Acabar com o trabalho poria fim ao desemprego – por Carlos Loures

 

O ensaísta francês Albert Jacquard desenvolve uma consistente defesa de uma sociedade futura menos voltada para o consumo e mais evoluída

 

culturalmente, com uma consciência colectiva que ultrapasse interesses pessoais, de classe, de género, etnia, de religião ou quaisquer outros. Mais pobre materialmente e mais rica humanisticamente, regredindo do ponto de vista da posse de bens individuais e evoluindo no sentimento de pertença a uma comunidade de milhares de milhões de pessoas. Mais voltada para o ser do que para o ter.

 

 

 

A sua teoria de um «decrescimento sustentável», radica na tomada de consciência de que o crescimento descontrolado das economias conduzirá, com o aumento exponencial da população, ao caos social e ao extremar das desigualdades, dado que os recursos do planeta são limitados, finitos. O que aqui digo resulta de apontamentos tomados durante uma intervenção de Jacquard numa jornada de debate interdisciplinar sobre o desenvolvimento territorial a partir das relações entre educação, acção meio-ambiental e cultural, realizada no Centre d’Estudis i Recursos Cultural de Barcelona e a que assisti há uns anos. O que se segue é fruto dessas notas, auxiliadas por uma entrevista que no dia seguinte Jacquard deu a um jornal diário. Não reproduzo textualmente o que o sábio disse, mas tento resumir o sentido do que disse.

 

Começou a palestra com uma citação de Valéry – «Le temps du monde fini commence», «agora que fomos à Lua, pudemos ver como a Terra é pequena». Em contrapartida, a população não pára de crescer. Dentro de um século seremos dez mil milhões. Temos de reflectir como poderão essas pessoas viver neste pequeno planeta e, para isso, temos de ser lúcidos. A ciência trar-nos-á essa lucidez ao permitir compreender como se fabrica um indivíduo a partir do património genético. Temos de saber ver a nova realidade do mundo. Somos quatro vezes mais do que éramos no princípio do século XX. Se procedermos sem reflectir, desembocaremos na destruição da humanidade ou, em alternativa, na supressão de toda a liberdade. Temos de administrar criteriosamente os recursos do planeta, não podemos ter tantos filhos. Numa Terra pequena tem de se limitar a natalidade.

 

Quanto ao envelhecimento da população, isso, segundo Jacquard,  não é um mal. A velhice traz mais experiência. Veja-se, cada vez há menos trabalho porque há mais robôs. Quando as pessoas com mais de 65 anos ultrapassarem em número os jovens, terá de haver uma adaptação a essa realidade. O objectivo da vida humana não é trabalhar, mas sim desenvolver-se e isso pode fazer-se em qualquer idade. Isto é uma utopia, mas estamos condenados à utopia, afirmou. Os utópicos mais fantasiosos são os que vêm o mundo daqui a cem anos como uma projecção do actual. Ao contrário, os mais realistas são o que o vêm diferente. E uma vez que assim será, mais vale imaginá-lo.

 

No que se refere ao preocupante problema do crescente desemprego, Jacquard fez uma afirmação surpreendente – O ideal é que não haja trabalho. O problema do desemprego será resolvido quando ninguém trabalhar. Hoje, para produzir alimentos ou viaturas, precisa-se de cem vezes menos trabalho do que há um século. Portanto, devíamos ter cem vezes mais tempo livre. Não soubemos multiplicar os tempos livres. E os tempos livres são o tempo que se dedica à cultura. Aqui recordo a frase de Agostinho da Silva – «O homem não nasceu para trabalhar, mas sim para criar».

 

Quanto à manipulação genética, Jacquard fez parte durante quatro anos do Comité Nacional de Ética onde discutiu essa questão. Na sua opinião, a manipulação genética foi até agora benéfica. Permitiu avançar na investigação sobre o ADN e começar a curar mais eficazmente certas doenças. Pode também desembocar em aplicações perigosas. Deve proibir-se determinadas aplicações, sem bloquear a investigação. A clonagem humana, por exemplo, seria dramática; tecnicamente possível, é uma abominação. Muitas vezes um êxito técnico ou científico pode constituir uma catástrofe humana.

 

Segundo Jacquard, não estamos condenados ao caos e à catástrofe. A superpopulação, a escassez de recursos do planeta e problemas como o desemprego, têm solução. O nosso futuro depende daquilo que fizermos hoje. As transformações que se temem – do decrescimento económico ao envelhecimento da população  – não são necessariamente um mal, mas Implicam uma mudança de atitude para com a vida.  Para que essa mudança se produza, basta que a inteligência humana se sobreponha a vícios comportamentais e a preconceitos – os maiores inimigos da inteligência.

 

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