desenfreado do que a uma verdadeira deterioração da situação grega. As intervenções da cimeira europeia não resolvem os problemas, mas é absurdo estar aí a reduzir a nota grega excepto se tem  a audácia de decretar um incumprimento de pagamento selectivo.

 

O outro efeito perverso vem dos meios de comunicação social que parecem viver com  prazer este braço de ferro e aceitam cegamente o julgamento das agências de notação como se este julgamento das agencias constitua em si-mesmo  um elemento da saúde financeira dos países. Da  paranóia colectiva já não se está longe.

 

Quais seriam as consequências de uma baixa da notação dos Estados Unidos?


É difícil predizê-lo.

 

Para já o  prémio de risco dos  Estados Unidos aumentou  através do do mercado dos  CDS, mas ainda que em percentagem e mesmo que seja uma  duplicação deste prémio num ano, trata-se de um aumento de 0,25%. Já o mercado dos Cupões do Tesouro integrou este prémio. Poderia aumentar-se de 0,25% que isto  não alteraria a face do mundo, e mais ainda não alteraria o custo do financiamento do governo federal de maneira catastrófica.

 

O impacto seria mais psicológico e mais político que portanto financeiro. Isto colocaria mais combustível  sobre  o fogo dos conflitos políticos nos Estados Unidos. A Casa Branca acusará os republicanos que farão do mesmo modo para a Casa Branca.

 

O que está  em causa é muito mais subtil e mais importante: seria mais um elemento na  tendência pesada  da  perda de prestígio dos Estados Unidos. Já a supremacia financeira de Wall Street, a capacidade das suas forças armadas enfiadas  em conflitos sempre-eternos  e a moralidade das suas intervenções (tortura…) diminuíram a estima  que o mundo tinha sobre os  Estados Unidos. Uma perda de notação AAA acrescentar-se-ia a este lento e relativo declínio.

 

Em contrapartida, os cupões do Tesouro não estando maciçamente nas carteiras de títulos dos bancos, estas carteiras não deveriam vulnerabilizadas  por esta mudança de notação. É isto que as diferencia  dos bancos europeus.

 

Não nos congratulemos  com a desgraça dos Estados Unidos

 

Ouço já os  gritos roucos dos políticos europeus e dos meios de comunicação social que influenciam fortemente  a opinião pública. É próprio de uma boa guerra.

 

Mas o conjunto das economias mundiais sentir-se-á.


Esta baixa de notação abre o debate sobre a França  (que o FMI já avisou )  e a Grã-Bretanha. A sua nota AAA  está pois ameaçada. Não devem  demorar a seguirem-se aos Estados Unidos, não deve demorar a serem os próximos países a serem atingidos.

 

 

 

 

Leave a Reply