Desde a fundação do clube que os atletas do Benfica foram designados por «vermelhos». Não havia aqui qualquer conotação política – tão só uma alusão à cor das camisolas. Quando, em1936, asedição fascista contra o Governo da República desencadeou a Guerra Civil de Espanha e o Rádio Clube Português foi convertido em antena do movimento rebelde, logo Botelho Moniz proibiu que se chamasse «vermelhos» aos jogadores ou adeptos benfiquistas – a analogia com os «rojos» de que os histéricos propagandistas da revolta fascista faziam uso constante, referindo-se ao exército Republicano, seria inevitável. A lição foi de tal modo bem aprendida que hoje, até no interior do clube, agora que já nada impedia que o vermelho fosse orgulhosamente assumido, se diz «encarnado».
As origens da cor vermelha como símbolo do ideal socialista, conhecêmo-las – a Comuna de Paris, adoptou o vermelho como símbolo do sangue vertido pelo que pereceram. Nada que envergonhe. O Partido Socialista, no entanto, parece querer desvincular-se dessa conotação «sinistra» em todos os sentidos. A cavalgada «socialista» dos anos 80 do século XX em França, Grécia, Espanha e Portugal foi ganha por uma estirpe de políticos – Soares, Felipe González, Miterrand, Papandreu que deram ao termo «socialismo» um novo significado e, sob o fogo cerrado da direita, tentaram demarcar-se do socialismo histórico, inventando slogans como «O socialismo de face humana» por oposição ao socialismo de Estado, que tão má reputação dava ao conceito.
Transformaram em rosa o que foi vermelho, recusando conotações com a Comuna, com o Outubro russo, com a Guerra Civil de Espanha e com outros marcos que os socialistas revolucionários sempre ostentaram com orgulho. Do socialismo conservaram apenas o nome. Aquilo que esses políticos fizeram, em termos comerciais é designado por uma «usurpação de marca». Com este passe de mágica, prepararam o socialismo para os novos tempos: pegaram na embalagem e meteram-lhe dentro um produto diferente. São pragmáticos.
A propósito, diz Alain Touraine: «Os que são proprietários do socialismo como se duma marca comercial se tratasse já não sabem em nome do que é que falam; reduzem a politica à táctica; tornam-se estranhos à vida das ideias. São padres pretensiosos de uma religião sem fiéis».
